Devoradores de Estrelas empacota temas de ficção científica para o público da sessão da tarde
Devoradores de Estrelas, contudo, não é ruim: é divertido e “encantador” como uma montanha de algodão-doce.

Não é de todo despropositado traçar uma linha entre Contato (de 1997, dirigido por Robert Zemeckis), em uma ponta, e Devoradores de Estrelas (lançado agora, com direção da dupla Phil Lord e Christopher Miller), na outra. Entre esses dois filmes podemos colocar Interestelar (de 2014, dirigido por Christopher Nolan) e Perdido em Marte (2015, de Ridley Scott, que inclusive tem a mesma dupla de roteiristas). Os quatro filmes estão separados por quase 30 anos, mas guardam uma série de similaridades em termos de tópicos, situações dramáticas e preocupações temáticas.
Contato e Interestelar são dois filmes excepcionais, enquanto Perdido em Marte é uma aventura deliciosamente hollywoodiana de escapismo e fantasia bastante imaginativa. Mas o que chama atenção é a maneira como todo um subgênero (que eu chamarei despreocupadamente aqui de “exploração espacial”) vai se modificando até chegar ao seu “mínimo divisor comum”, onde o material é reaproveitado e “reempacotado” numa adaptação para o que provavelmente a indústria entende como a “nova audiência”.
É fácil concluir sem medo de errar que os dois filmes mais antigos estão numa prateleira acima do terceiro e, hoje, são vistos como novos clássicos. Mas já é possível observar uma pequena diferença entre os dois (e nisto não há necessariamente uma observação sobre a qualidade de cada um, mas antes sobre sua natureza como espetáculo). Contato é profundamente filosófico, traz questionamentos morais dos quais não se desvencilha facilmente e é uma obra aberta, quase escancarada, em termos de significado. Ele rejeita respostas fáceis e provoca o espectador com um final emotivo, mas incerto. Interestelar é profundo – embora sua profundidade refira-se mais ao caráter “científico” da narrativa – e elaborado, porém a execução do filme lança mão de mais artifícios para levar o público aonde ele pretende chegar (coisa que Contato evita fazer). Sendo Nolan um mestre do espetáculo da tela grande, a produção assume um caráter operístico, trágico e exuberante (enquanto o filme de Zemeckis parte da imensidão do universo mas termina como um registro quase intimista, silencioso diante do mistério que prevalece).
Como Ridley Scott é um artesão experimentado desse mesmo espetáculo cinematográfico, Perdido em Marte é precisamente executado, em seu engenho (algo mecânico) de relógio suíço. Até mesmo por isso, o caráter “artificial” de sua narrativa (com o qual Nolan lida de forma mais solene em Interestelar) salta aos olhos e o filme tem aquele espírito de “montanha russa” que impera em tantos filmes da indústria (especialmente de 20 anos para cá) – por mais que o caminho pareça incerto e atribulado, a narrativa nunca sai do trilho e o espectador sabe que a arrumação final do filme irá reajustar tudo que pareceu fora de ordem (o que, repito, Contato não se dá ao trabalho de fazer).
E o que dizer de Devoradores de Estrelas? O novo filme traz tópicos reciclados de todos esses anteriores: uma ameaça incerta vinda do espaço, a jornada de cientistas alçados ao papel de heróis, o mito da “cooperação universal” entre diferentes povos da Terra, as soluções que nascem da tecnologia mas ao mesmo tempo o encadeamento delas demonstra um caráter quase “mágico”, etc. O que impressiona, entretanto, é como esses mesmos elementos são agora apresentados da forma mais esquemática e cartunesca possível, de forma que – quase o oposto de Contato – o espectador não tenha sequer a possibilidade de preencher “lacunas” (narrativas, filosóficas, emocionais) porque o filme não permite, tal é o seu “ajustamento” preciso, unidimensional e – por isso mesmo – infantilizador.
