Sabem quando você ainda ouve hoje em dia uma ainda clássica frase como “ah, são todos ruins, mas se lembram como o primeiro filme dos Transformers era realmente bom?!”? Bem, pode-se dizer que pelo percurso literalmente destrutivo que a franquia de filmes de robôs gigantes dirigidos por Michael Bay chegaram até hoje, voltar assistir ao primeiro filme realmente se sente como um frescor.

Pode até parecer estranho afirmar isso, mas os primeiros filmes de Transformers (sim, até A Vingança dos Derrotados), não eram esses atos de ruindade de  pirotecnia visual gratuita que os últimos filmes da franquia acabaram se tornando. E sim, você conseguia ver aqui no filme que iniciou tudo, um Michael Bay realmente disposto e entregue na tentativa de realizar um bom filme pipoca com os personagens da HASBRO. E honrar muito uma de suas maiores inspirações nesses dois primeiros filmes – Steven Spielberg, não à toa foi o produtor executivo e um dos que primeiro teve a ideia para um filme baseado nos personagens título.

Nem devemos perder tempo definindo uma trama que você até já deve saber de cor: os robôs Decepticons chegam à terra em procura do Cubo AllSpark, um artefato capaz de dar vida à qualquer aparelho e transforma-los em Transformers, conjurando assim o plano de Megatron de tomar e destruir a terra. Com só os Autobots liberados por Optimus Prime capaz de os impedir, contando com a ajuda de Sam Witwicky (Shia LaBeouf) cujo o óculos de seu avô guarda o mapa da localização do artefato.

Mas encaremos a verdade sobre Transformers, até os fãs mais hardcore dos personagens e que talvez desprezem os filmes do Bay, Transformers sempre foi uma grande propaganda animada de bonecos. Ou melhor, de robôs  que se transformam em carros, enfim. A série animada podia ter as mensagens sutis que fossem sobre amizade, honra e lealdade entre os personagens, mas ainda continuava sendo uma divertidíssima propaganda que criou para muitos uma nostalgia por anos até hoje.

Quando se pensa em trazer esse conceito à vida, um diretor como Bay não poderia ter sido uma melhor escolha para tal trabalho. Apenas vejam seus filmes como Armageddon ou A Rocha para ver o quão insano e complicado essas tramas pareciam ser, e ele realmente conseguia trazer elas à vida de forma igualmente insana e que funcionavam. O segredo para isso foi mesmo fazer do seu primeiro Transformers como essa gigante e épica propaganda de brinquedos.

Ao mesmo tempo em que também é uma propaganda militar; ao mesmo tempo em que é um comentário do diretor sobre sua filmografia ao colocar o típico público alvo desses filmes representado no gordinho que sai gritando “isso é muito mais legal que Armageddon, eu juro por Deus”; ao mesmo tempo em que é uma história de crescimento e amadurecimento de um jovem se metendo na aventura de uma vida; ao mesmo tempo em que é um filme sobre robôs alienígenas que se transformam em carros. E sabem o que mais espanta? Isso tudo junto consegue funcionar.

Por ironia ou não, algo que todos devem admitir, é como Transformers se tornou graças à tudo isso, o pai de toda uma fórmula de se construir grandes blockbusters da atual década até hoje. E um dos melhores que quase a maioria de todos eles. Pegar um produto até então nunca explorado ou sequer cogitado se realizar no cinema, e criar uma inteira e extensa franquia bilionária de filmes de altíssimo orçamento, ou realmente acharam que a idéia do universo cinematográfico da Marvel veio do nada?

Mas aqui, muito antes da franquia ter se tornado um motivo de chacota extrema sobre serem filmes gratuitamente e preguiçosamente feitos para se fazer dinheiro, o que já não era tão diferente aqui, mas você conseguia realmente enxergar o mínimo de esforço sendo colocado aqui. Seja na mínima influência Spilbergiana, como já mencionada, que Bay tenta honrar ao seu mestre em sua pegada do filme aqui.

Simplesmente veja como o filme até tenta começar de forma bem parecida com Jurassic Park, na forma com que apresenta o primeiro contato entre o “monstro” em questão com os humanos em uma misteriosa criação de tensão e perigo, para logo cortar para o jovem protagonista em sua vida suburbana. E quando o agente Simmons de John Turturo com o Setor 7 entram em cena, o filme rapidamente se torna em E.T. versão robôs gigantes, com os militares opressores subjugando os robôs aliens do bem. Mas eles logo se tornam todos amigos e aliados na próxima cena, então fica tudo bem.

