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Crítica | Tudo o Que o Céu Permite – O Melodrama Socialmente Relevante

A guerra do cinema dos anos 1950 contra a sociedade engessada.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
16 de maio de 2018 · 7 min de leitura
Crítica | Tudo o Que o Céu Permite – O Melodrama Socialmente Relevante

A cada nova investida no cinema americano dos anos 1950, fico mais convencido que esta década tenha sido uma das mais audaciosas em Hollywood, superando o fato da morte da Era de Ouro e do enfrentamento da concorrência “desleal” da ameaça da televisão que já havia surgido há um tempo. O batalhão da Sétima Arte cinquentista estava disposto, então, a trazer filmes com comentários sociais importantes para uma sociedade que se recusava a flexibilizar morais antiquadas.

Nicholas Ray, George Stevens, Elia Kazan, Billy Wilder e, enfim, Douglas Sirk, desafiavam certas “normas” de boa convivência na sociedade americana que ainda parecia congelada nos anos 1930, mas totalmente afundada na hipocrisia enquanto permeados pela propaganda do sonho americano. Cada um desses cineastas também, estranhamente, não conseguira marcar suas obras mais influentes depois dessa década transformadora para o Cinema.

Entretanto, pelo material produzido nessa década, há um conjunto de obras inestimáveis. Apesar de Sirk não ter recebido a mesma intensidade dos holofotes por uma injustiça histórica, é um cineasta tão proeminente e capaz quanto os outros. O motivo de Sirk ser relativamente esquecido vem por conta de um estigma adquirido por ele sempre trabalhar com o melodrama, gênero considerado na época como os chick flicks de hoje em dia – como as comédias românticas de 1990 e 2000.

Amor Para Quebrar o Falso Moralismo

Apesar desse “rebaixamento” histórico dentro da história do cinema, Sirk teve um papel primordial para apresentar essas narrativas muito bem conduzidas para dialogar diretamente com sua audiência que muito bem poderia fazer parte da realidade ficcionalizada trazida por seus sofridos personagens. No caso de Tudo o Que o Céu Permite, Sirk e seus roteiristas vão além ao mostrar o amor de uma jovem viúva, Cary Scott (Jane Wyman), com seu jardineiro anos mais novo que ela, Ron Kirby (Rock Hudson).

O problema é que Cary é uma mulher de considerável destaque na alta sociedade e, por conta disso, encontra diversas dificuldades para engrenar seu novo romance que é julgado fervorosamente por seus amigos e, para pior, incluindo seus próprios filhos. Sirk consegue deixar bastante claro que o preconceito que Cary sofre não é propriamente por causa da vontade de conquistar novas companhias amorosas, mas por se apaixonar justamente por alguém “inferior” e mais jovem.

Para calcar todo esse romance, Sirk traz uma estrutura de roteiro bastante simples e objetiva, deixando até mesmo o próprio filme com um ritmo a frente do próprio tempo, dosando reviravoltas importantes em questão de poucas cenas. Os roteiristas estabelecem os personagens e o conflito com cenas curtas, mas repletas de diálogos inteligentes que expõem a psicologia de cada um.

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O cineasta elabora a solidão da protagonista ao trabalhar sempre com planos mais distantes, a deixando realizar algumas ações enquanto sozinha, além dela constantemente ser abandonada por amigas e pela própria família. Logo, sua juventude é desperdiçada em uma vida quieta e pouco colorida, apesar de estar sempre enfeitada e pronta para sair. Tanto que Kirby e ela só começam a se relacionar por conta dessa perturbadora falta de atividades em boa parte do dia.

Isso encaminha então a única diversão de Cary, ir a coquetéis luxuosos de outros colegas mais ricos e importantes que ela. A personagem sempre depende de Sara, uma mulher mais descolada nas festas, mas que raramente a acompanha em momentos difíceis revelando uma amizade superficial. Nesse campo, descobrimos que outro homem, Howard, está interessado em Cary chegando ao exagero de assediá-la publicamente.

Nesse cenário pouco amigável, Sirk revela a primeira toxidade de uma pequena elite bastante venenosa versus a simpatia rústica de Kirby que oferece um novo começo para a protagonista em um cenário totalmente distinto e mais íntimo em um cenário rural isolado no qual os dois podem nutrir um amor repleto de tensão sexual reprimida.

