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Crítica | Snowden: Herói ou Traidor

“Aqueles que abrem mão da liberdade essencial por um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança. ”. A frase histórica de Benjamin Franklin, um dos pais fundadores dos Estados Unidos da América, nunca fora tão atual como foi em 2013, ano da explosão diplomática que Edward Snowden causou ao revelar algo que todo mundo sabia, mas que ninguém tinha coragem de acusar: o governo te espiona a todo momento.

No caso, o governo americano, considerado o mais poderoso da Terra. Pensando na realização de Snowden, é interessante ver a presença de Oliver Stone em um projeto adaptando um acontecimento que poderia ter arruinado facilmente o governo democrata de Barack Obama – há um vídeo comparado o discurso do candidato vs. o discurso do presidente, tentando reparar todo o estrago causado por Snowden. Digo isso sobre Stone por causa de suas opiniões políticas sempre muito polêmicas alinhadas à esquerda no compasso ideológico.

Snowden claramente é um longa de pensamento pró-liberdade e contra o controle e expansão dos governos. Afinal, vendo Citizenfour, fica bem clara a posição do próprio Edward Snowden.

No filme, acompanhamos a história através de longos flashbacks que o protagonista, encarnado por Joseph Gordon-Levitt, conta à documentarista Laura Poitras e outros dois jornalistas nas suas sessões de entrevistas que dariam origem à matéria reveladora do The Guardian e também ao documentário Citizenfour que venceu o Oscar em 2015.

O roteiro de Kieran Fitzgerald e Stone então ficam nesse grande vai-e-vem entre os flashbacks e narrativa presente na maioria da obra. Nisso, há sim bom estabelecimento para entendermos quem é Edward Snowden e como ele acabou entrando em diversas agências de espionagem e segurança nacional dos EUA, trabalhando para a CIA, NSA entre outras empresas “terceirizadas”.

Já uma coisa que comentei em diversos outros textos é sobre o quão complicado pode ser analisar um roteiro que adapta uma história extremamente poderosa como essa. Inerente dizer que toda a representação simbológica de Snowden está presente no filme, mas o texto narrativo possui muitas fraquezas por justamente falhar na criação de conflitos. Ou seja, na ficcionalização da história de Snowden antes de chegar em Hong Kong para fazer a entrevista com Laura.

Há diversas tentativas em mostrar como Snowden é um gênio da computação e do raciocínio lógico – incluindo até mesmo uma metáfora recorrente e manjada da resolução de diversos Rubik Cubes. Através de cada novo emprego conquistado – algo que nunca é bem estabelecido, o filme apresenta novos personagens que expões diversos pontos de vista caricatos para justificar as medidas de “segurança” dos Estados Unidos pós 11/09.

Boa parte desses personagens são chefes de departamento onde o protagonista trabalha. Todo esse núcleo é para explorar o lado humano da narrativa enquanto tenta aplicar tensão crescente devido à paranoia de Snowden de crer que também é espionado enquanto descobre as medidas invasivas da privacidade do governo. Isso ocorre através de um incidente incitante bem absurdo e difícil de crer – boa parte dos problemas dessa cena recaem diretamente na direção de Stone.

Não ficando restrito ao núcleo de trabalho do protagonista, onde há investidas até mesmo em missões de espionagem um tanto bizarras, mas que também servem para apresentar tanto ao personagem quanto ao espectador as consequências diretas que a espionagem pode ter na vida de um cidadão, há também o núcleo romântico com a namorada de Snowden, Lindsay.

Novamente, romantizando a realidade, o roteiro busca interminavelmente por conflitos óbvios. Aqui, Lindsay é a perfeita antítese de Snowden. Ela, uma democrata, emocional, artista, da galera de humanas e descontraída. Ele, um republicano, matemático, lógico, rígido e tímido. Os dois se apaixonam perdidamente em um passeio no parque. Pois é, Narrativa Básica 101. Onde poderiam deixar a ficção mais atraente que a realidade, acabam apostando no padrão sem sal.

Além dos muitos empregos que começam e terminam sem muita explicação para o espectador, o relacionamento entre ele sofre diversos altos e baixos. Como o longa condensa muitos anos da vida do americano, é normal estranhar as elipses que delineiam o clima do namoro dos dois. Há bons diálogos com trocas de opiniões políticas e momentos românticos interessantes, porém, é tudo bastante telegrafado.

