CUIDADO: spoilers à frente. Siga à própria risca.

Desde sua estreia em 2013, Orange Is the New Black veio para ficar. A dramédia criada por Jenji Kohan tornou-se, em pouco tempo, uma das séries mais famosas da Netflix, principalmente por seu incrível, versátil e gigantesco elenco e por sua ousadia em se tratando de narrativa; afinal, a trama principal gira em torno de detentas da penitenciária de Litchfield e de suas não ortodoxas rotinas, as quais envolvem agressões físicas, advertências verbais – e agora rebeliões.

É um fato dizer que o quarto ano da série foi um dos mais impactantes na vida de todas as presidiárias, principalmente se levarmos em conta a morte de uma das personagens principais, Poussey Washington (Samira Wiley), pelas mãos de um dos guardas, indicando a clara rivalidade entre as duas “castas sociais” existentes naquele recinto e mostrando, de forma construtivamente delatora e reflexiva, a precariedade do sistema carcerário dos Estados Unidos – estendendo-se de forma antropológica para outros países. Com a emersão da violência policial frente às mulheres de Litchfield, as personagens decidem se unir em um motim que culmina em uma das maiores rebeliões do microcosmos seriado – e inclina-se para diversas referências da vida real.

Desde os primeiros anos de OITNB, fez-se necessário criar uma narrativa convincente e emocionante o suficiente para ofuscar a saturação de seus personagens, cujas subtramas e backstories fundiam-se em metáforas e simbologias muito interessantes para a conexão entre o público e as criações televisivas. Com os deslizes das temporadas anteriores, as quais tinham um enfoque desequilibrado em detrimento da contextualização geral que seguisse os passos de um arco bem delineado, a equipe criativa da série conseguiu juntar as peças faltantes e orquestrou uma ária à la Tiros em Columbine (1999), com direito à exploração do potencial faltante às mulheres protagonistas e à cronologia dos eventos, além da dosagem perfeita entre drama, suspense, comédia e ação.

A VINGANÇA É MINHA

Dê poder ao homem e verás quem ele é. Coloque-se no lugar de um grupo de prisioneiras cujos direitos humanos mais básicos são negados para a entrada de uma política muito mais dura e inadmissível. Agora, pense em todas as tensões raciais e sociais que ocorrem entre gangues dentro de uma penitenciária; misture tudo isso a um homicídio culposo que prova a impetuosidade com a qual os “superiores” tratam pessoas em reabilitação e o resultado é um barril de pólvora que já deveria ter explodido há muito tempo.

É exatamente isso o que acontece em Litchfield. Poussey tornou-se uma mártir, um símbolo para a revolução cujos ideais já maturavam nas mentes de algumas detentas. Em outras palavras, a imagem da personagem encarnada por Wiley é a principal engrenagem que move os clãs da prisão a se unirem contra uma força opressora e a organizar uma reviravolta no jogo tão grande que tem a capacidade de alcançar os mais altos patamares da mídia – seja ela sensacionalista ou não. É incrível como as nuances de roteiro conseguem transpassar os níveis essencialmente antropológicos para algo muito mais arquetípico, seja no funcionamento entre os diferentes núcleos da prisão, seja no que isso representa para o futuro de cada uma das personagens. Portanto, não é com bastante surpresa que Daya (Dascha Polanco) seja a primeira a se postar para tomar o revólver em mãos e marca o ápice de mudança da vida de todas. O que se torna inesperado é que ela realmente puxa o gatilho e atinge Humphrey (Michael Torpey) na perna.

A ação não poderia ser mais explícita ou clara: o modo como são tratadas culminou em um desespero por mudanças. É claro que a violência nunca é a melhor solução numa situação dessas, mas a complexidade da psique humana muitas vezes coloca as pessoas em uma queda livre em direção a instintos primitivos que negam o próprio conceito de sociedade, esquecendo-se de que estão lidando com outros seres humanos. E aqui não faço menção apenas à primeira sequência da quinta temporada, e sim a tudo a que as detentas de Litchfield foram submetidas pela crueldade e pela reafirmação constante de superioridade por parte de seus “comandantes”.

