Considerado um dos maiores nomes da Nouvelle Vague, Louis Malle realmente estava a frente do tempo dos outros prolíficos cineastas da época de intensas produções cinematográficas vanguardistas. Enquanto Jean-Luc Godard surgia com Acossado em 1960, Malle já estava bem confortável com as técnicas experimentais do movimento realizando uma comédia caótica que poderia ser facilmente um irmão gêmeo de Week-End à Francesa que Godard faria anos mais tarde.

No caso, estamos falando de Zazie no Metrô, um típico caso perfeito do “ame ou odeie” extremista, já que Malle testa todos os limites da comédia live action ao tonificar em excesso a fórmula de humoristas americanos como Jerry Lewis, Chuck Jones e dos Hanna-Barbera. Logo, embora seja um humor até mesmo antiquado para a década de 1960, o cineasta visa trazer esse contraste de exageros para uni-los, texto e imagem, em uma perfeita sinfonia do caos.

Zazie no Caos

Apesar de ser um filme que deseja diluir a narrativa ao máximo, temos um pequeno ponto de partida para toda a loucura que Malle pretende apresentar. Zazie, uma garota arteira de 9 anos, viaja para Paris com sua mãe que pretende encontrar o amante e cair na farra. Para se livrar da menina, pede para que seu irmão, Gabriel, cuide da garota até a data delas voltarem para o interior. Já no momento que Gabriel encontra Zazie, ela clama que quer conhecer o metrô, porém a lendária malha do transporte está fechada por conta de uma greve. Transtornada, Zazie consegue driblar facilmente seu tio bastante alunado e desinteressado na menina para ter aventuras nas ruas parisienses, compensando a falta do metrô.

Como disse, esse pano de fundo é apenas um dos diversos artifícios para Malle tentar manter alguma coesão em um filme anárquico. Entre as andanças de Zazie, uma menina boca-suja e que, ainda assim, consegue filosofar sobre os Estados Unidos como uma grandiosa cientista política, a vemos como um elemento aglutinante de confusão reunindo diversos personagens em encontros e desencontros.

Ainda obedecendo certos clichês do cinema francês, além da prepotência intelectual irritante do movimento, temos uma infinidade de romances nos quais Malle insere muitas “piadas” sobre homossexualidade, pedofilia, repressão sexual, amor com “idosas” ricaças e até mesmo algumas com uma dose incômoda de racismo. É um humor ofensivo, porém não gera graça alguma, pois é gratuito e extremamente caricato.

Malle quer “aperfeiçoar” o humor característico dos desenhos Looney Tunes de Chuck Jones e do slapstick de Jerry Lewis, porém a falha é retumbante, pois além de ser forçado ao extremo, o cineasta ignora qualquer principio de timing essencial para provocar o riso. Já perdendo a noção em trazer um humor perfeito para desenhos animados pelo flerte com o non sense, Malle tenta replicar uma infinidade de esquetes já esgotadas dessas obras envolvendo explosões imprevisíveis, sabotagens de diversos tipos e truques a partir da montagem a la Scooby-Doo.

Aliás, se há um elemento que “salva” Zazie no Metrô é justamente a manipulação técnica exemplar de Malle. Mesmo que seu roteiro seja uma verdadeira besteirada preconceituosa e sem-graça, o espectador tem diversos deslumbres de técnicas que fariam a escola de cineastas como Darren Aronofsky e Jean-Pierre Jeunet, principalmente este último. Para trazer efeitos cômicos somente com a câmera e suas técnicas, o vanguardista opta por closes feitos sob lentes grandes-angulares que distorcem o rosto em proporções caricaturais.

Além disso, sua encenação, sempre feita na base da câmera na mão, se sustenta exclusivamente pelo uso da montagem e do emprego de jump cuts que afetam somente um personagem em específico no cenário, como se o próprio estivesse se teletransportando a todo momento permitindo a criação de “magias” cinematográficas para empregar um tom fantasioso na obra, como se tudo fosse um sonho de Zazie.

A partir desse uso da montagem e dos cortes súbitos, apesar do tom cartunesco das atuações bem irritantes, é possível encontrar algum prazer na experiência de assistir a esse filme tão histérico com sequências envolvendo uma escalada perigosa na Torre Eiffel na qual Malle cria composições visuais muito interessantes, apesar do tom lesado das piadas se misturarem com as filosofias de Gabriel tão bem quanto água se mistura com óleo.

Há também uma das muitas sequências de perseguição nas cais o diretor utiliza menos fotogramas que o habitual (24 fotogramas por segundo) para conferir o efeito “apressado” tão presente em filmes de Charles Chaplin no cinema silencioso dos anos 1920 que também acaba envelhecendo pelo exagero da duração desses segmentos. Somente no clímax do longa, também falho pela longa duração na qual só temos baderna, que Malle cria um elemento curioso ao fazer o elenco guerrear contra uma legião de garçons.

Peça de Museu

Fora as experimentações visuais de Louis Malle traz com bastante competência, se provando um prolífico experimentador assim como Godard, Zazie no Metrô não oferece muitas recompensas para o espectador – a menos que goste de histeria, anarquia completa e caos cinematográfico. Em uma narrativa pífia com personagens caricatos que só se comunicam gritando e chacoalhando todas as partes do corpo, a experiência de assistir ao filme se assemelha a ver um palhaço decadente que faz de tudo para chamar a atenção.

No caso, é bom que Zazie seja aquelas peças de museus audiovisuais que ficam passando em loop nas quais os visitantes nunca prestam verdadeira atenção. Vão gostar do efeito e talvez rir com as piadas distribuídas em doses homeopáticas, mas encarar essa obra em sua totalidade pode muito bem se provar um teste cruel de paciência.

Zazie no Metrô (Zazie dans le métro, França – 1960)

Direção: Louis Malle
Roteiro: Louis Malle, Raymond Queneau
Elenco: Catherine Demongeot, Philippe Noiret, Hubert Deschamps, Carla Marlier, Annie Fratellini, Yvone Clech
Gênero: Comédia, Fantasia
Duração: 93 minutos.