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Desde Frankenweenie, Tim Burton está afastado das produções hollywoodianas de grande relevância. E não foi à toa. O diretor carismático que conquistou grande nicho de espectadores por conta de seu estilo gótico de mistura inusitada entre horror e comédia estava em uma fase cinematográfica medíocre. Tendo brilhado nos anos 1990, Burton não envelheceu bem na indústria entrando em uma má fase que persistiu em seus últimos longas como Sombras na Noite e Alice no País das Maravilhas.

Com O Lar das Crianças Peculiares, Burton tinha uma excelente chance para voltar à boa forma, estabelecendo um universo rico e de poderio visual digno dos seus anos de ouro. Infelizmente, não é o que acontece, mesmo se tratando de um bom filme.

Acompanhamos Jake, um menino comum de desejos simples. Dentre das poucas alegrias da sua vida, é cuidar de seu avô que lhe contava histórias fantásticas sobre o orfanato da sra. Peregrine para crianças peculiares. Infestado pela fantasia transmitida por seu avô e tentando descobrir as causas suspeitas de sua morte, Jake consegue partir com seu apático pai para o País de Gales a fim de encontrar o orfanato mágico repleto de pessoas extraordinárias.

Com pouco esforço, encontra rapidamente a antiga mansão. Porém, não descobre apenas as crianças das quais seu avô tanto falava, mas sim um universo totalmente novo e escondido do mundo real. O que não espera é que essa nova descoberta não apresenta apenas magia e amizades novas, mas sim perigos que nunca enfrentara antes.

O roteiro de Jane Goldman adapta o livro homônimo de Ransom Riggs, responsável pela pequena febre oriunda de sua trilogia de aventuras. Assim como em muitas aventuras de grupo, a história apresentada não foge das regras pré-estabelecidas desse tipo de narrativa. Logo, ela partilha de todas as fraquezas inerentes à escrita. É curioso notar que Goldman e Burton utilizam muitos minutos para estabelecer bem seu personagem protagonista e sua relação especial com o avô, assim, justificando satisfatoriamente qualquer motivação de Jake partir para as ilhas nubladas do Reino Unido.

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Se valendo de alguns clichês típicos para definir Jake como um loser oprimido pelas relações sociais com seus pais desinteressados e amigos, é fácil nos compadecermos pela sua jornada de busca a fim de conseguir superar a morte traumática de seu avô – infelizmente, por conta de muitas elipses temporais, o luto do garoto não fica muito bem definido (única parte que Asa Butterfield deve na atuação).

É triste notar que todo o deslumbramento narrativo fica mesmo no primeiro ato do longa, muito eficiente em explicar a mitologia criada por Riggs, das regras daquele universo e apresentar todos os muitos personagens coadjuvantes que vivem no orfanato – acredite, é uma mitologia muito rica que fica bem estabelecida contando até mesmo com as motivações e passado do antagonista da trama. Jake, servindo como um pseudo “escolhido” nessa narrativa, não cria laços profundos com a grande maioria dos outros personagens e, portanto, graças a pouca interação, as crianças se tornam personagens bidimensionais, pálidos e sem desejos próprios.

Entretanto, Goldman, no primeiro contato de Jake com o orfanato, oferece diversos relances de relações mais interessantes que poderiam ocorrer ao longo do filme. Por exemplo: um triangulo amoroso entre Jake, Emma e Olive, lidando com os ciúmes melhor aprofundado do péssimo e emburrado Enoch (atuação patética de Finlay MacMillan); ou uma relação mais complexa com srta. Peregrine em sua busca incansável em descobrir tudo o que seu avô tinha vivido quando morou no orfanato; ou até mesmo uma melhor interação paterna.

Sim, são clichês, mas que certamente ajudariam a elevar e enriquecer diversos personagens não recebem o menor tratamento. Apenas são apresentados demonstrando suas habilidades que serão úteis durante o clímax problemático. Enfim, possibilidade é o que não falta aqui.

Até mesmo a relação que pauta quase toda a jornada de Jake consegue ser rasa: seu relacionamento com Emma, a menina mais leve que o ar. Assim como em outros núcleos, a roteirista novamente pincela um drama interessante que casa com o clima sóbrio da obra: Emma já fora apaixonada pelo avô de Jake, mas obviamente não ficaram juntos. Então o desafio para o desabrochar dessa paixão renderia momentos mais inteligentes.

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Nem mesmo a questão da imortalidade e da rotina cronometrada recebe tratamento adequado com peso dramático mais certeiro – as crianças vivem o mesmo dia, em 1943, todos os dias graças às habilidades de Srta. Peregrine, se mantendo reclusas do mundo real e do tempo presente em 2016. Como boa parte dos coadjuvantes carece de personalidade, era possível administrar pequenos dramas para cada um. Resumindo, O Lar das Crianças Peculiares é uma narrativa de grupo muito similar à Esquadrão Suicida, embora seja bem mais interessante.