A partir daí, as cartas do jogo foram dadas e a única coisa que podemos fazer é aguardar o desenrolar da história. Os guardas são feitos de reféns e Caputo (Nick Sandow), apesar de ser o único a compartilhar do sentimento revoltante de abandono das prisioneiras, é levado junto como representação máxima das coercitivas atitudes de uma instituição falida frente aos considerados “estorvos da sociedade”. E o sentimento de união logo se dilui, à medida em que grupos específicos tentam tomar o controle para si, impondo métodos que consideram mais eficazes para manter a estruturação da rebelião e obrigar as autoridades responsáveis – ou seja, o governo – a concordar com as demandas exigidas.

Em suma, temos alguns lados da história nos sendo apresentados através dos treze episódios da quinta temporada: o primeiro, e talvez o mais importante, vem na figura de Taystee (Danielle Brooks), a principal organizadora do motim e uma das personagens mais bem construídas da gama de OITNB. Suas nuances de personalidade invadem os campos racionais e emocionais do ser humano em momentos eximiamente estruturados, começando com o crescente ódio e a vontade pela mudança que lhe invade com a morte da melhor amiga. Depois da tempestade, a calmaria vem com suas sutis inclinações diplomáticas, permitindo que ela e outras detentas – Cindy (Adrienne C. Moore), Alison (Amanda Stephen) e Janae (Vicky Jeudy) – organizem uma lista de melhorias dentro de Litchfield e vá ao encontro da própria Constituição dos direitos humanos.

O embate entre o que é certo e o que é justo é constante neste novo ano, e seja de modo hilário ou trágico, cada um dos beats é de extrema importância para a continuação e a evolução tanto da trama quanto do cenário que nos é apresentado. É um fato dizer que a penitenciária já teve seus dias de glória e agora não passa de um complexo rural para contenção de corpos. Não, não podemos nem dizer que essa ambiência comporta humanos, justamente por seus responsáveis deixarem-na chegar ao ponto que enxergamos. Conforma os episódios vão seguindo, percebemos que o anseio pelas melhoras deixa a maioria das prisioneiras à beira de um ataque de nervos – e isso é evidenciado principalmente com Red (Kate Mulgrew) e Blanca (Laura Gómez), as quais buscam nas drogas um refúgio da situação em que vivem para fazer justiça com as próprias mãos.

Apesar do tom irônico e sarcástico das personagens, cuja caracterização visual contrasta com sua rebuscada mentalidade e diálogos tão cômicos quanto metafóricos, percebemos que OITNB tem uma grande inspiração em clássicos da literatura e do cinema para entregar à crescente gama de fãs um produto satisfatório e estimulante. Conforme a prisão se transforma em uma versão modernizada de O Senhor das Moscas (1954), seja com o retorno de seres humanos ao primitivismo e à barbárie, seja com a constante segregação justiceira que se apossa das gangues – e isso também é “engraçado” de certa forma, visto que a união de brancos e latinos ascende apenas para separá-los do que consideram inferiores ou indignos.

ATTICA 2.0

A revolta na penitenciária de Attica foi um dos eventos de maior importância e emergência social que ocorreu em solo estadunidense na década de 1970, equiparando-se até mesmo ao massacre do complexo de Carandiru aqui no Brasil. A rebelião se iniciou dentro dos guetos da prisão e espalhou-se para todos os detentos, os quais uniram forças para exigir melhor tratamento, melhores cuidados médicos, reestruturação da equipe de segurança e melhores condições de vida para os presidiários negros e latinos, os quais eram tratados como animais. Apesar da pacificidade do motim e a inclusão de reféns para que suas propostas fossem analisadas com maior cuidado, Attica durou apenas quatro dias e foi brutalmente contida pela força policial, com um resultado de 43 mortos (sendo 32 deles detentos) e uma comoção generalizada sobre a lastimável conclusão.

