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Jim Starlin, através de Desafio Infinito, mudou as regras do jogo. O autor criou a saga cósmica da Marvel, que, invariavelmente, serviria como base para todas as que vieram desde então, conquistando rapidamente os leitores de quadrinhos com essa grandiosidade. Era apenas natural, portanto, que a obra acabaria gerando uma continuação – afinal, já bem longe da Era de Ouro dos quadrinhos, a oportunidade de lucrar em cima desse conceito não seria desperdiçada pela Marvel. Eis que surge Guerra Infinita, a segunda parte da Saga do Infinito, ou Saga de Thanos, de Starlin, que, apesar de ser uma continuação (quase) direta, pode ser lida de maneira isolada.

O que normalmente seria um grande acerto, essa escolha de criar uma história fechada em si própria, no entanto, atua como um dos principais percalços da saga – e não são poucos os defeitos que testemunhamos nessa empreitada megalomaníaca da Marvel. Digo isso, pois, na tentativa de atrair os novos leitores, Starlin acaba criando uma narrativa inchada, verborrágica, que se traduz na mais pura ‘chatice’, visto que somos forçados a ler explicações e mais explicações que, de fato, nada afetam a história como um todo. Mas antes de chegar nesse aspecto singular, vamos contemplar a premissa da obra, o que já deixará bem claro o quanto essa saga foi feita nas coxas.

Após os eventos de Desafio Infinito, Adam Warlock acaba em posse das Joias do Infinito, adquirindo praticamente o status de deus. Ele, no entanto, é forçado a dividir esse poder, criando a Guarda do Infinito, dando cada uma das Joias para um dos membros dessa equipe, impedindo, assim, que um ser apenas detenha tamanho poder. Certo tempo se passa após isso e Thanos, ainda em seu exílio, sente uma estranha energia, uma perturbação no Universo e decide investigar. Prontamente ele descobre que Magus, a versão malvada de Adam, retornou e que ele conta com um plano secreto, para conseguir algo secreto, que, no fim, se resume a adquirir a Manopla do Infinito com as Joias no velho conflito bem versus mal.

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Para um resultado final tão simplório, que abandona qualquer tipo de questionamento que esteve presente em Desafio Infinito, Starlin acaba abordando Magus de maneira extremamente unidimensional, jamais fazendo dele um vilão que conseguimos entender ou nos relacionar – claro que Thanos é um louco genocida, mas sua intenção de agradar a Morte é algo que garante a motivação por trás de seus atos. Magus, por sua vez, é mal simplesmente por ser e permanece em um eterno ‘vejam como meu plano é infalível’ ou ‘como eu sou poderoso’, repetindo as mesmas frases, com pequenas variações, sucessivamente e exaustivamente.

Não bastasse isso, o roteirista ainda tenta nos enganar, querendo inserir algum tipo de profundidade no texto através de explicações pseudocientíficas, algumas das quais não fazem o menor sentido e outras que acabam nos fazendo não entender absolutamente nada. Logo na primeira edição (das seis que formam a saga) já temos uma boa dose disso, fazendo da leitura algo verdadeiramente intragável – persistimos apenas na esperança de ver algum tipo de melhora nos números subsequentes, o que, infelizmente, não acontece: Guerra Infinita permanece na mediocridade do início ao fim.

Mas não somente por essas razões levantadas aí em cima. Starlin faz questão de complicar o cenário ainda mais através da inserção desnecessária do maior número de heróis possível, isso sem falar em antagonistas secundários que, em última instância, não mudam nada na história como um todo. Refiro-me, aqui, a quase todos os heróis ‘não cósmicos’, que claramente só estão presentes na trama para o velho fan service, gerando, assim, lutas internas e outros embates que acabam por dilatar a narrativa mais e mais, chegando às forçadas seis edições de uma história que, nitidamente, poderia ser concluída com bem menos páginas. Afinal, em uma trama que inclui, desde o início, figuras como Adam Warlock, Galactus, Thanos, dentre outros, que possível utilidade terá alguém com poderes mais ‘mundanos’, ou até sem poderes? Caímos naquela velha máxima do menos é mais, que, infelizmente, a grande maioria dos roteiristas – e não só nos quadrinhos – acabam se esquecendo.

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Obviamente que, com tantas peças no tabuleiro, seria criada uma narrativa fragmentada e, por incrível que pareça, Starlin consegue fazer uma boa intercalação entre esses diversos focos. O maior problema, de fato, está na irrelevância de alguns deles, algo que conseguimos perceber antes mesmo de chegar às páginas finais da obra. Como aqueles livros com capítulos destinados a personagens distintos, portanto, acabamos nos entediando no meio, querendo pular páginas e mais páginas para chegar o no que interessa. A parte triste é que, no fim, nada acaba interessando, já que a progressão narrativa, como já dito antes, segue pela obviedade, jamais trazendo qualquer tipo de surpresa. Ironicamente, os trechos mais atraentes são aqueles com Thanos, mesmo que, muitas vezes, eles se resumam à competição de ver quem é mais poderoso, inteligente, ou algo assim.

O que salva no meio de toda essa confusão textual e falta do tão necessário foco (sem falar na criatividade) é a arte de Ron Lim, que sabe muito bem trabalhar com painéis complexos, repletos de elementos, sem jamais perder o espectador. Claro que, em dados momentos, somos tomados por um forte senso de ridículo, como é o caso de ver o Homem-Aranha e o Gavião-Arqueiro, de uniforme, ambos, em cama de hospital, mas isso é um problema, novamente, do roteiro, que se permitiu a criação de uma situação simplesmente risível como essa. Assim sendo, Lim se sai bem nas splash pages e, em geral, respeita o traço de cada personagem, ainda que ele não se saia tão bem em quadros menores, como se tivesse se cansado e jogado a atenção por detalhes fora, especialmente no que diz respeito às expressões faciais. Em todo caso, não há como apreciar muito a arte dessa HQ em razão de sua verborragia, que preenche cada página ao extremo, nos privando de qualquer chance de experimentarmos uma leitura fluida.

Triste constatação, portanto, enxergar o quanto Jim Starlin errou a mão nessa continuação de Desafio Infinito. O que poderia superar a saga original, acaba se tornando uma história simplista, que tenta ser complexa, mas que, no fim, acaba sendo apenas confusa e mal escrita. Guerra Infinita é uma prova de que a megalomania pode gerar péssimos frutos, trazendo uma história inchada com muitos personagens simplesmente dispensáveis para o andamento da narrativa. Resumindo-se ao velho conflito do bem contra o mal, essa saga é cansativa ao extremo, jogando para o alto qualquer tipo de profundidade da anterior a favor do espetáculo vazio. Uma verdadeira chatice sem fim.

Guerra Infinita (The Infinity War – EUA, 1992)

Roteiro: Jim Starlin
Arte: Ron Lim
Arte-final: Al Milgrom
Cores: Ian Loughlin, Max Scheele
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Editora (no Brasil): Editora Abril
Lançamento (nos EUA): junho a novembro de 1992 (seis edições)
Lançamento (no Brasil): janeiro a fevereiro de 1996 (três edições)
Páginas: 246

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