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Poucos são os filmes que podem se vangloriar desse título tão chamativo e ambicioso que o clássico de Ishirô Honda mostrava aqui conquistar e merecer. E que viria à inspirar gerações de filmes em uma incessante busca de conquistar o seu mesmo brilhantismo. E no que diz respeito à um filme sobre o icônico Godzilla, ainda continua insuperável até hoje!

Mas se em um mundo onde quase todas das inúmeras continuações, spin-offs, e remakes que o filme teve, ou até alguns dos filmes que fortemente inspiraram o clássico de Ishirô Honda, desde o próprio King Kong de 1933 ou seus contemporâneos O Monstro do Mar de Eugène Lourié ou O Mundo em Perigo de Gordon Douglas, são hoje (alguns questionavelmente) vistos como datados, o que faz essa pioneira versão de Godzilla ser um clássico tão único e admirável até hoje?!

Depois de um inesperado evento que explode e afunda vários navios civis na costa do Japão, o país entra em estado de pânico. No início, as autoridades pensam que é uma das minas submarinas ou uma atividade vulcânica submarina. Mas na Ilha Odo, perto de onde vários dos navios foram afundados, algo vem em terra e destrói várias casas e mata várias pessoas. Uma expedição é enviada à ilha liderada pelo paleontólogo Professor Kyôhei Yamane (Takashi Shimura), sua filha Emiko (Momoko Kôchi) e o mergulhador Hideto Ogata (Akira Takarada) logo descobrem algo mais devastador do que se imaginava, na forma de um monstro de 50 metros de altura que os nativos chamam de Gojira. Agora, o monstro começa uma fúria que ameaça destruir não apenas o Japão, mas o resto do mundo.

Criando um ícone monstruoso

Não é talvez segredo nenhum que o hoje clássico teve seu início partindo de várias inspirações para fazer o mercado cinematográfico japonês adentrar no rentável cinema de monstros que começava a gerar uma moda clássica de filmes B de diversos tipos e espécies nos anos 50. O que se tornaria o Godzilla produzido por Tomoyuki Tanaka, que provinha tanto de uma óbvia inspiração do clássico King Kong de 1933, e que faria os Japoneses criarem um dos mais clássicos monstros da cultura popular.

Inspirações claro que vão além do puro fator monstro gigante destruindo miniaturas de cidades, vide que o seu próprio nome é uma mistura de Gorila e Baleia em japonês. Não à toa o Godzilla é confundido no início do filme como uma criatura marítima antes de dar as caras, mas comparações acabam aí. Pois também provém do fator de ser uma criatura gerada pelas energias nucleares nascidas dos intensos testes gerados na época, assim como fora o caso do lagarto gigante de O Monstro do Mar e os insetos gigantes de O Mundo em Perigo.

Contudo, ao contrário desses filmes que levavam sua trama para o território escapista e onde os militares eram os grandes heróis da pátria contra o perigo nuclear, o Godzilla de Ishirô Honda ia um passo além em tratar dessa trama e temas com uma pegada muito mais dramática e que se leva mesmo à sério. A prioridade em ação de monstros vs monstros e destruições maciças presentes até hoje, não eram o foco aqui.

Ao conceberem a história do filme, Honda e seu co-roteirista Takeo Murata eram tão cientes do medo e paranóia da bomba nuclear presentes no meio social Japonês que fizeram do seu monstro uma encarnação viva desse medo e das temíveis consequências ocasionadas pelo mesmo. Pois se o Godzilla que hoje é visto como o grande “protetor” do Japão e humanidade, era aqui retratado como uma temível força da natureza se vingando contra a humanidade que o despertara através da destruição e guerra entre humanos e que agora ele pagará na mesma moeda.

Até toda a destruição que se ocasiona no filme, vemos a palpabilidade desse horror presente na forma com que é criada. Quando temos o que viria ser o icônico tipo de cena com o monstro dizimando prédios como se fossem brinquedos e os desesperados civis são pequenas formiguinhas no cenário sendo esmagadas, não são cenas que passam o sentimento de entretenimento sádico, e sim são cenas geradas como o que são de verdade, verdadeiros desastres e que está gerando incontáveis vítimas.

Com Honda fazendo um trabalho fenomenal na montagem das cenas dos ataques, ao coincidir todas as cenas de destruição com os ótimos efeitos práticos em miniaturas sendo postos em todas as inimagináveis formas de caos, junto de cenas como a destruição de uma pequena vila logo no primeiro ato sendo tratada com uma ótica muito íntima e com efeitos de emoções muito mais trágicas ao vermos o filho caçula ver a casa com toda sua família dentro sendo esmagada e arrastada em segundos. Ou quando foca em uma mãe abraçada com os filhos em meio às ruínas de Tóquio, só aguardando pela inevitável morte.

Cenas e momentos que chocam muito mais do que simplesmente vermos civis sendo evaporados ou sendo lançados de carros em chamas, elementos que também estão presente, mas não são o grande ponto de atenção. Elementos que serviriam sim de forte inspiração para o que seria o Godzilla de Gareth Edwards, mas talvez sem o mesmo peso ou cuidado dramático cujo aqui recebe com um enredo muito bem escrito e construído junto de seu retrato alegórico das consequências da guerra.