A atmosfera que Burton e Goldman inserem até o terceiro ato é sóbria, mantendo diálogos de qualidade, embora os personagens não cresçam e sejam redundantes – inclusive criam alguns mistérios. Entretanto, assim que o antagonista, Barron (interpretado por um muito divertido Samuel L. Jackson), surge, a narrativa parece deixar de se levar a sério. O vilão já tem natureza caricata, perde totalmente o ar ameaçador, reforçado pelas diversas piadas proferidas. É evidente que é um personagem legal e que traz boas reviravoltas, mas sua inserção destoa do restante da obra.

O filme não possui apenas estes problemas e fraquezas, mas também tem momentos diversos nos quais quebra as próprias regras estabelecidas naquele universo – desleixo do roteiro e da direção. As mais gritantes são o uso das fendas no fim do filme e na lógica absurda dos poderes de levitação de Emma e suas botas de chumbo – a menina chega ao cúmulo de nadar com elas. É preciso muita suspensão de descrença. Na verdade, é preciso que você não participe de modo algum da narrativa, já que este é o longa mais previsível de 2016. Tome nota disto, é possível sacar tudo o que acontecerá com pouquíssimo esforço de dedução e lógica.

Na direção, temos um Tim Burton bastante cansado. Não digo que o diretor não estava envolvido com o filme, pois nitidamente não é o caso, mas digamos que ele esteja mais comportado e menos afetado – até suas sequências-homenagem ao expressionismo alemão estão mais discretas. Sua câmera está mais clássica do que nunca, se movimentando com bastante sutileza e elegância.

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Burton sempre soube valorizar o trabalho criativo dos seus departamentos de arte e de fotografia e aqui não é diferente, embora seja um filme menos expansivo ou espalhafatoso nesse sentido. Por trabalhar com uma temática menos fantasiosa nos cenários, Burton utiliza enquadramentos que buscam mais a figura do ator do que o restante dos elementos de cena.

A partir do momento que passamos a conhecer mais sobre o vilão Barron, Burton cria coisas mais autorais e, consequentemente, os enquadramentos param de ser tão automáticos e se tornam mais interessantes visualmente. A encenação também condiz com o humor negro característico do diretor largando as formalidades do primeiro e segundo ato.

Porém, esses breves momentos nos quais vemos Burton voltar aos seus maneirismos – há um momento nostálgico onde o diretor brinca com stop motion – dão origem à maior nêmese deste longa: o seu clímax. O desfecho não beira o péssimo por muito pouco, mas o diretor tenta fazer de tudo para desgostarmos do ápice da obra. As cenas de ação são muito mal trabalhadas, as lutas e suas reviravoltas são telegrafadas em excesso e as piadas recorrentes removem o senso de perigo. Para piorar, há o encaixe da música mais anticlimática possível para acompanhar o primeiro segmento do clímax: uma música trance deslocada – apesar de ter justificativa diegética.

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Também é interessante apontar como Burton não consegue escapar de seus vícios de carreira. Aqui, nitidamente Eva Green (boa performance) substitui a ex-mulher do diretor, Helena Bonham-Carter. O casting inteiro tem as peculiaridades que ele busca: a menina de olhos muito amendoados e doces (substituindo Mia Wasikowska), o garoto esquálido quase anêmico, uma garota magérrima de olhares obtusos. Fora isso, a trilha musical de Higham e Margeson tenta emular as melodias de Danny Elfman, mas acabam completamente sem sucesso preenchendo o filme com músicas pálidas. 

Talvez seja uma tristeza ainda maior ver que o diretor desperdiça diversas oportunidades de tornar boas sequências em algo realmente memorável. Isso vale para quando srta. Peregrine reinicia o dia dentro de sua fenda, na emersão de um antigo navio naufragado ou durante uma festa com esqueletos. Eventos como esses, filmados de modo único, teriam deixado esse longa com a apresentação “peculiar” que tanto precisava.

Para um filme que tenta ser tão peculiar e único em suas maneiras, O Lar das Crianças Peculiares só consegue ser uma versão pseudo gótica dos X-Men presos em uma narrativa previsível de Feitiço do Tempo. Mesmo com tudo o que descrevi no texto, de seus diversos problemas e qualidades, verdade seja dita, o filme é bastante divertido e te despertará vasto interesse nessa mitologia inusitada de Ransom Riggs e suas crianças peculiares. Para um divertimento fugaz e sem grandes pretensões, com absoluta certeza este é um filme que merece ser assistido.

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