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Duna (1984) – É tão ruim quanto dizem?

A série de livros de fantasia, Duna sempre me fascinou bastante, por tocar em temas interessantíssimos com uma abordagem decente, como a questão da religião como um instrumento da política e vice-versa, das relações de poder e como elas são mutáveis, sobre impérios que caem e impérios que vão surgindo sobre os escombros do anterior. Temas que são debatidos por grandes intelectuais e nos livros do Frank Herbert tem aquele tempero de épico de ficção científica e causam a reflexão enquanto nos divertimos com as aventuras e desventuras da família Atreides.

O contexto

Após diversas tentativas de tirar o filme do papel com tentativas comandadas por diretores como David Lean, Alejandro Jodorowsky e Ridley Scott falhando, o projeto foi cair nas mãos do jovem e promissor David Lynch, que desde a sua estreia com o filme Eraserhead tinha impressionado diversas pessoas, como o próprio Stanley Kubrick, que chegara a dizer que este era seu filme preferido. O filme começa com uma frase que gosto muito, “um começo é algo delicado”, remetendo à importância de colocar as coisas em seu devido contexto e é isso que vamos fazer aqui.

Dino de Laurentiis e sua filha, Rafaella de Laurentiis, os produtores que detinham os direitos sob o romance de autoria do Frank Herbert, assistiram ao filme Homem Elefante, realizado por Lynch e decidiram que este era o homem certo para trazer a saga do planeta deserto para as telas. David não era muito interessado pelo gênero de ficção científica e não muito tempo atrás havia recusado a proposta de George Lucas para dirigir Star Wars: O Retorno de Jedi. Mas após pesquisar sobre Duna, o diretor viu que seria uma boa oportunidade de fazer algo próprio e original com o gênero, prontamente aceitando a proposta dos De Laurentiis de criar um “Star Wars para adultos”, slogan que continua sendo usado até mesmo no novo filme do Villeneuve que sai este ano.

Um filme visualmente belo

O filme tinha um orçamento bem robusto, de 41 milhões de dólares, um orçamento bem maior do que qualquer um dos Star Wars feitos até então e boa parte desse montante aparece nas telas, principalmente no design de produção. A impressão que a gente tem quando lê Duna é que este é um universo multicultural e isso se reflete na direção de arte tomada para o filme. Tomemos a cena de abertura que mostra a corte do imperador padixá, aqui ornamentos medievais se misturam com roupas modernas (me referindo à modernidade dos séculos XVIII e XIX) conferindo assim uma impressão visual muito próxima a que Frank Herbert evoca na versão literária.

Estes ornamentos familiares se misturam com elementos mais fantasiosos, afinal esta é uma ficção científica que se passa vinte mil anos depois da nossa época, aqui David Lynch solta a sua imaginação ostentosa e bizarra da qual ele é tão conhecido, Duna dá a chance para ele brilhar nessa seara. Uma das características mais interessantes do livro é que há pouca descrição, assim em uma adaptação fílmica é possível fazer certas coisas na área da direção de arte com alto grau de liberdade. Assim, temos um dos designs mais bizarros do David Lynch em toda a sua carreira, o Navegador da Guilda Espacial, que em questão de bizarrice só encontra rival com o bebê feto de Eraserhead.

Mas ao mesmo tempo que possui um design de produção rico, que facilmente salta aos olhos, a produção peca com seus efeitos especiais, aquém do padrão da época, como muitos críticos haviam apontado. Nessa área destaco o efeito dos escudos, muito exagerado, quadrado, chamativo, poderia ter sido feito de uma maneira mais sútil que não causasse uma impressão tão negativa a quem assiste. Outro problema visual tem relação com a técnica do matte painting (hoje mais conhecida como chroma key) que fica muito perceptível em alguns momentos, destaco aí uma cena que envolve o Barão Harkonnen e um verme de areia.

A atuação

Quanto às atuações, aqui destaco a dos protagonistas, Kyle McLachlan foi um ótimo Paul Atreides, o jovem ator (à época) declara que já era fã de Duna muito antes de ter recebido a proposta de interpretar Paul Atreides e ele reflete muito bem tanto a inocência e insegurança de Paul no início da aventura e a sabedoria que vai despertando aos poucos até que enfim ele se torna o tão esperado Kwisatz Haderach, o profetizado Lisan al Gaib e Muad’Dib, Mahdi (messias) e líder dos fremen. 