É evidente que um longa sobre espionagem e invasão de privacidade usaria esse tema como pivô de uma crise entre os dois e é justamente o que acontece. Infelizmente, essa impressão da ausência de nacos do filme é a que mais marca quando ocorre a típica briga, mesmo que tenha uma motivação genuína por trás disso tudo.

É o que falta nesse longa: investimento e desenvolvimento em seus personagens. Principalmente o arco da paranoia tinha que ser melhor trabalhado, investindo no filme mais tensão e emoção para te manter acordado – uma tarefa árdua, acredite.

O núcleo que acompanha a captação do documentário e do contato de Snowden com os jornalistas também não impressiona. Novamente, temos conflitos telegrafados como disputas editoriais dentro da redação do The Guardian, além de um temperamental Zachary Quinto interpretando Glenn Greenwald – que viu Citizenfour sabe que o ator errou feio na personificação.

Também, centrando mais falhas narrativas, nada é muito bem desenvolvido na relação de Snowden entre essas pessoas completamente estranhas nas quais ele confia sua vida. O que realmente segura Snowden é a atuação de Joseph Gordon-Levitt, claramente tentando uma vaga na Oscar race. Caprichando no sotaque, engrossando a voz, mantendo expressão corporal rija e tensa, de olhares repletos de pensamentos tenebrosos e preocupantes, além de feição exausta, Levitt entrega outra atuação de ponta confirmando sua fantástica versatilidade.

Graças aos seus esforços hercúleos, o personagem é muito afeiçoável e crível. Aplausos.

Se já a narrativa de Oliver Stone encontra-se bastante engessada, que dirá sua direção. Stone não modernizou sua linguagem, ainda recorrendo para um visual caricato e brega quando o personagem tem ataques de saúde ou até mesmo em metáforas visuais para lá de ultrapassadas. Pior, isso acontece justamente na sequência que deveria ser a mais ousada visualmente ao montar uma representação visual de toda a vigilância que NSA exercia sobre cidadão do mundo inteiro.

Em vez de criar algo original, recorre novamente ao clássico “olho que tudo vê” a la Grande Irmão de 1984, formado por imagens em mosaico. É uma bela síntese para a direção dele aqui. Bastante cansada e impaciente. Repare em tantas sequências onde Stone captura os mesmos planos de alguém digitando, das inúmeras telas, de códigos-fonte. São elementos visuais necessários, porém dentro de um filme de duas horas, a repetição é um crime.

Apostando em soluções visuais fáceis, em linguagem mastigada, se valendo da força da representação dos atos de Snowden. Infelizmente, a técnica não salva a obra de ser apenas boa, mesmo que sem graça. Até mesmo a trilha musical não foge do básico, emulando o imaginário comum para músicas de filmes sobre informática e suspense.

Ao menos, no clímax, Stone parece acordar um pouco e conferir mais energia na montagem para criar tensão na “fuga” de Snowden para Hong Kong. Também acerta na encenação dos ápices dramáticos seja nas brigas do casal ou de cenas mais tensas de espionagem e daquelas destinadas a paranoia de Snowden, inclusive, rendendo uma ótima comparação no uso de drones. São momentos ligados por um fio bem frágil, mas que rendem ótimas cenas.

Snowden é um longa que chama a atenção por retratar um acontecimento tão recente na nossa História. Um acontecimento de potencial gigantesco para derrubar governos, mas que só trouxe mesmo um desconforto diplomático. O longa parece sofrer exatamente dessa falta de reação, incredulidade e entusiasmo que marcou o desfecho do caso do espião americano.

Então, como havia dito, o mundo não mudou. Snowden apenas confirmou algo que todo mundo sabia e algo que quase ninguém se importa em preservar: sua privacidade e liberdade.

Possivelmente seja o mal deste século: ter ignorado a mudança quando a oportunidade surgiu. As pessoas se contentam com os brinquedos virtuais novos, ainda são espionadas – não é possível crer que tenham desmantelado tamanha estrutura depois da polêmica, e muitos ainda condenam a atitude do espião em berrar ao mundo que algo de muito errado está acontecendo.

Não se trata de manter a segurança nacional, não se trata de prevenir atos terroristas, mas sim de eliminar inimigos políticos, controlar e interferir com autonomias diversas de outras nações, controlar o mercado de valores, mudar o destino de milhões de pessoas e, principalmente, preservar a integridade de um governo colossal e silencioso que, muito provavelmente, te devorará com nenhum esforço.

O 11/09 respira até hoje e Snowden é apenas mais uma de suas muitas consequências.

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Publicado por Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas.

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