O que pode se discutir que em um filme chamado Transformers, vemos mais humanos do que robôs gigantes que se transformam em carros se enfrentando pelo destino do mundo. Que pode ser defendido que se tratava de uma longa criação de expectativa para a vindoura chegada dos personagens título, mas aí quando vemos o resultado dos outros filmes é outra triste história na verdade. Mas pelo menos aqui tínhamos personagens minimamente interessantes para simpatizar e torcer ao longo do filme.

O personagem de Sam em si está longe (pelo menos aqui no primeiro filme) de ser uma galinha histérica como todos os acusaram de ser nas subsequentes continuações, e Shia LaBeouf realmente convencia na criação de um personagem jovem entrando nessa aventura de proporções gigantescas, o que torna realmente um filme divertido e minimamente intrigante de se acompanhar, mesmo dentro de uma narrativa exageradamente longa e cheia de subtramas e com diversos personagens a seguir, e Bay consegue realmente tornar tudo compreensível de se acompanhar. Onde nem mesmo a limitadíssima performance de Megan Fox consegue estragar tudo.

Mas te faz refletir como dois personagens, muito mais interessantes como Lennox e Epps, cujo os atores Josh Duhamel e Tyrese Gibson mostram possuir muita química, e que cumprem todas as características perfeitos de protagonistas para um filme de Michael Bay: dois fuzileiros honrados, um sendo pai de família corajoso e patriótico; e que o próprio filme se inicia focando em ambos, não se tornaram protagonistas do filme. O que faria até mais sentido vendo pelo lado de que o filme foca na interação “realista” de robôs chegando na terra e a inevitável influência militar americana. Mas estamos pensando isso à fundo demais.

Escuso dizer também que os alívios cômicos de Bay sempre se provaram controversos, sempre sendo apontados como imaturos, forçados e ofensivos, sempre sendo apontado como um perfeito exemplo sobre para que tipo de público esses filmes eram vendidos. Mas levando em conta, novamente, dos níveis que a franquia chegou, o humor aqui era até bem mais segurado e constantemente faz rir, tanto pelo ridículo quanto pelos estereótipos em que tenta tirar sarro. Mesmo que devote um desnecessário bom terço do filme para uma piada muito longa sobre os Autobots estarem destruindo o quintal da casa de Sam. Talvez seja também uma questão de gosto adquirido, mas frases como “eu botei tudo pra dentro, comi até mais”, divertem em sua maioria.

O fato é que até em uma trama decentemente contada, Bay impressiona em como ele quase sempre cria uma narrativa seguindo um espiral visual de uma cena de ação, cheia de planos estilizados e de movimento até nas cenas mais banais possíveis como quando vemos os políticos militares constantemente correndo contra o tempo de sala em sala com suas conversas militares do tipo levantar o voo dos pássaros para atingir o ninho dos tangos etc, ou com o pai de Sam apenas correndo pra se proteger dentro de uma banheira.

Enquanto no outro departamento, Bay consegue realmente colocar os robôs gigantes dividindo a mesma cena com os personagens humanos, cujos atores conseguem convencer de que eles estão mesmo olhando para robôs gigantes bem nas suas frentes. Fazendo ainda um bom uso lentes gigantescas pra ter os robôs muito perto da câmera – são parte das insanidades e megalomanias técnicas do Bay que no final resultam em cenas de ação energéticas e amalucadas que são inegavelmente divertidas.

A ação de Bay, assim muito como seu diretor, é uma questão de ame ou odeie. Claro, ele abusa constantemente de cortes rápidos entre diferentes tomadas se atropelando uma em cima da outra, que deixaria qualquer humano racional de vista 100/100 confuso e esfregando os olhos para conseguir enxergar em alguns momentos sobre o que raio está se passando na frente da tela. Ao mesmo tempo em que ele é um diretor que sabe usar muito bem de pequenas tomadas “longas” e planos de ângulo bem aberto, tornando as lutas entre os robôs críveis, caóticas sim, mas excitante e divertidas. Com os efeitos visuais até hoje muito convincentes na criação e design dos Transformers.

Em suma, o primeiro Transformers ainda será por muito o tempo o filme acusado de ter iniciado uma franquia de megalomania barata, e não é mesmo nenhum ótimo filme, mas que mostrava um Michael Bay se importando de verdade em fazer um filme decente e divertido, e que entrega o melhor de sua proposta, seja lá qual for. O que importa é que tínhamos sim um filme decente, divertido e despretensioso aqui, que até prometia o início promissor para uma franquia, mas o resto vocês já sabem.

Transformers (Idem – EUA, 2007)
Direção: Michael Bay
Roteiro: Roberto Orci, Alex Kurtzman, John Rogers
Elenco: Shia LaBeouf, Megan Fox, Josh Duhamel, Tyrese Gibson, Rachael Taylor, Glen Whitmann, Jon Voight, Kevin Dunn, John Turturro
Duração: 144 min.