Críticas

Review | Elden Ring Nightreign: The Forsaken Hollows expande o que o jogador já conhece

Elden Ring: Nightreign e sua DLC sabem exatamente o público que querem atingir: aqueles que abraçaram a proposta inicial.

Daniel Tanan
Daniel Tanan Redação
7 min de leitura
Publicidade

Desde seu anúncio, Elden Ring: Nightreign sempre carregou um peso difícil de ignorar. Não apenas por se tratar de um derivado de um dos jogos mais celebrados da década, mas por representar uma mudança clara de direção dentro da própria identidade da FromSoftware

Publicidade

Ao apostar em uma estrutura mais cooperativa, cíclica e orientada à repetição, Nightreign se afastou da experiência solitária e contemplativa que consagrou Elden Ring, abrindo espaço para debates acalorados entre fãs e críticos. 

A chegada de The Forsaken Hollows, portanto, não é apenas uma expansão de conteúdo, mas uma reafirmação dessa escolha criativa. Mais do que adicionar novas áreas, inimigos ou desafios, a DLC de Nightreign funciona como um manifesto silencioso sobre o que esse projeto pretende ser. 

Publicidade

Ela aprofunda sistemas, intensifica a dependência do trabalho em equipe e reforça a lógica de ciclos e repetição como eixo central da experiência. Ao fazer isso, a expansão deixa ainda mais claras tanto as virtudes quanto as fragilidades dessa abordagem. É um conteúdo que não busca consenso, mas coerência, e é justamente nesse compromisso com sua própria visão que The Forsaken Hollows se torna tão interessante quanto controverso.

Entre coerência criativa e ruptura com a tradição

A DLC de Elden Ring: Nightreign, The Forsaken Hollows surge como uma tentativa clara da FromSoftware de aprofundar e justificar a existência desse spin-off dentro do universo de Elden Ring. Desde seu anúncio, Nightreign nunca foi um projeto consensual: ao abandonar a estrutura solitária, contemplativa e quase espiritual do jogo original em favor de uma experiência mais cooperativa, cíclica e orientada a runs, o título já carregava consigo um certo desconforto entre os fãs mais tradicionais.

 A DLC, portanto, não chega apenas como “mais conteúdo”, mas como uma reafirmação de filosofia. E é justamente aí que ela se torna interessante e também problemática.

Do ponto de vista conceitual, a expansão aprofunda a ideia de um mundo condenado à repetição, à decadência contínua e à reorganização constante. 

As novas áreas e eventos reforçam a sensação de instabilidade: terrenos que mudam, rotas que se reorganizam, inimigos que não apenas testam reflexos, mas também leitura de cenário e coordenação em grupo. Há aqui um mérito inegável. A DLC entende o que Nightreign quer ser, um Elden Ring fragmentado, mais cruel em ritmo e menos indulgente em contemplação e trabalha para expandir essa identidade em vez de suavizá-la.

Os novos desafios e chefes seguem a tradição da FromSoftware em termos de design visual e agressividade mecânica. São encontros que exigem leitura precisa, domínio das builds disponíveis e, sobretudo, cooperação real. Diferente do co-op opcional do Elden Ring original, aqui a colaboração não é uma ajuda externa: ela é parte estrutural da experiência. 

A DLC reforça isso ao criar situações em que a falha coletiva é inevitável se cada jogador agir de forma isolada. Para alguns, isso representa uma evolução natural do design da From; para outros, é um afastamento definitivo daquilo que tornava seus jogos únicos.

Publicidade

Narrativamente, a expansão mantém a linguagem fragmentada característica do estúdio, mas agora aplicada a um contexto diferente. A lore deixa de ser apenas descoberta individual e passa a ser algo quase funcional, diluída em ciclos, eventos e repetições. Isso enfraquece um pouco o impacto poético da narrativa ambiental, aquela sensação de ruína silenciosa que Elden Ring dominava tão bem e a substitui por algo mais pragmático, quase sistêmico. A história ainda está ali, mas ela parece menos interessada em ser contemplada e mais em justificar a mecânica. É um deslocamento sutil, mas significativo.

