É interessante ver o desenvolvimento do humor ao longo das décadas no cinema. No início dos anos 20, Chaplin, Os Três Patetas (estes foram para os filmes nos anos 30) e o Gordo e o Magro faziam sucesso com sua ousada comédia pastelão. Conseguiram alegrar o povo contido, muitas vezes preconceituoso e escravo de seus princípios. Entretanto, com o passar do tempo a comédia foi se adaptando, chegando hoje em dois tipos distintos –  a comédia romântica e a comédia besteirol. Alguns diretores realmente se consagraram em fazer besteiróis como Todd Phillips, Steve Pink, Adam McKay, Judd Apatow, Jay Roach e os desaparecidos irmãos Farrely que retornam agora em uma comédia tão divertida quanto sua melhor obra, “Quem Vai Ficar Com Mary?”.

Rick e Fred são dois amigos que estão com uma crise sexual em seus casamentos. Um por causa dos filhos que roubam o tempo de sua mulher e o outro por causa do mau humor de sua esposa. Além não terem mais o sexo como pilar da relação, ambos tem que atender as vontades desatraentes de suas mulheres. Após algumas discussões, eles conseguem um “passe livre” – uma semana de folga do casamento para fazer o que quiserem. Todavia, eles não esperam que “voltar para o jogo” fosse um pouco mais difícil do que pensavam.

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O surpreendente “inusitado”

O roteiro de Bobby e Peter Farrely, Pete Jones e Kevin Barnett é extremamente criativo conseguindo criar piadas inéditas e francamente, inimagináveis. Ele é perito em deixar os protagonistas em situações constrangedores e conseguir transmitir ao público a sensação da famosa “vergonha alheia”. Ele assume descaradamente o estilo besteirol da comédia e consegue não deixar o espectador sério por mais de dois minutos. E claro, não esquece as piadas “cretinas”, sendo que algumas são exageradas para alguns espectadores.

Apesar de ser bem interessante e divertida, a história não impressiona em seu desfecho caindo no clichê previsível. Entretanto, os meios que o roteiro toma para chegar a sua conclusão são absolutamente imprevisíveis para o divertimento do público. Infelizmente, a narrativa paralela das esposas de Rick e Fred, Maggie e Grace não chegam a empolgar o espectador dificilmente arrancando algumas risadas.

Ele retrata bem o cotidiano da vida dos casados em uma rotina inalterável e evidencia algumas verdades sobre o casamento, além de inserir o cômico devaneio paranoico de Rick – uma das melhores piadas do filme. De vez em quando, consegue até ser profundo quando apresenta a diferença de maturidade dos casais principais do filme denotando a importância do fato de ser pai acaba influenciando muito nas decisões do protagonista.

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Dupla implacável

Owen Wilson e Jason Sudeikis são os maiores destaques do filme. A química desenvolvida entre eles é muito boa conseguindo divertir o público a todo instante com suas atuações imprevisíveis – principalmente, pela parte de Sudeikis.

Owen cumpre seu papel sem exageros, ou seja, não apela para a palhaçada sendo que, muitas vezes, sua atuação demonstra uma seriedade nunca vista antes revelando um lado um tanto desconhecido do ator, tornando-se bem descontraída diversas vezes. Já Sudeikis é o completo oposto de Owen, atuando da forma mais caricata possível cheia de caretas muitas vezes acompanhadas de gestos para enfatiza-las. Outro ator que revela um grande talento para a comédia é o inglês Stephen Merchant quase sempre roubando a cena. Richard Jenkins também tem uma breve participação especial muito carismática encarnando o personagem mais interessante do filme contando com uma caracterização marcante. Derek Walters também diverte o público com seu personagem neurótico e bipolar.

Já o elenco feminino não acompanha a sintonia e qualidade do masculino. Dominado por Cristina Applegate e Jenna Fisher, dificilmente conseguem arrancar risadas do público nas cenas que contracenam. Isso se dá muitas vezes graças a antipatia e falta de inspiração em suas atuações.

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Efeito comédia

A fotografia de Matthew A. Lionetti é bem ordinária neste filme, não passa nem perto daquela envolvente apresentada em “Efeito Borboleta”. Segue o padrão da fotografia apresentada nos filmes de comédia, ousando apenas em seus belos planos aéreos. A única vez que sua fotografia realmente se transforma e fica criativa é na última cena do filme que é simplesmente fantástica contando até com uma iluminação um pouco mais elaborada. É bom citar que ele gosta de trabalhar com a iluminação natural dos interiores dos lugares visitados pelos personagens. O figurino também é um aspecto interessante de ressaltar, sempre vestindo seus atores com roupas típicas de americanos de meia idade, vide os trajes de Wilson durante o filme.

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Precisa-se de um compositor

Surpreendentemente este filme não conta com um compositor e isso resultou em uma total decadência musical no longa. A música original – se assim posso chama-la no caso – é completamente irrelevante e quando aparece dificilmente é notada. Como sempre a trilha licenciada salvou mais uma vez a música do filme contando com vários sucessos pop, rock e folk recentes e clássicos, entre eles “Walking On A Dream”, “Wouldn’t Be Nice”, “Art isn’t Real”, “The Best of Times” e “Monkberry Moon Delight” sendo que algumas conseguem até ser cômicas graças às cenas onde são inseridas.

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Um bom retorno

Os Irmãos Farrely – Bobby e Peter – estavam um tempo longe dos filmes. Para dar uma noção, o último filme que ambos dirigiram foi o fraco “Antes só do que Mal Casado”. Felizmente, retornaram a todo vapor e com um senso de humor bem aguçado. Eles entregam um filme tão inspirado quanto “Quem Vai Ficar com Mary?”.

A direção deles foi bem criativa e tentaram de todas as maneiras extrair o ridículo de cada cena provando o bom humor de sua direção. Fora isso, a escolha da edição em como dividir a jornada dos protagonistas consegue ser uma piada por si só, sempre aparecendo em horas inesperadas. Uma coisa bem interessante da direção deles foi ter mascarado muito bem um filme que, na essência, é uma comédia romântica disfarçada. Muito dos méritos deles também estão contidos no roteiro como as cantadas ensaiadas de Fred.

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Precisando de um passe livre?

“Passe Livre” é um filme que diverte a todo instante com suas piadas únicas, mas algumas podem ultrapassar o limite do bom-senso e ofender alguns espectadores. É um filme que oferece um bom entretenimento para o público e começa a aquecer o terreno para o próximo besteirol “Se Beber, Não Case 2”. É uma pena que não consiga ser mais do que isso porque potencial e criatividade tinha de sobra.

Nota: ★★★½

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