Cinema

Eles Vão Te Matar é paródia exagerada com referências em excesso

É curioso notar que Eles Vão Te Matar tem elementos em comum com Casamento Sangrento: A Viúva, dois filmes lançados quase simultaneamente.

Daniel Moreno
Daniel Moreno Redação
4 min de leitura
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A comédia de horror e ação dirigida por Kirill Sokolov é o tipo de filme que jamais seria produzido três décadas atrás. É um produto direto da cultura de referências que hoje mantém a comunidade aquecida, mas que ao mesmo tempo converte boa parte da produção de Hollywood em um jogo de espelhos repetitivo e mecânico, em que praticamente todo novo lançamento é um híbrido de outros lançamentos mais ou menos recentes, num ritmo tão neurótico que impede os espectadores de se darem conta disso.

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Eles Vão Te Matar tem tantas referências a outros filmes que mais parece um arquivo gerado por I.A. a partir de um pedido proposto pelo usuário. É como se alguém digitasse meia dúzia de filmes e mandasse um robô misturar tudo num “roteiro novo” – e o resultado é esse amontoado de cenas requentadas, sob a aparência exuberante de um orçamento que não parece exatamente pequeno. Pode ser divertido, mas mesmo o cinema de gênero mais vulgarizado pela indústria já teve seus momentos de inventividade e inovação. 

A trama é a seguinte: Zazie Beetz (emburrada como de costume) é uma ex-presidiária que arruma emprego como camareira num “hotel” exclusivo em Nova York. Ela logo se dá conta de que alguma coisa por lá não está certa: hóspedes como uma irreconhecível Heather Graham parecem mais interessados nela do que seria aceitável e o prédio é uma fortaleza da qual é impossível sair sem avisar. A garota carrega a culpa de ter abandonado sua irmã menor, vítima como ela de um pai abusivo. A trama do passado vai se cruzar eventualmente com a do tempo atual quando ela precisa enfrentar os hóspedes psicóticos que na verdade estão unidos em algum tipo de “seita satânica” que faz do hotel sua sede. Tudo isso está exposto no trailer do próprio filme.

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Tudo que o filme oferece ao público já foi assistido antes e, não raramente, num registro mais original. O roteiro começa remetendo ao universo de preocupações de Jordan Peele (atritos raciais e de classe escondidos na aparência de um filme de terror), mas ele logo muda de canal e ficamos diante de uma espécie de Kill Bill sobrenatural – onde não há regras e tudo parece possível, personagens que morrem e renascem, ferimentos mortais que se curam sozinhos (um pouco de A Morte do Demônio também…), etc. Qualquer relação com a realidade é desfeita em nome de um espetáculo cuja lógica está longe de ser “dramatúrgica” ou “cinematográfica”: estamos no território do videogame, em que ninguém morre de fato e tudo pode ser revertido a um apertar de botão.

Este está longe de ser o primeiro “prédio do mal” da história do cinema. Temos antes o edifício de O Bebê de Rosemary (1968), de A Sentinela dos Malditos (1977) e mesmo de John Wick – de onde Eles Vão Te Matar empresta até mesmo a arquitetura Art déco. Mas o que faz de certos filmes antigos serem efetivamente “assustadores”, enquanto este é apenas ultrajante e desagradável em sua fixação infantil por sangue jorrando e membros decepados?

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Vamos pegar alguns exemplos aqui. Em filmes antigos envolvendo “seitas satânicas”, como A Sétima Vítima (1943) e Corrida Com o Diabo (1975), praticamente tudo que se vê na tela poderia eventualmente acontecer com o espectador na vida real. Se pensarmos em um filme mais recente – o brilhante O Albergue (2005), do qual Eles Vão Te Matar também se nutre em diferentes elementos visuais – acontece o mesmo fenômeno: o que a trama propõe poderia acontecer, o horror não é algo totalmente cartunesco, absurdo e desconectado da realidade. O roteiro prepara cuidadosamente a violência e, quando ela chega, seu impacto é avassalador. 

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Aqui, entretanto, não há “preparação” alguma. Praticamente desde a primeira cena o espectador é capturado por uma avalanche de efeitos e violência, uma experiência atordoante, por um lado, mas vazia e repetitiva, por outro. Vocẽ já viu tudo isso, num melhor preparo e em doses mais inteligentemente conectadas.

É curioso notar que Eles Vão Te Matar tem elementos em comum com Casamento Sangrento: A Viúva, dois filmes lançados quase simultaneamente. Em ambos temos a dupla de irmãs que precisa acertar as contas entre si, os milionários satanistas e o hotel convertido em pesadelo espacial para as protagonistas. Mas enquanto este exagera a dose em todos os seus componentes (num todo quase pretensioso, o que não ajuda uma paródia), Casamento sabe que certos pratos já foram servidos muitas vezes, então é preciso pegar leve: coisa que Eles Vão Te Matar não faz nem de longe.

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