Em Litchfield, as coisas seguem pelo mesmo caminho. Natalie Figueroa (Alysia Reiner), ex-diretora, acaba fazendo sua incrível reentrada na série como porta-voz do governador para iniciar as negociações com as detentas, representando a camada superficial e capitalista da organicidade econômico-social, enquanto Taystee e Caputo são encarnações defensoras daquilo que é melhor para não apenas a sobrevivência, e sim a vivência em comunidade dos que sofrem. Apesar dos breves momentos de pacificidade, as demandas das prisioneiras incluem a punição do responsável pela morte de Poussey e parecem ofuscar todas as outras necessidades básicas – educação, saúde, trabalho e afins -, e, após a libertação dos reféns, não se vê mais a necessidade de estender o contrato de paz.

Desse modo, é claro perceber o desfecho das presidiárias: a equipe da SWAT invade Litchfield, leva todas presas sem um pingo de compaixão e traz um futuro ainda mais incerto para personagens com as quais nos conectamos nesses últimos quatro anos, separando duplas que traziam tanta química para a cena que não podemos deixar de sentir o coração apertar ao vê-las se afastando. A queda da prisão é o símbolo mais ativo da decadência do sistema carcerário, e até mesmo o incêndio que se inicia nos minutos finais discorre sobre como nada será como antes e que não se sabe mais o que esperar: não há esperança, não há conclusões; só podemos nos apoiar no fato de que elas ainda estão vivas.

O brilho de OITNB vem justamente com sua capacidade de oscilar entre uma configuração mais ampla e uma perspectiva mais intimista e pessoal. Para tanto, em contraposição ao motim de Litchfield, temos os desenvolvimentos de relações afetivas entre outras detentas, e aqui faço um parêntese para as protagonistas mais constantes da série, Alex (Laura Prepon) e Piper (Taylor Schilling). Neste ponto, o público está familiarizado com suas histórias conturbadas e uma irritante indecisão sobre como proceder, ou seja, se elas devem ficar juntas ou separadas. Após entrarem numa montanha-russa de sentimentos, o casal se firma como um dos mais promissores e, juntas, passam por um processo de amadurecimento que viola as leis das comédias românticas para a adição de camadas mais complexas e interessantes, incluindo a participação direta na revolta e a oposição de ideais e valores que ora as afastam, ora as aglutina.

Nicky (Natasha Lyonne) e Lorna (Yael Stone) também fazem parte de um círculo mais fechado, e suas personalidades muito distintas criam um microcosmo a ser ovacionado de diversos ângulos. Nicky está em uma luta interminável contra sua inclinação para as drogas ao mesmo tempo em que tenta esconder seus crescentes sentimentos pela colega. Enquanto isso, Lorna cria em sua cabeça uma visão perfeita de sua vida quando finalmente sair de Litchfield, apesar de deixar sua fluidez levar-lhe para outros lugares – inclusive para os braços de uma de suas amigas mais antigas lá dentro. As coisas atingem uma tensão preocupante quando descobre estar grávida de seu marido Vince (John Magaro) e ser tachada de louca pela impossibilidade daquilo ter acontecido. Junte tudo com o fato de que as duas “trabalham” na enfermaria da penitenciária e… Bom, já podemos imaginar que a relação entre ambas é baseada tanto em momentos cômicos quanto em trágicos.

Sem sombra de dúvida, o maior mérito vem com a capacidade do roteiro e da montagem da série deixarem um pequeno espaço de tempo entre os acontecimentos se transformar em uma jornada quase transcendental para as personagens principais. Primeiro, precisamos entender que a quinta temporada tem o grande diferencial de ser cronologicamente menor que as outras, estendendo-se ao longo de apenas três dias. Sim, exatamente isso: os episódios abrangem uma trinca de vinte e quatro horas justamente para poder explorar mais as relações entre as detentas, o desenvolvimento das arquitramas e até mesmo como a mídia e as forças-armadas lidaram com uma situação caótica. O potencial da série é explorado em seu máximo, principalmente se levarmos em consideração o uso de flashbacks para explanar atitudes um tanto quanto estranhas, a priori.