A Realidade no Escapismo

Não é difícil perceber hoje o quanto o Godzilla de Honda faz parte da categoria de filmes que usam de seu palco de gênero, seja na fantasia (O Labirinto do Fauno – Guillermo Del Toro), no terror (O Despertar dos Mortos – George Romero) ou na ficção científica (Blade Runner – Ridley Scott) para retratar um pedaço da história, ou o aqui e agora da humanidade através da trama de ficção escapista em que se apresenta. E poucos são hoje os filmes que realmente conseguem fazer isso de forma com que realmente atinja o público sem que um texto crítico enaltecedor venha ter que explicar as “mensagens subliminares” dentro de um filme ou nesse caso que seria hoje um blockbuster de monstros gigantes. Mas também que não seja um que entrega isso de forma tão óbvia e mastigada.

Vide por exemplo um filme como O Hospedeiro de Joon-ho Bong, que talvez seja o melhor herdeiro do Godzilla de Honda no que diz respeito à sua forma de abordagem da temática do desastre sendo visto por uma escala íntima e trágica dos personagens humanos frente ao evento letal em que estão presenciando e sofrendo por ele. Mesmo que a cena final do filme martele um pouco isso como uma lição de moral, todo o filme até ali já demonstrava essa forte alegoria em seu visual e estrutura muito bem dirigidas.

A belíssima fotografia de Masao Tamai auxilia muito na construção do tom de melodrama que a história carrega ao realçar muito das consequências, tanto físicas como psicológicas que o caos e destruição que estão sendo causados pela criatura. Com algumas longas passagens devotadas em mostrar toda a destruição  vítimas de forma trágica e pesarosa, quase fazendo parecer cenas tiradas de um documentário pós guerra e das brutas consequências de Hiroshima e Nagasaki.

Além do que é um admirável trabalho técnico por parte da direção ao conseguir fazer tanto as cenas enclausuradas do arco dos humanos visualmente interessantes como o belo enquadramento no escritório do Professor Kyôhei (de um ótimo Takashi Shimura, o eterno confrade de Akira Kurosawa) com a escuridão e o clima vazio indicando a pressão moral com que está lidando, ao ser a única pessoa do filme que pensa no fruto científico que pesquisar a espécie do Godzilla poderia trazer enquanto outros só pensam em sua imediata destruição.

E que falham miseravelmente nisso quando o monstro dizima por completo qualquer ataque militar à ele como uma força da natureza imparável. Com o belo visual de Tamai convencendo na escala e palpabilidade do cenário em miniatura como se fossem reais. E a ação do Godzilla capturada pela tecnologia do “suitmation” (um figurante fantasiado do monstro destruindo as miniaturas) são trabalhos impecáveis mesmo dentro das limitações de sua época e conseguem passar o terror da criatura.

Mas que não é uma demonização completa da criatura se enxergar pela perspectiva de que quando o Professor Kyôhei realça as origens pré-históricas da criatura no filme e diz que os “testes” nucleares tanto acordaram Godzilla como também podem ter o modificado, daí sua deformidade e poderes de raios nucleares. O que torna o embate final do filme tanto um sacrifício dos personagens humanos como um trágico fim para a espécie da criatura onde apenas o professor que parece nutrir simpatia e ao mesmo tempo enxergar suas consequências.

Você pediu por complexidade moral em um filme de monstros gigantes? Aí está! Até a excelente e clássica trilha de Akira Ifukube tanto pode ser vista como uma exaltação do perigo do monstro na forma de construção de espetáculo grandioso, como também um som de inevitável tragédia que acompanha à todos no filme.

Tragédia essa que acompanha e também deu fruto ao ótimo e extremamente alegórico personagem atormentado do Dr. Serizawa (Akihiko Hirata) e a criação de sua letal invenção que mata todo o oxigênio de seres marítimos, no qual ele teme ser usado como arma são óbvias representações de Robert Oppenheimer, o criador da bomba nuclear e o tormento moral e psicológico que sofreu pela sua letal criação.

O filme tem esses tipos de exemplos de sobra que servem como prova de como é sim possível construir personagens envolventes mesmo que dentro de um filme sobre monstros gigantes, já que os personagens são o próprio reflexo dos ataques e destruições da criatura. Até o triângulo amoroso presente entre os personagens de Hideo, Emiko e Serizawa não dilata ou soa forçado dentro da narrativa graças aos sentimentos e drama genuínos com que esses arcos são trabalhados e bem atuados pelos atores.

Provas de uma competentíssima direção de Ishirô Honda tratou sua obra com seriedade e dedicação o suficiente para tornar Godzilla o clássico que é e seu monstro tão icônico, pois ele tinha uma razão e significado dramático para isso. E mesmo que ele tenha se tornado mais tarde a figura chamativa de sequências atrás de sequências de filmes onde a prioridade seria o puro entretenimento de assistir monstros vs monstros, vários cujo Honda seria o diretor e possuem suas qualidades distintas. Mas nunca alcançarão o que fora tão bem realizado aqui e que até hoje inspira à tantos outros que tentam recriar seu brilho

Godzilla (Gojira – Japão, 1954)
Direção: Ishirô Honda
Roteiro: Ishirô Honda, Shigeru Kayama, Takeo Murata
Elenco: Akira Takarada, Momoko Kôchi, Akihiko Hirata, Takashi Shimura, Fuyuki Murakami, Sachio Sakai, Toranosuke Ogawa, Ren Yamamoto, Hiroshi Hayashi
Duração: 96 min.

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