É sempre valioso quando o cinema contemporâneo lembra do passado e o revive através de formosas homenagens. Logan foi o excelente responsável em trazer à tona a memória do clássico Os Brutos Também Amam (uma péssima tradução para Shane), do mestre da Hollywood Clássica, George Stevens.

Produzindo o próprio filme, Stevens praticamente não poupou esforços e despesas para tornar o longa um dos mais memoráveis faroestes já filmados. Se valendo das narrativas engessadas do gênero, pegou um dos arquétipos das histórias de rancho e a imbuiu com grande comentário social sobre um oeste já domado, agora sofrendo nas mãos de rancheiros gananciosos. Aliando o misticismo da figura do forasteiro misterioso virtuoso com pistolas a uma história de resistência pela força da união, o impacto do filme foi tamanho que poderia até ser apontado como um precursor de Os Sete Samurais, obra-prima de Akira Kurosawa.

 

Opressão e Resistência

A adaptação de A.B. Guthrie Jr. do livro de Jack Schaefer traz o melhor e o pior das narrativas clássicas de Hollywood. Embora tenhamos um grande punhado de clichês do gênero e algumas figuras maniqueístas, o texto de Os Brutos Também Amam traz diversas qualidades por subverter as convenções do gênero e isso se dá principalmente pelo desenvolvimento da história.

Shane (Alan Ladd) é um andarilho de passado misterioso que acaba na propriedade dos Starrett, fazendeiros trabalhadores em fixar raízes em uma Alabama livre dos perigos selvagens da conquista do oeste americano. Fazendo amizade com o proprietário Joe (Van Heflin) e com o filho dele, Joey (Brandon De Wilde), Shane decide trabalhar na fazenda, mas logo descobre que sua paz será perturbada por um malicioso fazendeiro – Rufus Ryker, que deseja o território dos Starrett e de diversas outras famílias que vivem nos arredores.

Não é preciso ser nenhum gênio para compreender essa história bastante simples sobre a impossibilidade de redenção de um herói de passado marcado por sangue e morte. O pistoleiro exilado deseja enterrar seus erros e fugir do principal ofício que lhe sustentava outrora para virar um ajudante de fazendeiro de vida pacata e sem conflitos.

A genialidade reside na moral em não permitir que Shane consiga fugir do passado e da violência – assim como visto em O Pagamento Final de Brian De Palma, por exemplo. Apesar de ser bastante óbvio pela resistência do herói em partir para o confronto sempre que é provocado, não existe muito trabalho para torna-lo mais complexo ou denso. O filme segue o misticismo do pistoleiro sem dar detalhes de seu passado ou dos rumos do futuro.

Shane é um pivô para aglutinar os fazendeiros a resistirem as ameaças e coerções de Ryker. Essa é a alma do filme e também seu melhor foco em oferecer retratos tão genuínos de um povo simples que tenta ser feliz mesmo com todas as probabilidades sendo desfavoráveis a realização de seus sonhos. O maniqueísmo presente entre a conquista da terra através do poder por Ryker e da integridade moral dos fazendeiros solícitos uns com os outros é diluído de modo bastante surpreendente quando Ryker tenta usar outros métodos ao perceber que o medo não mais abalará aquela gente.

Para exemplificar, há um poderoso diálogo no meio da noite para justificar as motivações do vilão conectando o passado selvagem do oeste com o novo tempo de desenvolvimento agrário retratado pelo longa. O insight é valioso para injetar diversos tons de cinza na relação entre bem e mal, apesar do antagonista ser mesmo um crápula. Outro discurso impressionante é relacionado com o desarmamento que a sra. Starrett deseja para o vale, na inocência de crer que não existirá mais violência caso não haja armas no lugar – um ponto também bem explorado através de um diálogo com Shane.

Com uma história boa, progressão de eventos bastante lógica e grandes personagens que conseguem subverter os piores clichês e arquétipos do western, é difícil imaginar que haja algo que retire boa parte do encanto desse grande filme. Mas o fato é que existem problemas relacionados tanto ao roteiro quanto a direção de Stevens. Simplesmente temos um exagero de melodrama na história e o pior de tudo que a parte mais intensa desse drama é posta na figura do insuportável moleque Joey interpretado pelo péssimo Brandon De Wilde.

Os problemas são diversos: os diálogos são terríveis, todas as frases que saem da boca do menino são excessivamente infantis para um garoto daquela idade, além da constante forçada de uma relação memorável entre Shane e a criança sendo que nunca há uma cena impactante que justifique a paixão que o garoto tem pelo pistoleiro – além de, claro, imbuir um sentimento de aventura visivelmente castrado pelos pais. Fora isso, o personagem é superficial e artificial demais para gerar empatia no espectador, além de Stevens pesar muito a mão com close-ups tenebrosos das expressões sempre estranhas do ator mirim, causando um efeito ridículo para a obra.

