» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

Em 2002 o mundo dos cinemas abriu as portas para uma oportunidade diferente. Alguns filmes de quadrinhos começavam a sair, como X-Men e Homem-Aranha, e Hollywood procurava uma nova fonte de onde beber ideias. Eis que surgem os games. Uma fonte quase inesgotável de material base para construção de blockbusters e franquias, com base de fãs pronta para aquecer a bilheteria. Adaptar Resident Evil para o cinema era, portanto, irresistível. Não só para os estúdios, mas para os fãs também. Quem não gostaria de ver seus personagens favoritos sendo interpretados em live-action?

Olhando para a proposta inicial, é difícil não rilhar os dentes em desgosto com o resultado. Em 1999, Sony e Capcom chamaram ninguém mais ninguém menos que George A. Romero, o pai dos apocalipses zumbis com influência presente no gênero de terror até hoje. Romero seria responsável pelo roteiro e pela direção da adaptação. Para a alegria dos fãs, Romero pediu ao seu secretário que jogasse e gravasse o primeiro Resident Evil, para que ele pudesse usar como recurso na criação do script. Os personagens famosos e queridos da saga estavam todos presentes e o final seria similar ao melhor final possível do jogo (você pode conferi-lo aqui).

No entanto, senhoras e senhores, vivemos em um mundo triste. O roteiro de Romero foi recusado e o desenvolvimento do filme foi suspenso. Ao fim de 2000, Sony chama Paul W.S. Anderson (um nome que os fãs da saga e do cinema aprenderiam a odiar) para dirigir e roteirizar o que viria a ser o primeiro de uma série esquecível de filmes desnecessários: Resident Evil: O Hóspede Maldito.

Início

A história começa com a liberação de um vírus na Hive, uma instalação subterrânea da Umbrella Corporation. Esta corporação é uma espécie de empresa farmacêutica e tecnológica gigantesca dentro do mundo de Resident Evil. Com este vírus dispersado, a Rainha Vermelha, a inteligência artificial que administra o complexo, mata todos os funcionários que ainda estavam dentro da propriedade. Como resultado da carnificina, uma equipe de elite é chamada para desativar o sistema tornado homicida.

A entrada da unidade de elite acontece enquanto estamos conhecendo Alice, a personagem principal interpretada por Milla Jovovich. Alice acorda no chuveiro de sua mansão sem memória alguma, deixando um ar de mistério pairando sobre o ar nos momentos em que caminha pela casa. Esses momentos iniciais com os ângulos distantes dos cômodos, cenas estáticas com somente a personagem se movimentando e parando para observar de perto algum objeto são trazidas direto dos games. O clima de suspense  é forte e bem colocado. Uma pena que não dura quase nem cinco minutos. A chegada dos comandos com vários personagens irritantes e desnecessários encerra o silêncio e nos coloca dentro de um clima mais leve, com mais ação do que suspense.

“Trama”

Falar sobre a trama de O Hóspede Maldito é uma tarefa complexa. Com um roteiro furado e cheio de problemas, eu não posso acreditar que uma pessoa sozinha escreveu. Não porque é difícil de entender ou profundo mas porque ele é absolutamente uma confusão. A impressão que temos é que cada página do roteiro foi criada por uma pessoa diferente, tentando levar a trama para algum lugar que nunca alcança. Por vários momentos ao longo da fita eu me peguei questionando as decisões dos personagens e o que eles estavam fazendo. Não estava sozinho, eles também não sabem o que fazem.

Peguemos por exemplo o mote principal: desativar a Rainha Vermelha. Antes de entrar na base, a equipe tática coloca um aparelho com um timer, que mais tarde nos é revelado que selará todas as saídas da Hive, por segurança. Ora, se o objetivo era trancar o edifício, porque desativar a inteligência artificial totalmente perigosa dentro de uma construção contaminada por um vírus? E se o objetivo da companhia era fechar o prédio para que ninguém mais saísse, porque desativar o programa que estava justamente fazendo isso?

