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Quando Feud foi anunciada como uma nova série antológica de Ryan Murphy, o mais conhecido nome entre os também criadores, Jaffe Cohen e Michael Zam, já foi dito também que a temporada de estreia focaria na conturbada relação das atrizes Joan Crawford e Bette Davis, respectivamente interpretadas por uma das divas pessoais de Murphy, Jessica Lange, e a nada menos brilhante, Susan Sarandon. Com o sugestivo título de Feud (disputa ou “rixa”, em português), muitos sugeriram, para futuras temporadas, outras conhecidas relações de intriga entre mulheres, principalmente a recente e midiática relação de Katy Perry e Taylor Swift. Mas Murphy foi taxativo: “Não faria outra briga entre mulheres de Hollywood”. Após a conclusão da 1ª temporada, as razões são bastante óbvias.

Ambientada na década de 60, Feud apresenta um belíssimo trabalho de arte. A caracterização dos cenários, mas, principalmente, dos figurinos e penteados, não apenas recria uma época, mas também oferece uma sofisticação com ar levemente decadente,muito cabível com os anos que marcam o fim da considerada era de ouro do cinema hollywoodiano e também fala muito do momento de carreira de suas protagonistas.

Os criadores escolheram ter como linha narrativa a montagem paralela da ação nos anos 60 com fictícias entrevistas para um documentário, por volta de 20 anos depois. Esse documentário é interessante para mostrar a visão de outros personagens sobre a relação de Crawford e Davis, já com algumas décadas de distância; e os roteiristas aproveitam muitos desses momentos para utilizar um tom de humor e provocação muito sofisticado ao abordar a relação de beleza e juventude que a mídia e o mercado cinematográfico estabelecem com as atrizes. No entanto, esse fio condutor é muito frágil, sendo deixado de lado na maior parte da narrativa, e terminando dispensável, apesar de seus ótimos momentos.

Uma escolha nada frágil foi o recorte a ser retratado,seus 8 episódios foram utilizados de forma inteligente para construir suas personagens, a relação entre elas e a relação delas com o contexto histórico no qual viviam. Os roteiros partem da produção de O que terá acontecido a Baby Jane? (1962), e durante os 4 primeiros episódios acompanhamos todo o contexto do filme, desde o desejo de Crawnford por um novo sucesso, até um sucesso popular, mas não de crítica que se torna insatisfatório para as duas atrizes.O quinto episódio é todo voltado ao Oscar de 1963, ao qual Davis é indicada, enquanto Joan Crawford realiza uma campanha interna contrária. E os 3 últimos fornecem um panorama de como ambas buscam e falham na tentativa de permaneceram relevantes no cinema.

Feud, certamente, agrada mais o gosto do público americano e o FX, seu canal de origem, pôde comemorar ótimas audiências. A resposta em outros países pode não ser tão positiva. Não vejo demérito por isso, mas o diálogo com o imaginário do americano é muito forte nessa temporada e pode fazer com que alguns espectadores desavisados se sintam pouco atraídos e interessados, vi relatos sobre e senti o mesmo. No entanto, quando a série estabelece seu universo e passa ser mais incisiva ao trabalhar as camadas dessa história, essas camadas são questões de interesse universal e elas são trabalhadas de maneira muito hábilaté culminar em espetacular episódio final, que é sim uma grande homenagem a suas divas, mas é também um poderoso questionamento sobre a fragilidade das mesmas e de todos nós.

A série encontra sua força na unidade, como poucas vezes vi acontecer; por isso fiz questão de, anteriormente, detalhar, ainda que grosseiramente, como os arcos se estruturam durante a temporada, pois tal construção foi essencial para Feud atingir todo o seu potencial.

Além de ser encantador acompanhar a recriação dos bastidores, não apenas dos filmes, mas das negociações que os envolvem, a direção acerta na medida e no equilíbrio de drama e humor, permitindo que espectador seja gentilmente guiado através de uma narrativa que, obviamente se posiciona diante dos fatos que opta mostrar, mas sem forçar sentimentos ou exigir também o posicionamento de quem assiste. Dessa forma, a série resiste ao sensacionalismo e oferece um retrato crítico, mas emocional de Hollywood, capaz de gerar inquietação e questionamentos sem respostas fáceis.

Aqui, peço licença para esse texto se tornar mais pessoal, mas eu não seria capaz de explicar o maior acerto dessa temporada inicial sem contar como fui afetada por ela, pois a série atinge seu auge quando consegue estabelecer um diálogo íntimo com seu espectador.

Eu escrevi há alguns parágrafos que em certo ponto da temporada, os roteiristas passam a trabalhar com mais profundidade as camadas do relacionamento entre Crawford e Davis, foi a partir desse momento que ao final dos episódios ficava um perceptível sentimento de angústia, e esse não é um relato apenas meu.

Susan Sarandon e Jessica Lange são divas e brilham como suas personagens, Sarandon transmite a coragem de Bette Davis, sua confiança e sua luta constante para se manter assim, olhando o mundo de cabeça erguida. Lange deve brilhar na temporada de premiações, sua Joan Crawford é completamente fascinante e comovente, dosando perfeitamente a vulnerabilidade até escancará-la na tela em seus momentos finais. Ambas conversam com o espectador mais através de suas fraquezas do que suas forças, elas incomodam e por isso mesmo, impressionam.

