Cinema

Crítica | Vizinhos Bárbaros é sátira politicamente correta sobre problema dos refugiados

Sempre que um cineasta escolhe lidar diretamente com um problema social que remete à realidade vivida, histórica, reconhecida, por pessoas reais (envolvidas ou não na questão em si), ele traz para si também uma delicada responsabilidade: manter grau aceitável de honestidade intelectual, que no caso se traduz como fidelidade a fatos e contextos que têm […]

Daniel Moreno
Daniel Moreno Redação
4 min de leitura
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Sempre que um cineasta escolhe lidar diretamente com um problema social que remete à realidade vivida, histórica, reconhecida, por pessoas reais (envolvidas ou não na questão em si), ele traz para si também uma delicada responsabilidade: manter grau aceitável de honestidade intelectual, que no caso se traduz como fidelidade a fatos e contextos que têm existência concreta para além da tela. Diretores podem optar por trabalhar com sua própria “história imaginada” a respeito do passado, mas isso certamente lhes tira peso e credibilidade como testemunhas de algum tipo de verdade objetiva envolvida na temática de seus filmes.

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No caso do novo projeto da realizadora Julie Delpy – que, embora já tenha construído uma carreira sólida como diretora, permanece na memória de muitos como a atriz de filmes importantes dos anos 1990, tais como Antes do Amanhecer e A Igualdade é Branca – a escolha foi por abordar um tema sensível na França e em boa parte do mundo em 2025: as crises dos refugiados e a migração forçada por guerras e ditaduras. Um tópico que costuma acirrar polarizações de rede social e dividir opiniões, por isso mesmo tendendo facilmente à caricatura simplificada e se afastando facilmente de um diálogo mais consistente.

Delpy escolhe trabalhar no terreno da comédia, e isso traz implicações com as quais ela lida da maneira mais cômoda possível: escolhendo heróis e vilões como na mais banal produção da indústria e percorrendo um circuito bastante restrito de variações a partir dessa “fórmula”, de modo que é fácil prever aonde iremos chegar a partir das primeiras cenas do longa-metragem. Sem problematizar, sem surpreender, levando o espectador a sair do cinema tão “convicto” (ou perdido, dependendo do caso) a respeito da “realidade” retratada quanto quando entrara, duas horas antes.

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Na trama, uma pequena cidade francesa da Bretanha é surpreendida pela chegada de uma família de refugiados sírios, que substitui inesperadamente uma família ucraniana. Envolvida em suas próprias “microtensões” tipicamente burguesas (“adultério”, “rivalidades”, “jogo de aparências”), os moradores têm de lidar com os problemas inevitavelmente trazidos pelo acontecimento, que vão desde relativos desafios linguísticos até a utilização do dinheiro dos contribuintes municipais para subsidiar as necessidades dos novos habitantes.

Delpy abre mão deliberadamente de cada oportunidade que o próprio enredo oferece para dramatizar o “choque civilizacional” que seria previsível numa situação como essa, ao caracterizar os sírios recém-chegados como uma família de comercial de margarina: enquanto eles têm educação superior (um arquiteto, uma médica, um poeta), os bretões são invariavelmente xenófobos ou neuróticos. O roteiro vira as costas para a realidade que ele supostamente pretende abordar quando, por exemplo, finge que determinadas situações da trama não seriam problemáticas (e estas mesmas poderiam render cenas melhores e até mais “engraçadas”): o namoro da adolescente árabe com o menino francês, o trabalho feminino, o uso ou não do hijab, etc.

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Nada disso interessa a Delpy, que está mais preocupada em evitar ferir suscetibilidades estrangeiras e prefere entregar seus personagens franceses às feras. Algumas cenas beiram o ridículo da condescendência (como quando o “poeta sírio” ensina a cozinheira francesa a fazer crepes), enquanto outras vão ao ultraje absoluto: um dos personagens sírios compara favoravelmente os terroristas do Estado Islâmico (“Daesh”) à ditadura de Assad, desconsiderando por exemplo que o número maior de mortes provocado pela última está também diretamente relacionado ao tempo em que tal regime havia estado no poder. Não é difícil imaginar como seria recebida uma comparação desse estilo se alguém dissesse que a ditadura militar brasileira foi “menos problemática” que a Argentina por ter “assassinado menos”.

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O mosaico atrapalhado e previsível de Delpy chega a um final romantizado e a impressão definitiva é que o filme girou em círculos para chegar a lugar algum. Se a diretora assistisse a outro filme francês (excelente, por sinal) e também dirigido por uma mulher (Rubia: As Esposas do Estado Islâmico, de Mareike Engelhardt), talvez repensasse a forma como ela banalmente lida com o tópico em sua sucessão de piadinhas descompromissadas. Mas certamente seria tarde para salvar um filme mais interessado em proselitismo que em fazer rir ou pensar.

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