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Um dos problemas recorrentes de filmes de espionagem é a confusão gerada no espectador, fruto não de tramas, verdadeiramente, complexas, mas de narrativas mal encadeadas, que transmitem altas doses de informação com a aparente intenção de complicar tais histórias, muito embora, na realidade, elas sejam simples. Rede de Mentiras, thriller de espionagem dirigido por Ridley Scott sofre desse problema, enquanto lida com um enredo bastante simples e linear. Como dito, a questão não é a trama em si e sim a maneira como ela é contada.

O longa nos apresenta Roger Ferris (Leonardo DiCaprio) um agente de campo da CIA, encarregado de descobrir a localização do líder terrorista al-Saleem. Para isso, ele conta com o suporte de seu maquiavélico superior, Ed Hoffman (Russell Crowe) e do diretor de inteligência da Jordânia, Hani Salaam (Mark Strong). Com o tempo, no entanto, descobrimos que a maior dificuldade de Ferris é conseguir conciliar as ordens de Hoffman com a aliança com Salaam, visto que ambos utilizam métodos muito diferentes, um sempre agindo pelas costas do outro, garantindo, dessa forma, o título da obra. Tudo enquanto, claro, a ameaça terrorista se mantém constante, sendo um risco não somente para os civis do ocidente, como para o próprio agente de campo.

A mencionada falsa complexidade do longa-metragem se torna evidente logo nos trechos iniciais. Após um prólogo no qual Hoffman discursa sobre a guerra ao terror, falando sobre os métodos utilizados pelos terroristas, em oposição aos da Inteligência Americana, somos jogados no meio de uma operação executada por Ferris. O texto não se preocupa em nos situar apropriadamente, o que não chega a ser um defeito por si só, mas que, com o progressivo aumento do fluxo de informações, acaba gerando a citada confusão no espectador. Chega a ser engraçado constatar que, após pararmos para pensar, se trata de algo bastante simples, evidenciando que a falha está na própria execução da obra.

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Um dos fatores primários para o estabelecimento desse fator é a presença de subtramas paralelas, algumas das quais funcionam claramente como dispositivos do roteiro, meramente presentes para a introdução de certos twists na história. Bom exemplo disso é o arco romântico de Ferris, que mais faz inchar a narrativa, do que efetivamente acrescenta algo. São interrupções pontuais, mas que prejudicam nossa imersão, nos tirando do que realmente importa – mais agravante, porém, é a a quebra de  verossimilhança proporcionada pela mera presença desse interesse romântico do protagonista, que, no meio de sua missão, vai para encontros, em pleno território hostil. Essa falta de realismo do texto, logo cedo, nos faz enxergar que a personagem pela qual Ferris se interessa, servirá para um propósito específico mais tarde no filme, gerando, pois, grande artificialidade na narrativa.

Outro aspecto que, também, prejudica nossa imersão é a estrutura episódica assumida pelo longa. Cada ato é consideravelmente distinto um do outro, a tal ponto que se torna possível assistir o filme em partes, já que, ao término de cada um, nossa atenção precisa ser recobrada pela trama. Muitas vezes ao longo da projeção sentimos como se estivéssemos diante de uma minissérie de televisão montada como um longa, o que não somente gera estranheza, como afeta diretamente a maneira como absorvemos as informações oferecidas pela trama. Essa fragmentação acaba fazendo com que a obra pareça ser mais longa do que efetivamente é, tornando mais difícil que retomemos algumas ideias e informações lançadas nos trechos iniciais da obra, o que, claro, contribui para o fator já falado antes aqui: a confusão do enredo.

Felizmente, Ridley Scott e o diretor de fotografia, Alexander Witt, acertam plenamente na maneira como constrói a linguagem do longa, contrastando, nitidamente, os tons de cor e a própria iluminação das sequências no Oriente Médio, mais amareladas, daquelas passadas em Washington, que assumem tonalidades mais azuladas – não através de filtros, mas pelos próprios cenários – já que, sempre que possível, foi utilizada a iluminação natural, com o mínimo de tratamento e correção de cor possível. Isso, claro, contribui não somente para o realismo da obra, como dialoga com o discurso inicial de Hoffman, sobre o uso da tecnologia da CIA e os métodos mais arcaicos dos terroristas. O contraste da metodologia, assim, é realçado pela imagem de forma orgânica, natural, mantendo tal ideia sempre presente em nossas mentes.

Não podemos descartar, também, a dedicação de Leonardo DiCaprio, Russell Crowe e de Mark Strong, que constroem três personagens essencialmente distintos um do outro. Crowe mergulha na frieza de Hoffman, no calculismo, que permeia cada uma de suas atitudes, que se faz presente em cada palavra por ele utilizada. Sentimos o seu poder simplesmente através de sua linguagem corporal, ao mesmo tempo que sentimos uma crescente aversão ao personagem, em razão de suas atitudes e, claro de sua arrogância, que não deixa de ser um reflexo da segurança nas próprias ações.

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Strong, por sua vez, pinta um retrato extremamente hipnotizante, fazendo com que fiquemos fascinados pelo seu personagem, não pelos métodos empregados por ele, mas pela simples maneira como fala e como age. Há uma grande fluidez em sua fala e no seu movimentar, como se jamais tivesse dúvidas do que faz, como se, sempre, estivesse um passo adiante de todos os outros. Quando há surpresa em seu olhar, portanto, somos pegos de surpresa e Strong nos faz enxergar como se sua mente estivesse já pensando em todos os desdobramentos possíveis.

Por fim, DiCaprio vive aquele que mais causa agonia no espectador, puramente por estar perdido no meio desses dois outros grandes jogadores, sempre tendo de dizer e fazer exatamente o que esperam. Sendo aquele que mais se coloca em risco, nossa aproximação com o protagonista é imediata e cada frustração sentida por ele é transferida para nós, espectadores. Por vezes, no entanto, sentimos como se ele soubesse mais do que nós, fruto da narrativa não tão bem construída.

Dito isso, fica fácil enxergar o quanto Rede de Mentiras é carregado pelos seus personagens centrais, que nos cativam desde os minutos iniciais, mas que não são capazes de nos fazer relevar os muitos deslizes desse filme de espionagem. Ridley Scott constrói um retrato imersivo desse jogo de espiões, mas que acaba tendo essa mesma imersão prejudicada pela sua confusa narrativa, que, no fim, não foge da mesmice de muitos outros longas de espionagem, apesar de, ainda assim, entreter.

Rede de Mentiras (Body of Lies – EUA/ Reino Unido, 2008)
Direção: Ridley Scott
Roteiro: William Monahan
Elenco: Leonardo DiCaprio, Russell Crowe, Mark Strong, Golshifteh Farahani, Oscar Isaac, Ali Suliman, Alon Aboutboul, Vince Colosimo, Simon McBurney
Duração: 128 min.

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