Há um diálogo entre as protagonistas no penúltimo episódio, no qual uma questiona a outra sobre seus auges, quando Joan Crawford era “a mais bela garota do mundo” e Bette Davis era “a mais talentosa garota do mundo”, ambas reconhecem, vaidosas, que a sensação de ser “a mais” era excepcional, porém as duas também reconhecem, dolorosamente honestas, que “nunca foi o suficiente”. Nunca foi o suficiente para elas e nunca foi o suficiente para o mundo, assim como não foi o suficiente para que ambas, não precisassem, naquele momento, estar buscando restos do brilho que jamais retomariam.

Davis era a talentosa, mas não a consideravam tão bela, extremamente profissional, segura de si, pronta para enfrentar quem precisasse e confiante que seu talento seria o suficiente para sempre. Crawford era bela, mas vista como mais esforçada que talentosa, carismática, midiática e acreditava que a figura da estrela que construiu sobre si mesma nunca se apagaria.

Mas a juventude passou para ambas, e alguém pode pensar que Bette Davis se sairia melhor, afinal sua marca nunca foi a beleza, mais talvez, ser jovem seja, para todo o meio midiático, ainda mais importante que ser bela. Esse tema não ficou restrito a década de 60, Meryl Streep é uma exceção. Muitas atrizes, consideradas talentosas ou belas e até mesmo, talentosas e belas, denunciam a crueldade da escassez de papéis já aos 40 anos, personagens interessantes então, são artigos raros que, felizmente, começam a ser mais frequentes na TV enquanto o cinema se mantém em um injustificável pedestal da juventude.

Davis sentiu o golpe, obviamente, mas era uma atriz acima de tudo. Mesmo quando o mercado a rejeitou, ela insistiu, fez inúmeros trabalhos para TV – na época vista ainda como um produto de menos valor – fez, inclusive, diversos pilotos que sequer se tornaram séries, mas ela insistiu e trabalhou até 1989, seu último ano de vida. Bette Davis era uma profissional e apenas ali se encontrava como indivíduo. Já Crawford era uma estrela acima de tudo, para ela, ser rejeitada como atriz era também ser rejeitada como pessoa.

Por isso, pode até ser que cause estranhamento mas é justificável que os criadores tenham decidido representar Bette Davis, uma das mais famosas e respeitas estrelas do cinema americano em todo o mundo, 10 vezes indicada ao Oscar, 2 vezes vencedora, mas deixá-la como uma “co-protagonista coadjuvante”, de extremo luxo, mas coadjuvante. Feud se debruça com maior carinho e profundidade sobre a complexa Joan Crawford.

Joan carrega em si a essência da série, a mãe acusada de abuso pela filha adotiva, a mulher que passou seus últimos anos em solidão, a atriz que passou uma carreira inteira se provando e sentindo que jamais poderia convencer ninguém, a estrela que faleceu no ostracismo. Joan, de quem ficamos tão íntimos durante os episódios, de quem conhecemos e reconhecemos a dor, foi mais um entre tantos humanos inseguros buscando oferecer o melhor de si.

Crawford teria se beneficiado muito dos debates sobre empoderamento e sororidade, ela se permitiu arrancar dentes para um melhor caimento da bochecha, acreditou que seu carisma e beleza pudessem vencer preconceitos e cedeu a alimentar uma história de admiração e hostilidade que só beneficiou folhetins de fofoca.

Acompanhar uma mulher lutando contra a decadência ao se agarrar justamente a tudo aquilo que é passageiro e lhe oprimia, foi tocante e desesperador. Joan comete erro atrás de erro e os espectadores só podem se perguntar: “Como permitimos que esses enganosos valores ainda norteiem nossa visão de mundo? Como fazemos isso a nossas mulheres? Como fazemos isso a nós mesmos?”. Em 2017 com Kens e Barbies humanos, alta exposição em redes sociais e disputas de cliques e curtis, Feud olha em nossos olhos e questiona: “Percebem o absurdo?”.

A jornada é dolorosa, mas através de um roteiro cuidadoso, Jessica e Susan nos presenteiam com tamanha honestidade e complexidade que é impossível não ver a humanidade de seus papéis, aprender com eles e se questionar através deles. Quando elas saem de tela sobra o título do último episódio, que é também a frase final de O Que terá acontecido a Baby Jane?, apergunta que eles nos fazem e que, metaforicamente, pode ser usada também diante do espelho é:

“Você quer dizer que por todo esse tempo nós poderíamos ter sido amigas?”

Feud – 1ª Temporada (Idem, EUA – 2017)

Criado por: Ryan Murphy, Jaffe Cohen, Michael Zam
Direção: Ryan Murhpy, Gwyneth Horder-Payton, Liza Johnson, Tim Minear, Helen Hunt
Roteiro: Ryan Murphy, Jaffe Cohen, Michael Zam, Tim Minear, Gina Welch
Elenco: Susan Sarandon, Jessica Lange, Stanley Tucci, Judy Davis, Jackie Hoffman, Alfred Molina, Catherine Zeta-Jones, Dominic Burgess, Kathy Bates, Alison Wright
Emissora: FX
Gênero: Drama, Biografia
Duração: 45 min

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