Crítica | Ponto Sem Retorno usa imaginário do faroeste para falar sobre o fim do mundo
O que sobra de Ponto Sem Retorno é um filme surpreendente a seu modo, um pouco perdido e girando em círculos em alguns momentos, com atmosfera nostálgica de faroeste e um bom elenco
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Ridley Scott tem quase 90 anos e uma energia e interesse inesgotáveis para fazer filmes. Saber que, a essa altura de sua carreira altamente lucrativa e bem-sucedida, ele teria disposição para se envolver em mais uma produção tendo como tópicos de interesse o “fim do mundo”, uma “pandemia global”, o “colapso da sociedade”, pareceu surpreendente. As últimas décadas ofereceram ao público tantos filmes girando em torno de situações dramáticas e premissas tantas vezes repetidas, o que Scott teria enxergado de diferente no romance original de Peter Heller, “The Dog Stars”, a respeito de mais um apocalipse que reduz a vida no planeta à mera luta animalesca pela sobrevivência?
Ponto Sem Retorno, a adaptação do livro pelos roteiristas Mark L. Smith (de O Regresso) e Christopher Wilkinson (de Ali e Nixon), é um filme que parece de alguma forma estar consciente da saturação de tais temas e de como os caminhos para percorrer essa narrativa apocalíptica foram explorados em dezenas de filmes e séries de TV, tais como A Estrada (de 2009), Walking Dead, The Last of Us e tantos outros.
Embora o trabalho de Scott tenha momentos que remetem diretamente às franquias Mad Max e Extermínio (principalmente na caracterização de alguns personagens e na dinâmica da ação e da violência, que aqui é mais contida), a escolha da direção é por abordar o fim do mundo da perspectiva de um faroeste hollywoodiano clássico, com seus dilemas morais e confrontação com a natureza e o espaço. E este é o maior acerto do longa-metragem, cuja duração não ultrapassa duas horas e não abusa da paciência do espectador.
Na trama, Hig (Jacob Elordi, num papel pensado originalmente para Paul Mescal) é um ex-mecânico que vive isolado na paisagem selvagem do Colorado, em companhia do amigo Bangley (Josh Brolin), aparentemente um militar reformado. Os dois tentam sobreviver protegendo-se da ameaça de invasores, após um surto global de vírus que dizimou boa parte da humanidade. Hig sabe pilotar avião e se aventura eventualmente pela região, enquanto Bangley está satisfeito em patrulhar o próprio perímetro.
Quando o primeiro decide seguir a pista de uma comunicação de rádio (que sugere que mais gente está vivendo perto dali), ele cruza no caminho de Pops (Guy Pearce) e sua filha Cima (Margaret Qualley), uma jovem médica que perdeu o marido. Um ataque inesperado de saqueadores faz com que pai e filha acompanhem Hig em sua procura por outro foco de civilização, numa jornada que terá consequências imprevistas.
O mais interessante em Ponto Sem Retorno é a decisão de fazer um faroeste, e não mais um filme “apocalíptico” com exploração de violência gráfica vulgarizada (como em Extermínio, por exemplo). Scott explora a relação do indivíduo com o espaço e o equilíbrio social altamente instável num ambiente sem regras definidas, onde decisões morais ocupam o papel deixado pelo vácuo da civilização. Ao contrário dos faroestes tradicionais, que lidam com a exploração de um mundo novo, nascente, aqui os exploradores estão lidando com resquícios de um mundo que não existe mais, os restos mortais que se converteram em seu próprio estilo de vida.
Tal abordagem é original e supera a retroalimentação da neurose moderna, que tem como principais origens o milenarismo pentecostal e a paranoia da Guerra Fria, de que o mundo irá eventualmente colapsar – seja numa tragédia nuclear, numa crise sanitária, num crash bancário, etc. Essa tendência à neurose acaba por estimular a interferência dos poderosos na vida de pessoas comuns, aparentemente desesperadas por regras claras que “impeçam o colapso” (permanentemente adiado). A repetição dessa temática no cinema e na literatura de ficção científica anestesia o senso crítico da audiência, que raramente se dá conta disso. Mas isso é tema de outra conversa.
O ritmo com que o enredo é levado é um alento para quem está acostumado (e cansado) com a edição habitual da indústria, onde o filme parece estar muitas vezes “correndo” atrás de si mesmo, uma cena pedindo passagem para a outra, atordoando a plateia para que esta não “perca o interesse” (um vício de streaming). Outro acerto é não ficar recorrendo a flash-backs ilustrativos e aquele “vai e vem” cronológico que virou uma praga da produção contemporânea. O filme escolhe sua linha narrativa clara, linear, e se mantém nela até o fim, num andamento que eventualmente lembra o grande cinema norte-americano da década de 1970 (por exemplo, Mais Forte Que a Vingança, dirigido por Sydney Pollack em 1972) – e a ótima trilha musical, de Harry Gregson-Williams (de Perdido em Marte), contribui bastante para isso.
Se concentrasse toda sua atenção em ser aquilo (um “faroeste no fim do mundo”), Ponto Sem Retorno chegaria mais longe como filme. Quando, por outro lado, a narrativa cai numa espécie de “limbo de subgênero”, e tem de criar as situações (repetitivas) de “luta pela sobrevivência”, “gangues barulhentas de saqueadores”, ou mesmo quando apresenta um universo totalmente estranho ao enredo até então (e que não detalharei aqui para evitar spoilers), o conjunto se torna excessivamente irregular, quase “pitoresco”. E o realismo à la anos 1970 se dissipa (exatamente aquilo que faz do filme ser original no meio de tantos parecidos sobre o fim trágico da civilização).
O que sobra de Ponto Sem Retorno é um filme surpreendente a seu modo, um pouco perdido e girando em círculos em alguns momentos, com atmosfera nostálgica de faroeste e um bom elenco, com destaque para a presença sólida habitual de Josh Brolin, o charme despreocupado de Qualley e a inesperada e caótica participação da brilhante Allison Janney, no ponto mais esquisito do roteiro todo. Elordi sofre um pouco em um papel com o qual Mescal talvez fizesse mais, engessado em sua caracterização de Frankenstein num ensaio de moda da Gucci.
Nada que comprometa o resultado final, que é digno (embora confuso em sua concepção) e termina numa celebração quase romântica da vida em comunidade como antídoto para o cinismo diante do apocalipse.