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Ao longo de sua extensa e prolífica carreira no Cinema, Alfred Hitchcock merecidamente conquistou seu título como Mestre do suspense, gênero com o qual trabalhara desde os primórdios de sua carreira, lá nos anos 1920. Tendo nos entregado verdadeiras obras-primas, indo desde o perversamente divertido Festim Diabólico até o angustiante Intriga Internacional, o realizador deixou sua eterna marca na Sétima Arte, tendo encontrado sua linguagem, identidade e as despejado em diversas de suas obras que já venceram o teste do tempo.

Independente de seu talento, ou importância para o Cinema, contudo, todo diretor pode perder seu contato com sua musa de inspiração, resultando em obras que não condizem, de fato, com o status de lenda pelo qual tanto trabalhara. Hitchcock não foi exceção e chega a ser poético que seu último grande filme tenha sido justamente Os Pássaros, longa que possivelmente rivaliza apenas com Psicose em termos de fama, contando com pelo menos uma cena que todo ser humano, que não more em uma caverna (ou equivalente), conheça. Aliás, se você não conhece sequer um plano qualquer de Os Pássaros, sugiro que repense o que anda fazendo com essa tela através da qual lê esta crítica.

Seguindo adiante, é importante saber o porquê dessa emblemática obra do Mestre do Suspense ser tão conhecida, por mais que esteja longe de ser o seu melhor filme. Certamente não é por seu ineditismo – ainda que não seja todo dia que vemos aves assassinas em uma história – afinal, os pássaros poderiam ser substituídos por outras criaturas que já foram contempladas em filmes. O que, de fato, diferencia essa obra de qualquer outra é a sua execução, sua atmosfera meticulosamente construída por alguém que, por mais de quarenta anos, aprendeu a arquitetar o suspense.

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Um clássico imperfeito

Os Pássaros gira em torno de Melanie Daniels (Tippi Hedren), uma mulher independente e decidida, que, após tentar pregar uma peça em Mitch Brenner (Rod Taylor), em uma loja de animais, e ver o tiro saindo pela culatra, acaba indo para a pequena cidade de Bodega Bay a fim de entregar os periquitos que Brenner desejava comprar na dita loja. Ao chegar lá, estranhos acontecimentos envolvendo pássaros locais começam a acontecer, enquanto tais aves, independente da espécie, passam a ficar mais violentas. A situação se torna aterrorizante quando centenas desses animais começam a atacar os moradores locais indiscriminadamente, chegando a levar alguns à morte. Daniels, Brenner e as outras pessoas de Bodega Bay precisam, então, sobreviver, de alguma forma, a esses ensandecidos animais.

Para um bom roteiro de filme de suspense se faz necessário o devido tempo de construção da atmosfera e da antecipação do espectador – tudo que leva ao fato central pode e deve ser tão angustiante quanto ele em si, aumentando, dessa forma, exponencialmente a tensão da audiência. O grande problema e Os Pássaros é que o texto de Evan Hunter, baseado no livro de Daphne Du Maurier, acaba introduzindo ou dilatando alguns acontecimentos inteiramente desnecessários à trama geral. Uma história de noventa minutos acaba se estendendo por duas horas, gerando uma grande e indevida lentidão nos trechos iniciais, que contam com abordagens dispensáveis de certos personagens, que ganham histórias pregressas, apenas para serem subutilizados ou descartados posteriormente.

Dito isso, esse é um filme que demora mais do que deveria para chegar no ponto certo e mesmo a construção do suspense somente começa a acontecer alguns bons minutos após o início da projeção, o que não chega a destruir a obra por completo, mas certamente a impede de atingir o mesmo nível de algumas produções anteriores de Hitchcock. Felizmente, quando o clima de tensão é firmado, nos vemos tão presos a ele, que dificilmente tiramos nosso olhar da tela, permanecendo absolutamente imersos na narrativa que se constrói principalmente através da direção de Hitchcock.

Antes de chegar lá, no entanto, precisamos abordar outra questão que bastante incomoda em Os Pássaros: o desenvolvimento da protagonista, Melanie Daniels. Quando introduzida, a vemos como uma personagem forte, independente, como já foi dito – ela sabe se virar por conta própria (como mostra quando decide alugar um barco) e, em momento algum, conseguimos enxergá-la como alguém que depende de outros para fazer o que seja. Conforme avançamos na história, no entanto, essa abordagem muda, Daniels se torna altamente dependente de Brenner, cuja única função narrativa, além de levar e manter a protagonista naquela cidadezinha, é a de salvar o dia.

Daniels, portanto, acaba sendo reduzida à figura da donzela em perigo, culminando em uma extremamente artificial sequência da personagem não conseguindo sair de um quarto repleto de pássaros, gritando para que o homem salve a sua vida. Sim, estamos falando de um filme da década de 1960, mas é simplesmente indesculpável a súbita transformação da personagem, que muda da água para o vinho sem qualquer motivo aparente. O fato de Brenner unicamente só servir como salvador não ajuda essa construção equivocada. Aliás, chega a ser engraçado que todas as personagens femininas do longa giram em torno de Brenner, que, por sua vez, não ganha um centímetro de profundidade do início ao fim.

