» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

Em quase 20 anos nos cinemas, a franquia X-Men foi uma das mais importantes para a consolidação do gênero de super-heróis na sétima arte. Uma série de filmes com altos e baixos, derivados e mudanças constantes na cronologia, mas que nunca abandonaram a mesma linha narrativa; os mutantes nunca tiveram um reboot completo nos cinemas, ao contrário de Batman, Superman e Homem-Aranha, sempre permanecendo no mesmo universo. 

Diante dessa importância, era de se esperar que o lançamento de X-Men: Fênix Negra viesse com um peso maior; um peso tão considerável quanto aquele que Vingadores: Ultimato trouxe para os 11 anos do Universo Cinematográfico da Marvel Studios. Mas, com peso ou não, a verdade é que os mutantes mereciam uma despedida digna antes de se tornarem propriedade da Disney. Infelizmente, o filme de Simon Kinberg fica bem abaixo do padrão estabelecido pela saga da Fox.

A trama salta mais alguns anos para 1992, e se arrisca a adaptar novamente a Saga da Fênix Negra. Aqui, os X-Men são vistos como heróis e celebridades para o público e o governo, que os convoca para ajudar em uma missão espacial defeituosa. Quando tenta salvar um dos astronautas, Jean Grey (Sophie Turner) é afetada por uma força cósmica misteriosa, que deixa seus poderes mais fortes e também desperta uma fúria incontrolável na jovem mutante, que se torna uma ameaça para seus colegas X-Men, que precisam se unir para detê-la.

Sem Brilho

Não é a primeira vez que a Fox tenta trazer a elogiada saga dos quadrinhos de Chris Claremont para os cinemas. Em 2006, Brett Ratner trouxe uma versão condensada da história com X-Men: O Confronto Final, e que acabou gerando críticas severas dos fãs por ter diminuído essa trama tão icônica dos mutantes. Bem, ao menos Ratner o fez com mais ânimo e pulso do que Simon Kinberg, roteirista que estreia na direção com resultados muito agridoces. É até preciso dar algum crédito para a estrutura correta do roteiro e os arcos dramáticos que trazem inovações para os personagens, particularmente para retratar um Charles Xavier mais egocêntrico e convencido de seu sucesso – algo que o personagem ainda não havia apresentado na franquia.

Por mais que os elementos cósmicos e alienígenas sejam chave para a história nos quadrinhos, confesso que se tornam deslocados em uma franquia pautada nas relações mais humanas. Todo o núcleo envolvendo os péssimos alienígenas liderados pela personagem de Jessica Chastain são embaraçosos, e que parecem ter saído de um roteiro descartado de Arquivo X. Sem falar que a presença alienígena e a aceitação popular dos X-Men abandona todas as questões sociológicas que a franquia abordou tão bem ao longo de seus antecessores – e por mais que o confronto interno de Jean e a virada orgulhosa de Xavier sejam pontos relevantes, não trazem nada de estimulante ou inovador em termos dramáticos.

Na direção, tudo fica ainda pior. Não que seja inteiramente culpa de Kinberg, afinal o roteirista acabou assumindo um projeto “abandonado” na Fox, especialmente após a turbulenta saída de Bryan Singer e todo o marasmo que assolou o estúdio durante a aquisição do estúdio pela Disney. Os problemas começaram a ficar evidentes quando o tímido marketing começou tardiamente e ainda trocou a data de estreia de Fênix Negra duas vezes, provocando muita instabilidade e desconfiança. São problemas de RP, mas infelizmente nada que Kinberg faça como diretor é capaz de trazer pulso, emoção ou qualquer coisa além de um pragmatismo que una os pontos de A a Z.

Em uma franquia que contou com momentos magistrais coordenados por Bryan Singer, Matthew Vaughn, James Mangold e até mesmo Brett Ratner, Kinberg se mostra como o funcionário básico. A paleta de cores se torna mais neutra e genérica, e nenhuma das cenas de ação é capaz de aproveitar o potencial de seus heróis, que simplesmente batalham com seus poderes sem o brilho e criatividade dos anteriores. Nada aqui arranha a perfeição do ataque do Noturno à Casa Branca, Magneto erguendo o submarino ou as duas sequências primorosas do Mercúrio em câmera lenta. É apenas o básico, e arrisco dizer que até mesmo a Fênix Negra de O Confronto Final era visualmente melhor resolvida, além de muito mais ameaçadora do que o festival de CGI borrachudo do filme de Kinberg.

Poucos ânimos

Esse desânimo se reflete também em boa parte do elenco. Sophie Turner deveria ter carregado essa performance de Jean Grey como uma tour de force, mas não faz nada além do básico, nem de longe chegando perto do desempenho de Famke Jenssen em O Confronto Final – Turner até acerta no drama, mas não se torna uma figura ameaçadora. Nicholas Hoult, Michael Fassbender e Jennifer Lawrence seguem nas habituais notas consistentes com seus personagens, e até conseguem brilhar em alguns momentos mais trágicos, mas é mesmo James McAvoy quem acaba segurando o barco. Ao explorar a faceta mais orgulhosa de Xavier, o ator consegue encontrar ainda mais camadas para tornar o Professor X complexo, além de ser seu trabalho mais similar com o de Patrick Stewart. Quanto a Jessica Chastain? Não há muito o que se fazer com uma vilã tão pessimamente escrita quanto a dela, mas a atriz se esforça.

E se há algum outro quesito positivo no filme, é a trilha sonora de Hans Zimmer. Tudo bem que foi uma pena não ouvir o maravilhoso tema de John Ottman, mas o icônico compositor alemão traz energia e até consegue animar algumas das sequências de ação. A cena em que o Jato dos X-Men está na missão espacial é o melhor exemplo disso, onde a música tensa de Zimmer acrescenta tensão e imprevisibilidade, resultando na melhor cena de toda a projeção. Infelizmente, o trabalho de Zimmer também perde o ânimo da metade para o fim, limitando-se a batidas sintetizadas que parecem repetir-se se sem grande variação; mas o tema musical da Fênix Negra é competente ao se aproveitar de um bom coral. Porém, e cesso aqui as comparações com O Confronto Final, inferior ao trabalho operático de John Powell no filme 2006.

X-Men: Fênix Negra é um desfecho medíocre e decepcionante para uma das franquias de super-heróis mais importantes da História. Carece do brilho e da maestria técnica de seus antecessores, além de uma narrativa forte que sempre abordou temas impactantes em seu núcleo. Um triste fim para uma franquia que agora deve se tornar mais uma peça na engrenagem da Marvel Studios.

X-Men: Fênix Negra (Dark Phoenix, EUA) – 2019

Direção: Simon Kinberg
Roteiro: Simon Kinberg, baseado nos personagens da Marvel Comics
Elenco: Sophie Turner, James McAvoy, Michael Fassbender, Nicholas Hoult, Jennifer Lawrence, Tye Sheridan, Alexandra Shipp, Evan Peters, Kodi Smit-McPhee, Jessica Chastain
Gênero: Aventura
Duração: 113 min

Comente!