Todo o realismo cai por terra com essas tentativas baratas de comoção e, infelizmente, o garoto é necessário para que tenhamos aquele belíssimo diálogo final marcando a despedida do herói que influenciou totalmente a conclusão de Logan. Há também outros percalços bobos como uma conveniência narrativa absurda próxima da conclusão do filme, além da inserção de um pistoleiro misterioso “do mal” na figura de Wilson interpretado por Jack Palance, o contraponto místico de Shane que é eficiente para elaborar mais tensão ao conflito, apesar de ser um artifício rasteiro.

Um Mestre para o Oeste

Apesar da produção de Os Brutos Também Amam ter ocorrido bem como geralmente acontece pela eficiência de George Stevens em gerir um set, seu método de trabalho exagerado em capturar uma cena através de diversos enquadramentos gerou um material bruto absurdamente gigantesco. Sendo filmado em 1951, o filme só conseguiu ficar pronto em 1953, exigindo muito tempo de pós-produção para Stevens na montagem, além da Paramount ter ficado bastante insegura com a qualidade final do western.

Insegurança essa que provou ser totalmente equivocada já que o longa foi um tremendo sucesso quando estreou. O sucesso tão familiar a George Stevens. Em vez de seguir ao máximo o caminho da gramática visual pré-determinada para o gênero, o diretor simplesmente fez seu filme como quis, agregando uma mistura de linguagens que rende um resultado bastante único.

O melodrama exagerado até funciona em certos níveis, como na famosa cena do velório, na qual o diretor consegue capturar uma despedida emocionante de um cachorrinho para seu falecido dono, além de trazer todo o peso dramático do elenco para a cena em questão. Outros grandes acertos da decupagem consistem nas melhores lutas corporais já feitas em um saloon para um filme do gênero, o tiroteio final, além da pequena sequência de jornada bastante triunfante para Shane aceitar seu destino violento.

Na técnica bastante pura de Stevens, há a valorização das paisagens naturais das locações, da alta fidelidade do figurino, dos cenários e dos objetos para a época, além da rústica arquitetura adequada para imprimir o realismo desejado pelo diretor que sabe muito bem valorizar essas nuances artísticas da obra. Apesar de não ser um filme Cinemascope, Stevens planeja sua decupagem com enquadramentos que valorizam a verticalidade que essas imagens evocam, podendo construir vistas estonteantes, além de mostrar detalhes de uma emboscada com somente um plano.

Apesar do ritmo da montagem do diretor ser um pouco mais acelerado do que o convencional para a época, Stevens deixa as imagens respirarem por bastante tempo, flertando um pouco com cinema mais contemplativo. Além de suas fusões sempre muito bonitas e poéticas, o diretor se aproxima muito de criar um jump cut – técnica inventada por Jean-Luc Godard em Acossado.

O que temos aqui é um “proto jump cut” já que Steven adianta a movimentação de um personagem quando adentra o saloon com uma fusão em vez de usar o corte seco como Godard faria anos mais tarde. Ainda assim, é um achado técnico e tanto para um diretor que quase inventou uma nova linguagem cinematográfica com um truque simples.

Os únicos pontos negativos da direção de Stevens recaem mesmo no exagero do uso do garoto para forçar o melodrama com close-ups tenebrosos que removem o espectador da experiência construída na base de tanto esforço artístico. Essas inserções desconfortáveis não acontecem somente com Joey, mas com todas as crianças que participam do longa. Simplesmente bizarro.

Eternizando Memórias

Não se trata da obra-prima máxima de George Stevens, mas com certeza Os Brutos Também Amam é uma peça importantíssima para o cinema americano e seu longo investimento em filmes de faroeste. Mostrando a força do bom uso dos arquétipos e de alguns clichês, temos um longa que não teme o julgamento prévio para logo exibir ao que finalmente veio encerrando com um final mágico e corajoso em quebrar convenções clássicas.

Stevens realiza mais um filme caprichado que consegue emocionar bastante com sua história simples e poderosa tão memorável que até hoje é relembrada por outros grandes filmes que a usam como fonte de inspiração.

Os Brutos Também Amam (Shane, EUA – 1953)

Direção: George Stevens
Roteiro: A.B. Guthrie Jr., Jack Sher, Jack Schaefer
Elenco: Alan Ladd, Jean Arthur, Van Heflin, Brandon De Wilde, Jack Palance, Ben Johnson, Edgar Buchanan, Emile Meyer
Gênero: Western, Drama
Duração: 118 minutos.