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O cineasta rapidamente compara essa felicidade do amor dos dois com a insegurança que Cary passa a sentir quando decide apresentar o cônjuge para seus amigos. Tanto que o segundo ato é justamente a protagonista tendo que lidar com diversos abusos morais cometidos por seus colegas e também de seus próprios filhos. Apesar do conflito ser muito interessante pela violência abrandada que a protagonista sofre, é uma pena que os roteiristas deixem a personagem em uma postura sempre passiva e melancólica, permitindo esse espancamento moral injusto tanto dela quanto de Kirby – o personagem reage aos comentários maldosos.

Desse modo, o terceiro ato é encaminhado em uma estrutura clássica envolvendo a separação na qual a protagonista é forçada a perceber seus erros e por jogar contra sua própria felicidade ao ver os filhos e colegas fazendo atitudes que ambos condenável quando Cary praticava. Vendo a hipocrisia plena daquele meio e até mesmo de seus filhos venenosos, a personagem sofre a catarse, mas ainda relativamente presa ao medo da agressão. Apesar dessa indecisão render um momento curioso que daria gancho para um final cínico bem pessimista, mas que, por exigência do estúdio, caminha para lugares mais cômodos para a audiência.

Por tratar tão claramente a hipocrisia e apontar verdadeiras injustiças de uma sociedade corrompida desequilibrada – como o fato de um homem mais velho ter uma esposa mais nova ser socialmente melhor aceito do que uma situação contrária, os roteiristas realmente elaboram um comentário social forte e bastante corajoso para um melodrama “de estúdio”. Mesmo assim, com um assunto tão pertinente, é uma pena que os personagens, por mais complexo que sejam seus conflitos, acabam pouco aproveitados por uma posição incomodamente passiva diante de crueldades natas, além do romance acabar interrompido prematuramente.

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Dias de Drama

Essa aparente pressa do terceiro ato cai diretamente por conta da projeção bem modesta do longa. Sirk, felizmente, consegue sintetizar muitos dramas complexos através de imagens absolutamente fascinantes em sua estética caprichadíssima. Assim como outros grandes mestres dos anos 1950, Sirk trabalhava através de movimentos muito elegantes em uma câmera bastante móvel através de travellings e dollys bem inseridas em momentos bastante orgânicos de sua encenação fluída.

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Ele entendia que imagem é movimento e por conta disso suas cenas estão sempre se transformando diante dos olhos do espectador. Um dos melhores exemplos disso ocorre justamente na primeira discussão entre Cary e Kirby no moinho reformado como uma moradia para o personagem. Aqui temos um uso absolutamente genial da iluminação se baseando no contraste firme de luzes quentes amarelas contra o frio azul. Os personagens sempre percorrem os dois campos iluminados, se aproximando da janela gélida representando o possível final do romance.

Conforme a discussão é transformada em reviravoltas de alento e tristeza, os personagens são envoltos pelas sombras ou jogados na luz. É um verdadeiro baile de direção cênica pontuada de modo efusivo pela trilha musical de boa qualidade que se encaixa com perfeição conforme as viradas teatrais que testemunhamos.

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Em outro momento excelente, agora muito mais apoiado pela decupagem acertada em closes de reação em Cary, vemos a catarse da personagem durante um Natal bastante solitário, no qual seus filhos chegam no dia seguinte entregando um presente simbólico de seus desejos: uma televisão. No fundo do egoísmo dos filhos, eles não desejam a felicidade da mãe, a condenando a uma companhia eletrônica sem cores pelo resto de sua vida. Sirk é particularmente genial em encerrar essa pesada cena com a mulher enquadrada no reflexo indiferente do televisor enquanto os filhos comemoram o presente.

Em diversos níveis, é um verdadeiro espetáculo dramático de Sirk em um de seus filmes mais conhecidos e também, agradáveis.

A Felicidade Que o Céu Permite

Tudo o Que o Céu Permite é um dos clássicos dos anos 1950 mais saborosos que um cinéfilo pode pedir. Em um filme realmente complexo que funciona em níveis muito importantes, é sempre gratificante experimentar um drama repleto de conteúdo feito com extrema precisão técnica por um dos maiores dramaturgos de Hollywood. O humanismo expressado por suas imagens até hoje consegue refletir problemas de diversas vidas, nos levando a perceber que, no fim das contas, os 1950 continuam bastante próximos dos anos 2010.

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Tudo o Que o Céu Permite (All That Heaven Allows, EUA – 1955)

Direção: Douglas Sirk
Roteiro: Peg Fenwick, Edna L. Lee, Harry Lee
Elenco: Jane Wyman, Rock Hudson, Agnes Moorehead, Conrad Nagel, Virginia Grey, Gloria Talbott, William Reynolds
Gênero: Drama, Romance
Duração: 89 minutos

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Tags: #Douglas Sirk #Rock Hudson
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Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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