Se a missão fosse uma missão de resgate, com algum grupo dentro da base enviando um sinal de socorro, daria para entender a necessidade. Mas não, a missão do grupo é descer e desativar a Rainha Vermelha. E um parênteses aqui, que CGI fraco que usaram pra essa menina. Eu posso entender que o filme de 2002 têm suas limitações em computação gráfica, mas isso não impede utilização de efeitos práticos. Para comparativo, as conversas por holograma com Palpatine em Star Wars: O Império Contra-Ataca são muito mais convincentes. Tendo dito isso, a homenagem feita ao HAL 9000 de 2001: Uma Odisseia no Espaço é bem vinda. Fim do parênteses.

De Paul W.S. Anderson, no entanto, não se pode exigir muito. Por sinal, explicações são uma das muitas coisas que o filme não oferece. Personagens se movimentam dentro da base, se perdem, se encontram de novo, se separam… A Hive, que nos é apresentada como uma estrutura gigantesca em forma de colmeia que abriga centenas de funcionários parecem mais duas salas conectadas por um corredor onde todos podem andar para onde quiserem que em poucos minutos acabam se esbarrando de novo. A quantidade de vezes que personagens somem e reaparecem como se tivessem ido no banheiro é absurda.

Sem falar que para uma construção com tantos funcionários, a quantidade de zumbis que surgem é mínima e sempre aquém do potencial. Com problemas de não terem pessoas o suficiente, alguns produtores e namoradas da equipe tiveram que fazer pontas como zumbis. Quem me dera fizessem ponta como atores.

Atuações

Tirando James Purefoy, o resto do elenco é tão necessário quanto um pote de areia na praia. Milla Jovovich repete seu papel de O Quinto Elemento usando agora palavras e um pouco menos perturbada. Eric Malbius está completamente perdido dentro do filme como o policial que foi investigar o vírus. Sua presença em câmera e atuação me fazem pensar mais que estou vendo um péssimo pornô do que uma adaptação de Resident Evil. Michelle Rodriguez atua como Vin Diesel, seu parceiro do então recém lançado Velozes e Furiosos, repetindo frases prontas e de efeito em praticamente toda linha de diálogo, sem nunca perder seu olhar de quem acabou de ser possuída pelo Satanás.

Sua personagem deve ser de longe a mais irritante de todas. Além de ser uma tremenda incompetente que se deixa morder não uma, não duas, mas quatro vezes ao longo da película (sendo que TRÊS vezes são no mesmo braço!) ainda age de forma rude com todos de sua equipe e parece não se importar em ver todo o pelotão morrendo. Foi com total surpresa que eu recebi sua reação ao mostrar tristeza absurda com a morte de um colega em específico. Talvez tenha sido a minha maior surpresa ao longo dos extenuantes 100 minutos (deveriam ser zero) da obra. Outra surpresa é o vírus que se espalha com a já comentada mordida. Mesmo após ser mordida por quase todos os zumbis dentro do edifício, é só no final do filme que a sua personagem se transforma. Outros de seu grupo não tiveram a mesma sorte, se transformando pouco tempo depois da primeira mordida.

Por fim

Se existe algo nesse filme que merece um comentário que não seja derrogativo é a câmera. Temos belas montagens que relembram o suspense do jogo e que criam certa inquietação no espectador. A ação não é muito frisada, portanto a câmera acompanha as lutas contra hordas de forma mais direta e próxima, sem cortes rápidos para golpes ou lutas exageradas. As poucas vezes em que o faz com foco na ação, faz de forma competente.

As cores são sempre frias e azuladas, com exceção de Alice que usa um vestido vermelho o filme todo. Talvez ajude na locomoção?

A virada final lembra muito os finais de filmes de ficção científica dos anos 70 e 80, onde descobrimos que a vilanesca corporação está por trás de tudo. Infelizmente, só o final nos lembra ficção científica.

Resident Evil: O Hóspede Maldito não funciona como uma adaptação de games, não funciona como filme de ação, como filme de ficção científica ou como terror. Além de trote ou como castigo, não recomendo este filme a ninguém. Ler o script recusado de Romero pela internet ou assistir um gameplay dos primeiros jogos da série é uma atividade muito mais agradável e menos frustrante do que jogar no lixo desperdiçar 100 minutos de sua vida com esta película.

Comente!