O maior problema da DLC, no entanto, não está no conteúdo em si, mas naquilo que ela evidencia: Nightreign é um projeto que exige engajamento constante, quase insistente. A expansão adiciona mais camadas, mais sistemas, mais razões para repetir ciclos e isso pode ser tanto uma virtude quanto um fardo. Para jogadores que abraçaram a proposta desde o início, The Forsaken Hollows funciona como combustível: amplia possibilidades, renova desafios e prolonga a vida útil do jogo. Para quem já sentia certo cansaço da estrutura repetitiva, ela pouco faz para aliviar essa sensação. Pelo contrário, a intensifica.

Publicidade

Existe também uma tensão clara entre identidade artística e modelo de longevidade. A DLC parece dialogar com um público que aceita, ou até deseja, uma FromSoftware mais próxima de estruturas de jogo como serviço, ainda que o estúdio nunca abrace esse rótulo abertamente. A fragmentação do mundo, os eventos rotativos, os desafios pensados para múltiplas runs sugerem um tipo de engajamento diferente daquele que consagrou Dark Souls, Bloodborne e o próprio Elden Ring. Não é necessariamente um erro, mas é uma mudança que merece ser observada com cautela.

Ainda assim, seria injusto ignorar o cuidado técnico e artístico presente na expansão. O design dos ambientes continua impecável, os inimigos mantêm aquele equilíbrio raro entre estranheza e coerência estética, e a trilha sonora reforça a sensação de um mundo condenado, preso a um crepúsculo eterno. The Forsaken Hollows não é uma DLC preguiçosa, nem genérica. Ela é fruto de um estúdio que sabe exatamente o que está fazendo, mesmo quando essa escolha não agrada a todos.

No fim, a DLC de Elden Ring: Nightreign funciona como um espelho do próprio jogo-base: ambiciosa, bem executada, mas divisiva. Ela não tenta converter os céticos, nem suavizar suas arestas. Ao contrário, dobra a aposta numa proposta que já era arriscada. Para quem aceitou esse pacto desde o início, a expansão é rica, desafiadora e coerente. Para quem ainda busca em Elden Ring a solidão melancólica, a exploração silenciosa e a introspecção quase filosófica, a DLC apenas confirma que Nightreign caminha por outra trilha. E talvez essa seja sua maior virtude e seu maior problema.

Conclusão 

Eu pessoalmente não curto muito essa mudança que a FromSoftware trouxe para Nightreign de modo geral, aproximando o jogo a um título de serviço multiplayer, mais preocupado com ciclos, repetição e engajamento constante do que com a experiência autoral, solitária e quase contemplativa que sempre definiu o estúdio. A DLC apenas reforça essa sensação ao dobrar a aposta em sistemas que exigem dedicação contínua, cooperação obrigatória e uma lógica de progressão que se distancia da descoberta orgânica.

Não se trata de falta de qualidade,o conteúdo é bem produzido, desafiador e tecnicamente impecável, mas de uma mudança de essência que, para mim, esvazia parte do impacto emocional e simbólico que sempre fez os jogos da FromSoftware se destacarem.

Ainda assim, seria desonesto negar que Elden Ring: Nightreign e sua DLC sabem exatamente o público que querem atingir. Para quem abraçou essa proposta desde o início, a expansão funciona como um reforço sólido: mais desafios, mais profundidade sistêmica e uma identidade própria que se sustenta com coerência. 

Publicidade

O problema é que essa identidade nasce do afastamento deliberado de tudo aquilo que muitos consideram o coração da obra da From. No fim, Nightreign não é um erro, mas uma escolha e a DLC deixa claro que o estúdio está confortável em seguir por esse caminho, mesmo que isso signifique deixar parte de seu público para trás.

Tags: #Elden Ring
Compartilhar: Twitter Facebook WhatsApp