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O poder da sugestão

Hitchcock, no entanto, depende menos de seus personagens nesse seu filme do que da atmosfera em si e quase que integralmente através de sua direção, aliado da hábil montagem de George Tomasini, claro, ele constrói esse clima constante de tensão. O que o diretor faz aqui é trabalhar todo o seu poder de sugestão, encadeando planos que lentamente nos preparam para o que está por vir. Vez ou outra vemos os pássaros aglomerando, já outras vemos algum personagem observando esses animais com suspeitas de que há algo errado ali. Tais suspeitas, claro, passam para o espectador, que não demora muito a antecipar o que está por vir.

A trama segue e a sensação de perigo somente aumenta, potencializada pelos inicialmente pontuais ataques dessas criaturas. O diretor não precisa de muito para isso, vemos o rosto de alguém, os pássaros pousando em algum lugar ou se aproximando, e a ideia já está formada. Evidente que o bom uso das figuras pretas dos corvos ajuda nessa construção, imediatamente criando a ideia de morte conforme seus números crescem mais e mais em tela em certas sequências, enquanto em outras vemos gaivotas, principalmente nos planos mais próximos.

Assim sendo, Hitchcock cria a perfeita ilusão de que todos esses animais estão de fato ali, ao lado dos personagens, recorrendo a efeitos especiais em trechos específicos, alguns dos quais acabam transmitindo maior artificialidade, especialmente na primeira vez que as criaturas entram na casa de Brenner e podemos ver claramente que elas e os atores estão em planos diferentes. Felizmente vemos isso bastante pontualmente e mesmo quando o diretor aproxima sua câmera o realismo se mantém, mantendo, pela maior parte do filme, nossa imersão intacta.

A constância do tempo nublado, contrastando com as silhuetas dos pássaros sobrevoando essa anteriormente pacífica cidade faz muito para a construção dessa sensação de ameaça constante. Não somente é perturbadora a aglomeração dessas criaturas, como todo o quadro que elas compõem juntas. O diretor, através desses contrastes cria planos verdadeiramente aterradores, perfeitamente acompanhados pelos constantes sons emitidos por esses animais, que, em determinados trechos, chegam a ser a única coisa que escutamos, ampliando nosso desconforto consideravelmente.

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Presos pela angústia

Nada melhor para ilustrar o poder da sugestão de Hitchcock, claro, que a emblemática sequência do posto de gasolina, que conta com um dos mais famosos usos do Efeito Kuleshov, enquanto vemos a personagem principal se desesperar com a iminente explosão. Ainda que Tippi Hedren esteja longe de ser uma boa atriz e que suas reações sejam exageradamente dramáticas (ao lado daquelas de Jessica Tandy), a cena funciona pela nossa rápida percepção do que está para acontecer, o que pode soar batido hoje em dia, uma explosão em um posto de gasolina, mas que mostra o quanto o diretor sabia brincar com a nossa expectativa, nos preparando para o que está por vir sem a necessidade de qualquer diálogo expositivo.

Vemos algo similar em outra brilhante sequência do filme, ainda que aqui não estejamos diante do Kuleshov. Vemos a protagonista sentada em um banco do lado de fora de uma escola, enquanto crianças cantam e pássaros pousam, um a um, atrás da personagem, sem seu conhecimento. Hitchcock trabalha, claro, com o campo sonoro e a imagem para construir a tensão, nos faz saber o risco ali presente e a vida de quem, precisamente, está em jogo – ele não trabalha com a quebra de expectativa, a surpresa, muito pelo contrário, ele nos prende em uma situação aparentemente sem solução, estabelecendo uma forte angústia que nos impede de enxergar qualquer final feliz para essa história – algo coroado pelo final em aberto, mantendo, dessa forma, o suspense em seu auge.

A influência da Nouvelle Vague francesa se faz evidente nessas escolhas artísticas do diretor. Não temos o Cinema clássico hollywoodiano no qual os cortes são todos mascarados, com planos seguindo o ponto de vista dos personagens. Aqui a montagem é evidente, não há temor na quebra de certos padrões, ocasionalmente o aparente desconforto visual trabalha junto da já falada sugestão do diretor a fim de nos tirar de nossa zona de conforto. O que facilmente poderia ser um tiro saindo pela culatra se torna uma das maiores marcas dessa obra do diretor.

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Uma despedida

No fim, fica bastante claro, portanto, o porquê de Os Pássaros ter se tornado essa tão conhecida obra de Alfred Hitchcock. Não chega a ser uma de suas melhores obras, mas certamente é uma das mais impactantes, principalmente em virtude de todo o desconforto que gera no espectador, seja pela sugestão de ideias através de planos encadeados, ou do uso pontual da violência, do sangue, que sedimenta, de uma vez por todas, o perigo pelo qual os personagens passam.

Problemas no roteiro, envolvendo a dilatação desnecessária da trama e deslizes na construção dos personagens, portanto, não diminuem esse grande suspense do mestre do gênero, que mostrou novamente tudo que aprendeu nesses muitos anos de experiência. Sua prolífica carreira, claro, não acaba aqui, mas Os Pássaros não deixa de ser uma despedida, como o último dos grandes filmes desse lendário diretor.

Os Pássaros (The Birds – EUA, 1963)

Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Evan Hunter (baseado no livro de Daphne Du Maurier)
Elenco: Tippi Hedren, Rod Taylor, Jessica Tandy, Suzanne Pleshette, Veronica Cartwright, Ethel Griffies, Charles McGraw
Gênero: Suspense
Duração: 119 min.

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