Lady Jessica, a mãe de Paul sempre foi o coração do livro, a personagem mais relacionável. Apesar de fazer parte da irmandade das Bene Gesserit e possuir tremendos poderes, a concubina é injustiçada, colocada na posição de traidora ao ser acusada de ter matado seu marido e ter causado a derrocada da casa Atreides, uma inverdade terrível. Afinal, Leto e sua posição na casa Atreides eram as coisas que ela mais estimava em sua vida e agora ela tem apenas uma razão para viver, garantir a sobrevivência e segurança dos seus filhos, vivendo entre uma cultura alienígena a sua (a dos fremen). Francesca Annis interpreta muito bem esses dois lados da personagem, forte e ao mesmo tempo sensível.

Além destes, o filme tem um elenco de apoio espetacular, nomes como Patrick Stewart e Max Von Sydow dispensam apresentação, definitivamente estão entre os melhores atores de suas respectivas gerações. Mas, a cereja do bolo deste filme em geral são os vilões, os Harkonnen. É nesses caras malvados que eu mais consigo enxergar a marca do David Lynch. No livro, estes personagens e seu planeta natal, Giedi Prime tem sim a sua parcela de excentricidade, mas o Lynch eleva essa característica a décima potência. Temos alguns adereços bizarros, objetos impossíveis de identificar que causam estranheza e o melhor de tudo isso (para não dizer o contrário) é a representação de tais personagens.

Uma personalidade muito conhecida dos fãs de Rock, Sting, interpreta o jovem e arrogante, Feyd Rautha ( uma curiosidade é que na versão do Jodorowsky que nunca saiu, quem interpretaria ele, seria outro rockeiro, Mick Jagger). O vocalista do The Police empresta sua energia e agilidade ao personagem, sendo uma representação até decente. Então temos Rabban, que possui bastante força física, porém, pouca inteligência, um típico capanga, interpretado por Paul L. Smith e finalmente, Vladimir Harkonnen, o grande cabeça da grande Casa do Landsraad.

Há a controvérsia em relação à fidelidade desse personagem ao material original, que é praticamente nula. No livro, o barão é um gênio estrategista, me lembrando um pouco o Lex Luthor dos quadrinhos do Superman em sua abordagem a vilania, mas aqui ele é um palhaço cheio de extravagâncias, ele gosta de gritar o tempo todo e tem uma certa irracionalidade quanto ao seu sadismo, tem uma cena em que ele literalmente flutua em círculo rindo sem parar, é como um vilão de desenho animado dos mais bobinhos. Há ainda outra controvérsia em relação à abordagem ao homossexualidade. No livro, ele é um homossexual sádico também, mas aqui essa característica é agravada por conta do tom mais lúdico que eu já havia citado e ainda adicionam uma doença degenerativa que muitos viram como uma analogia a Aids. Dito isso, dentre todos os personagens, o que está mais distante da sua versão original é o Barão, mas reconheço também que o vilão excêntrico e exagerado é uma marca registrada do diretor,  David Lynch, vide o Frank de Blue Velvet e Bob de Twin Peaks.

Roteiro e montagem

Agora, vamos comentar a parte mais complicada do filme, o roteiro ou melhor, a maneira com que o filme foi apresentado no corte que foi para o cinema. Conta-se que o primeiro corte tinha pouco mais de quatro horas de duração, mas o corte que o Lynch queria que fosse exibido tinha três. Os executivos do estúdio ficaram apreensivos com a duração do filme, pois o mais seguro para eles assegurarem o retorno do capital investido e possível lucro era com o padrão do longa metragem que por excelência não extrapolasse muito a marca de duas horas. Os produtores Dino e Rafaela de Laurentiis fizeram o corte e as mudanças sem o aval do diretor, David Lynch, criando uma desavença que dura até hoje. Sempre que é perguntado sobre Duna, Lynch fica melancólico e diz que a experiência de ter o seu direito de corte final revogado foi muito dolorosa para ele e qualquer coisa que remeta a Duna cutuca esta sua ferida (recentemente ao ser perguntado sobre a sua opinião acerca da versão do Denis Villeneuve, ele se absteve de responder).

