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Investida um tanto inusitada do cineasta David O. Russell, O Lado Bom da Vida tem muito clichês em suas duas horas de duração e já podemos adivinhar seu desfecho por simplesmente olhar um pôster ou trailer do filme. Mas quando é feito de forma tão original e orquestrada com maestria por uma direção acertada, roteiro inteligente e um elenco espetacular, como não resistir?

Adaptada do livro homônimo de Matthew Quick, a trama gira em torno de Pat (Bradley Cooper), que é internado em uma instituição psiquiátrica após agredir gravemente o homem com quem sua esposa Nikki o estava traindo. Quando consegue a liberdade, volta para a casa dos pais e começa um plano para reconquistar Nikki, só que no percurso ele conhece a excêntrica Tiffany (Jennifer Lawrence), com quem se compromete a ajudar para um concurso de dança em troca de uma chance de reencontrar sua esposa.

Depois de ter sido indicado ao Oscar por O Vencedor em 2011, David O. Russell enfim me satisfaz completamente e comprova seu talento por trás das câmeras. E de um drama de boxe até uma “dramédia romântica”, é de se admirar a brusca mudança e me impressionei com a segura direção de O. Russell, que passeia com a câmera na mão pelo elenco, utiliza de zooms nos momentos certos (como a ótima cena em que o protagonista descobre algo fundamental sobre uma carta, por exemplo) e até de uma dinâmica cena em primeira pessoa em um flashback, que – sendo colocada em determinado momento da narrativa – ao aplicar tal recurso, torna-se ainda mais surpreendente.

Tal dinâmica vai se mantendo durante a projeção e a montagem habilidosa de Jay Cassidy e Crispin Struthers garante um ritmo formidável ao filme, fornecendo economia às cenas de passagem no tempo (como as rápidas leituras de Pat, que abre certo livro e cortes depois já o vemos fechando e atirando-o de uma janela) e velocidade nas cenas de dança, sem torná-las incompreensíveis ao exagerar na “picotagem” e manter sua fluidez.

Famoso por seu Phil em Se Beber, Não Case! Bradley Cooper rapidamente foi ascendendo em sua carreira como ator, e agora surpreende com sua incrível carga dramática, ainda que preserve – com inteligência – grande porção de seu carisma cômico. Encarnando um sujeito diagnosticado com bipolaridade, é notável ver a naturalidade do ator em mudar repentinamente de humor, seja para garantir um efeito divertido, como quando sua raiva subitamente transforma-se em alegria ao ter sua forma física elogiada por outro personagem, ou para chocar, onde a simples busca de um vídeo pelo personagem resulta neste agredindo os pais (o ótimo Robert De Niro e a simpática Jacki Weaver).

Mas quem de fato rouba a cena é a irresistível Jennifer Lawrence, favorita ao Oscar de Melhor Atriz deste ano. Em uma performance cheia de nuances (suas expressões de raiva, e uma risada irônica em certo momento, são soberbas), Lawrence acerta ao exibir a notoriedade de Tiffany e também sua força – algo que já havia feito muitíssimo bem em Jogos Vorazes – o que torna a personagem praticamente invulnerável emocionante. E quando o roteiro vai se aprofundando em sua alma, percebemos sua humanidade (e sentimentos ocultos) a atriz assume essas características com a mesma dedicação, em um trabalho memorável.

Com uma admirável química entre os dois protagonistas e um ritmo eficiente que fazem as 2 horas de filme parecerem minutos, O Lado Bom da Vida só peca ao recorrer a clichês típicos do gênero em sua conclusão, incluindo até mesmo elementos supersticiosos para justificar as inúmeras coincidências. Mas como o próprio Pat diz ao reclamar de Adeus às Armas de Hemingway: “a vida já é dura como é, seria pedir demais por um final feliz?”

No caso deste belo filme, é aceitável.

O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, EUA – 2012)

Direção: David O. Russell
Roteiro: David O. Russell, baseado na obra de Matthew Quick
Elenco: Jennifer Lawrence, Bradley Cooper, Robert De Niro, Jacki Weaver, Chris Tucker, Julia Stiles
Gênero: Comédia, Romance
Duração: 122 min

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