PROBLEMAS NO JARDIM DO ÉDEN

Um dos melhores episódios da temporada é intitulado The Reverse Midas Touch, dirigido por Prepon. Neste momento da narrativa, temos o combate físico entre Red e Piscatella (Brad William Henke). Esse guarda sempre foi um dos personagens mais antagônicos de toda a série, desde sua entrada no ano passado, e emergiu como a personalidade mais dura e impiedosa de todas. Seus métodos de controle variavam desde tortura psicológica até física, colocando as presidiárias em patamares de subjugação para reafirmar a superioridade social entre os diferentes grupos. Após a tomada de Litchfield, Piscatella ficou longe da situação e transformou-se em um corpo impotente, mostrando um lado frágil.

Mas assim que consegue encontrar um modo de entrar na prisão, vai em busca da velha ruiva que ousou lhe desrespeitar, raptando sua família e colocando todas como a audiência para as atrocidades que tinha em mente, as quais se estenderam para humilhação e descaso extremos. A contextualização fica ainda mais dramática e pesada para alguns telespectadores justamente por harmonizar, em termos narrativos, com o passado deste personagem tão irreverente às concepções humanas, mas ainda assim tão verdadeiro para com seus valores autoritários. Descobrimos que Piscatella é, na verdade, gay, e teve um breve caso com um dos presidiários de outro complexo carcerário no qual trabalhou até que outros detentos estupraram-no e o deixaram em um estado de deterioração inenarrável. A partir daí, o guarda tornou-se um ser essencialmente formado pelo ódio, buscando a justiça que não encontrou para aquele que amava e canalizando suas frustrações para as mulheres de Litchfield.

O episódio é tão sensível e simbólico que facilmente entra para um dos grandes momentos de toda a série, arquitetando uma belíssima análise do comportamento humano e como alguém pode se tornar cego pelos traumas que outrora teve – e menciono apenas Piscatella, e sim todas as participantes dessa sequência de tortura que nos puxa memórias de obras audiovisuais ambientadas na II Guerra Mundial e até em narrativas mais contemporâneas.

UNIDAS VENCEREMOS

Orange Is the New Black não se tornou uma das melhores e mais populares séries da Netflix por qualquer razão. Além de quebrar padrões de gênero e de narrativa com seus incríveis e muito bem estruturados personagens, suas histórias emocionantes e sua capacidade de colocar detalhes pontuais que permita a um público diferenciado se conectar nos mais diferentes níveis com o que lhes é apresentado.

Afinal, este show é sobre pessoas. É essencialmente humano e não se resvale de artifícios fantasiosos ou científicos como base para os acontecimentos, e sim finca-se nas relações humanas, ainda que num ambiente inesperado, e como elas se tornam imprescindíveis para o amadurecimento não só individual, como também comunitário.

Orange Is the New Black – 5ª Temporada (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Jenji Kohan
Baseado em: Orange is the New Black: My Year in a Women’s Prison, de Piper Kerman

Direção: Andrew McCarthy, Phil Abraham, Constantine Makris, Uta Briesewitz, Mark A. Burley, Jesse Peretz, Erin Feeley, Laura Prepon, Nick Sandow
Roteiro: Jordan Harrison, Tara Herrmann, Anthony Natoli, Josh Koenigsberg, Rebecca Angelo, Lauren Schuker Blum
Elenco: Taylor Schilling, Laura Prepon, Nick Sandow, Kate Mulgrew, Taryn Manning, Uzo Aduba, Danielle Brooks, Adrienne C. Moore, Dascha Polanco, Selenis Levya, Lea DeLaria, Natasha Lyonne, Yael Stone
Emissora: Netflix
Gênero: Comédia
Duração: 60 minutos

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