O resultado foi um filme muito fragmentado e confuso, a maioria das pessoas que assistiram compreenderam muito pouco sobre o que se passava, um crítico da época escreveu “Duna tem alguns personagens sensitivos, o que os coloca na posição privilegiada de compreender o que se passa no filme”. Esta frase sintetiza a desordem que foi o resultado deste filme. Mas ao longo dos anos, o filme recebeu um certo “cult following“, inclusive eu tenho um carinho especial por este filme, sendo fã tanto da série literária criada por Frank Herbert e do excelente artista que é o David Lynch.

A temática

Mas creio ter compreendido a intenção do filme. Ora, é difícil expor em um filme de apenas duas horas a densidade dos temas expostos no material original. A questão da religião e política foi bem simplificada, eles não revelam que a crença dos fremen no Lisan Al Gaib foi um mito implantado pelas Bene Gesserit e que Paul não é nenhum messias real, mas uma ferramenta confeccionada ao longo de várias gerações por meio da manipulação genética para ser usada por elas em sua busca por poder. Omitindo essa informação, a compreensão comum é que novamente estamos diante da velha história do escolhido que aparece em boa parta das obras de fantasia, na qual Herbert faz uma boa subversão.

A questão ecológica também foi bastante simplificada e a riquissima cultura fremen é deixada em sehundo plano, mas tem um tema importante de Duna em que há um maior foco e ele está explicitado neste diálogo retirado do filme, proferido pelo personagem, Duque Leto: “Uma pessoa precisa de novas experiências. Elas nos estimulam profundamente, ajudando no amadurecimento. Sem mudança, algo dorme dentro de nós e raramente acorda. O adormecido deve acordar.”

“O adormecido deve acordar”, creio ser uma boa mensagem e ela perpassa toda a saga de Duna, por exemplo, o universo de Frank Herbert é pós inteligência artificial. A humanidade após ter feito as máquinas pensantes estagnou-se, não era necessário pensar mais e após um conflito que se deu em torno destas máquinas, o jihad butleriano, viram que isso era ruim e instituíram uma proibição. Um mandamento que colocam até em um novo livro religioso, a bíblia católica laranja dizendo “não criarás uma máquina à semelhança da mente de um homem”. O jihad também é omitido do filme (exceto na versão estendida, que é ainda pior) mas exemplifica bem o sentido da frase.

A consciência superior do Kwisatz Haderach é despertada por uma certa quantidade de saturação no sangue pela substância Melange, a especiaria mais importante de todo o universo que possibilita as viagens espaciais e aumenta a expectativa de vida, além de conferir a algumas pessoas a capacidade da presciência e só pode ser encontrada no planeta Arrakis. Lá em Arrakis, a substância fica até mesmo no ar em que as pessoas respiram. Desta forma, se a família Atreides nunca saísse do planeta Caladan, Paul nunca mudaria, “despertando o adormecido” dentro de si, assim, a partir dele, todo o universo pode evoluir.

Dentro dessa ideia, creio que o filme seja muito bem resolvido e até mesmo a cena da chuva, que foi a parte que Frank Herbert mais odiou pois dentro da lógica que ele criou em seus livros, não poderia chover naquele momento pois nem Paul tem esse poder, nem seria conveniente, pois a água é tóxica para os vermes e a precipitação acabaria matando todos eles, que por sua vez são os produtores da especiaria Melange, portanto não haveria mais a substancia mais importante de todo o universo. Mas creio que esta seja uma forma mais poética e ilustrativa dessa mudança final que o filme estava encaminhando, o planeta deserto, que nunca viu uma gota de chuva em toda a sua história finalmente chove, um verdadeiro milagre.

Considerações finais

Para concluir, eu não acho que o filme seja perfeito, muito longe disso, mas há um certo lirismo até mesmo em suas falhas que me fascinam e me fazem gostar um pouco mais cada vez que revejo o filme. Tenho um carinho especial por esse filme, entendo a frustração do David Lynch e lamento que o filme não tenha dado muito certo naquela época. Agora torço para que o novo filme do Denis seja ótimo e tenhamos uma nova franquia de ótimos filmes nos próximos anos.

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Publicado por Daniel Tanan

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