Na trama, Ryland Grace (Ryan Gosling) é um professor de biologia que repentinamente se vê convocado por uma oficial alemã (Sandra Hüller) para participar de uma força-tarefa de cientistas que precisam proteger a Terra de uma ameaça relacionada à luz solar que poderá alterar dramaticamente o clima do planeta. Grace escreveu um artigo científico no passado que desperta interesse e é por causa dele que o solteirão desajeitado irá viver uma aventura absolutamente inverossímil, na qual ele irá demonstrar habilidades que apenas astronautas conquistam após anos de treinamento (e das quais ele será dotado quase que automaticamente e pelo mais absoluto acaso).
Já no espaço, Grace se vê completamente sozinho…em relação a seres humanos, porque ele será contatado por um alienígena simpático, que ora lembra um caranguejo, ora um cachorro, e paga sua dívida cinematográfica a personagens famosos que vão desde HAL 9000 (de 2001 – Uma Odisseia no Espaço) até R2-D2 (de Guerra nas Estrelas), passando pelo robô B9 (de Perdidos no Espaço), a bola Wilson de Náufrago e o TARS (do próprio Interestelar). A solução para comunicação entre os dois é tirada por sua vez de A Chegada, de Denis Villeneuve. O ritmo do filme é eletrizante, determinado quase o tempo todo pela rotina “gancho-recompensa” (uma cena “lança a isca”, a seguinte “mostra o peixe”, e assim por diante), uma lógica estética que costuma ser mais “publicitária” que “cinematográfica”, mas que oferece a sensação de “satisfação imediata”, quase visceral, que mantém o público atual (habituado às distrações infinitas do smartphone e do streaming) “atento”.
Não faz sentido imaginar que um filme de entretenimento puro como este perde completamente o compromisso com a lógica interna. Há uma comparação fácil de ser compreendida: em Armageddon, o blockbuster de 1998 dirigido por Michael Bay, partimos de uma premissa com alguma semelhança à peripécia de Grace: um grupo de operários de perfuração de petróleo é enviado ao espaço para desviar a rota de um asteroide gigante. Eles fazem um treinamento ligeiro como astronautas (coisa de que Grace não chega nem perto) antes da viagem, mas o roteiro (escrito pelos imensamente talentosos J.J.Abrams e Tony Gilroy) respeita a inteligência do espectador e em momento algum se esquece do amadorismo deles ou finge que eles magicamente tornaram-se astronautas verdadeiros.
O roteiro de Drew Goddard e Andy Weir, por outro lado, trata esse elemento fundamental de sua história como um detalhe de importância secundária, e Grace age quase o tempo todo como se tivesse centenas de horas de viagens espaciais anteriores – o máximo que problematizamos o tópico é com um ou outro raro comentário sarcástico -, principalmente quando está levando a cabo as tarefas mais complexas e arriscadas. Não tem como não perceber a discrepância (e a decadência relacionada) entre um roteiro dos anos 1990 e este, de 2026, salientando que se trata exatamente do mesmo tipo de filme e da mesma perspectiva de cinema para “entretenimento” do grande público.
Devoradores de Estrelas, contudo, não é ruim: é divertido e “encantador” como uma montanha de algodão-doce. É difícil aceitar, no entanto, que o espectador de filmes de ficção científica de 2026 esteja procurando essa sensação ao assistir a um filme. É aterrador pensar que, 30 anos atrás, ele estaria vendo Contato – com toda a sua complexidade, provocação filosófica e extensão de imaginário, evitando respostas prontas e convidando o público a uma reflexão que perdura até hoje.
Agora, esse mesmo espectador termina sua sessão batendo palminhas, como uma criança de cinco anos, diante de uma cena que é terna e constrangedora ao mesmo tempo (porque revela a idade mental que imagina ser o consumidor final desse tipo de produção). Isso sem considerar que o “pai” de todos esses filmes é nada menos que o 2001 de Kubrick. Dureza.