Obs: contém spoilers.

A espera finalmente acabou. Pela primeira vez, foi preciso esperar mais de um ano para Game of Thrones retornar. De certa forma, a sétima temporada preserva o mesmo espírito de tantas anteriores em seu primeiro episódio: o clima morno repleto de suspense e incertezas.

A elipse entre uma temporada e outra ainda permanece confusa, por conta do início de episódio parecer ocorrer poucas horas do final da sexta temporada e já no final do episódio termos a chegada de Daenerys à Pedra do Dragão. Firmando a cota de mortes sempre necessária para os espectadores, vemos Arya disfarçada de Walder Frey, comemorando a morte dos Starks no Casamento Vermelho. Envenenando o vinho dos guerreiros, Arya concretiza sua vingança. O Norte se lembra.

A reviravolta é bastante previsível, mas podemos ver um pouco mais da Arya usando suas habilidades aprendidas na Casa do Preto e Branco. Assim como em diversos outros momentos, temos um plano de grande contemplação mostrando o que os Caminhantes Brancos sabem fazer de melhor: caminhar. Porém, temos bons vislumbres de diversos gigantes mortos-vivos em meio ao grupo.

O roteiro se preocupa em colocar e estabelecer onde estão todas as peças do novo tabuleiro. Portanto logo vemos Bran chegando à Muralha, Jon Snow praticando diplomacia enquanto lida com diversas interrupções de Sansa em claro contrastes entre coerção e consenso – as virtudes de um príncipe, Cersei lidando com o poder e reconhecendo estar enfraquecida, Euron Greyjoy chegando à Porto Real com uma proposta para Cersei, Samwell enfrentando o cotidiano da Cidadela, Sandor Clegane entendendo a magia do Senhor da Luz e Daenerys chegando à Westeros, mais precisamente à sua antiga morada abandonada: Pedra do Dragão.

O que claramente há nessas peças que sempre se movimentam é o jogo de exibir todas as dificuldades de terras arrasadas. Tirando Daenerys, não há vantagens para Jon ou Cersei. Enquanto o Rei do Norte se preocupa com ameaças perigosas de duas frontes: Norte e Sul, Cersei precisa se preocupar com absolutamente toda Westeros após ter explodido boa parte dos Tyrell em Winds of Winter, excelente último episódio da temporada anterior.

Felizmente, Jeremy Podeswa, veterano diretor do seriado, confere muita elegância cinematográfica que vinha faltando claramente à Game of Thrones desde a quinta temporada na qual assumiu encenação cada vez mais engessada com decupagem televisiva. Aqui, Podeswa sabe aproveitar os momentos valorosos de produção com a câmera virtual tornando cada ato, como a chegada dos Greyjoy à Porto Real, um verdadeiro momento poderoso, algo que poderia ter sido banal na mão de outros diretores.

Na narrativa, certamente três núcleos narrativos se destacaram bastante. Já tinha citado sobre o conflito de ideologias e moral que Jon e Sansa estão sofrendo. Com a manipulação certa de Mindinho sobre Sansa, poderemos ver as coisas se desestabilizarem com força na família Stark novamente, em outra cisão prejudicial. Isso é, se o personagem já não bater as botas no próximo episódio. Nessa altura de GoT, nada é impossível.

O segundo momento marca também o melhor da direção de Podeswa: as tarefas mundanas de Samwell na Cidadela. Nunca na história do seriado houve uma experimentação com a montagem. Pegando o melhor do ritmo de Darren Aronofsky em Réquiem para um Sonho, Podeswa quase cria uma musicalidade através dos efeitos sonoros da jornada diária de Sam: limpar fezes aguadas, cozinhar sopa, guardar livros, limpar pratos e comadres. O exercício destaca bastante, transmite com clareza a trivialidade daquelas atividades enquanto uma ameaça gigante se aproxima e exibe a motivação para Sam quebrar as regras para acessar a seção restrita da biblioteca.

Novas informações são postas na mesa. Informações que claramente jogam Jon em rota de colisão a Daenerys. Algo que será muito interessante de ver nessa temporada. Mas em termos de escrita e diálogo, nada supera a excepcionalidade do texto para a núcleo mostrando Sandor Clegane em sua jornada com os feiticeiros do Senhor da Luz.

Em um jogo bastante irônico, através de sutileza de texto e poderio imagético, o espectador rapidamente saca a infelicidade de Clegane partir com adoradores do seu pior inimigo: o fogo. Pior ainda quando ele finalmente reconhece a existência do Senhor da Luz com a profecia vista através das chamas da cabana – uma dica interessante que muda os rumos da história, afinal os Walkers vão invadir Westeros através de uma montanha? Esperar para ver.

Por conta dessa passagem, vemos cada vez mais e mais humanidade no personagem chegando a enterrar os dois moradores anteriores daquela morada. O interessante é que se trata de uma menina morta e de um homem adulto. Agora, um paralelo visual para a relação do Cão com Arya, mas nada que seja devidamente explorado. Na verdade, pontua o luto da responsabilidade de Clegane ter roubado aquela família em episódios anteriores. Se não tivesse causado o mal para aquelas pessoas, provavelmente o destino delas seria diferente. O Cão sente a responsabilidade e se culpa, pois o seu passado sombrio nunca estará mais distante que a própria sombra do guerreiro. Ótima demonstração da mudança de personalidade que o personagem teve ao longo de toda a narrativa. 

Podeswa pode se alegrar também em conseguir criar imagens poderosas de simbologia. Vemos Cersei pisando em um mapa enorme de Westeros, colocando todo o território a seus pés, em claro desejo que não corresponde a sua realidade como Jaime bem diz: ‘Você é rainha de no máximo três reinos.’.

Depois, a partir da boa encenação, sem ousar muito, vemos Daenerys pegar na terra de Westeros depois de anos. De volta ao lar, sem festejos. A caminhada é longa e dura, sem festejos, sem luz, sem calor. É um lugar maldito que retomará sua glória anterior.

Sim, Daenerys. Que os jogos comecem.

Game of Thrones – 07×01: Dragonstone (Idem, EUA – 2017)

Criado por: D.B. Weiss e David Benioff, baseado na obra de George R.R. Martin
Direção: Jeremy Podeswa
Roteiro: D.B. Weiss e David Benioff
Elenco: Peter Dinklage, Emilia Clarke, Lena Headey, Nikolaj Coster-Waldau, Sophie Turner, Maisie Williams, Kit Harington, Aidan Gillen, Gwendoline Christie, John Bradley, Jim Broadent, Liam Cunningham, Isaac Hempstead Wright, Nathalie Emmanuel, Conleth Hills, Rory McCann, Pilou Asbæk
Emissora: HBO
Gênero: Aventura, Drama
Duração: 60 min

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