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O histórico de adaptações de videogames para as telas talvez seja a equação mais problemática que Hollywood tenta resolver. Entre títulos como Super Mario Bros, os dois Mortal Kombat, Street Fighter, Silent Hill, Hitman, Max PaynePríncipe da Pérsia, Warcraft: O Primeiro Encontro entre Dois Mundos e Assassin’s Creed, a aceitação desse tipo de projeto tem sido de ruim para “muito ruim”, assim como o nível de qualidade baixíssimo dessas obras – por mais que Resident Evil tenha se mantido por quinze anos e seis filmes, todos concordam que a franquia de Paul W.S. Anderson não é exatamente boa, e traz apenas a marca da franquia da Capcom como identificação com o produto original.

Mas Hollywood não parece querer desistir. Novos projetos como Uncharted, Call of Duty e até um reboot de Resident Evil estão em desenvolvimento, e a aventureira Lara Croft é a mais nova aposta em finalmente acertar o código dos consoles nas telas. Já tendo ganhado duas aventuras tenebrosas protagonizadas por Angelina Jolie na década passada, Croft agora ganha vida nova com as formas de Alicia Vikander neste Tomb Raider: A Origem, que parece mais interessado em habitá-la em um universo realista e sombrio, mais próximo do último reboot da personagem nos games. O resultado, ainda que não quebre nenhuma convenção ou reinvente o jogo, é um filme decente e que pode facilmente carregar o título de melhor adaptação de games já feita.

A trama nos apresenta a uma Lara Croft em início de carreira (como o dispensável subtítulo nacional nos entrega), onde a jovem se recusa a assinar os papéis de herança deixado por seu pai, Richard (Dominic West), desaparecido há 7 anos e dado como morto por todos aqueles a seu redor. Com uma fagulha de esperança de poder encontrá-lo, Lara encontra pistas da obsessão de seu pai pela antiga rainha japonesa Himiko, que o teria levado a uma expedição desastrosa a uma ilha misteriosa. Seguindo seus passos, Lara organiza sua própria jornada para localizá-lo, colocando-a na mira de uma organização internacional conhecida como a Trindade, interessada nos supostos poderes sobrenaturais dos restos mortais de Himiko.

Menos é Mais

Simplicidade é a chave para a execução bem sucedida de Tomb Raider. Roteirizado pela estreante Geneva Robertson-Dworet (já escalada para escrever Capitã Marvel e Dungeons & Dragons) e o novato Alastair Siddons (em sua segunda investida como escritor), a dupla não parece interessada em explorar uma grande e complexa mitologia ou deixar o terreno pronto para mais uma dúzia de filmes e universos compartilhados, mas sim contar uma boa história de forma isolada. A própria personagem já se beneficia desse estilo mais convencional, sendo uma das inúmeras respostas ao personagem de Indiana Jones, então não é muito difícil que Dworet e Siddons encontrem inspiração temática e estrutural na série de filmes protagonizados por Harrison Ford: há um macguffin sobre o qual toda a trama gira em torno, mas temperado com uma pesada subtrama emocional sobre Lara ansiando por encontrar seu pai, algo que acaba rendendo alguns diálogos capengas aqui e ali, mas que funciona consideravelmente bem; e se os flashbacks da infância da jovem com o pai geralmente são um recurso barato de aprofundamento, aqui servem para oferecer pistas sobre a habilidade da jovem em arco-e-flecha e outros foreshadowings.

Claro, não é um roteiro perfeito. A jornada emocional de Lara teria sido muito mais interessante e recompensadora caso uma reviravolta importante não ocorresse no segundo ato, e que acaba concretizando elementos que funcionariam muito melhor em uma escala metafórica, e não literal. Todo o núcleo da ilha central também carece de bons personagens e arcos, com Walton Goggins surgindo com um vilão que começa com uma boa premissa -a de sair daquele local e reunir-se com sua família, espelhando a jornada de Lara – mas que acaba sem algum tipo de desenvolvimento, subjulgado ao coadjuvante de luxo. De forma similar, há uma questão com todos os trabalhadores escravizados pelo vilão, e que planejam uma fuga liderados pelo parceiro de Lara, vivido por um carismático Daniel Wu, mas que jamais ganham alguma cena para que possamos ao menos conhecê-los – e a própria amizade de Wu com Lara é algo que surge grosseiramente acertado, mas que eu gostaria de rever em possíveis continuações.

É um tanto decepcionante, também, que Dworet e Siddons não abracem o “full Indy” na resolução do macguffin, que poderia muito bem ser algum tipo de elemento sobrenatural como os espíritos da Arca da Aliança ou o alienígena de O Reino da Caveira de Cristal, mas a dupla prefere manter o pé em algo mais “crível”, mesmo que a solução encontrada ainda carregue um elemento difícil de se acreditar, justamente por estar em um universo realista. Curioso pensar que monstros ou outras entidades místicas seriam mais fáceis de comprar do que a invenção macarrônica da dupla aqui, mesmo que esta venha temperada por diversas narrações em off e flashbacks que tentam justificá-la. Claro, isso faz parte da decisão da trama em não trazer uma mitologia complexa e que estourasse pelo absurdo em sua conclusão, mas não deixa de ser um clímax um tanto esquecível.

Renasce uma Sobrevivente

Mas se Tomb Raider funciona, muito se deve a Alicia Vikander. É um papel apetitoso para qualquer atriz, especialmente na nova onda de girl power e franquias de ação protagonizadas por mulheres, vide os sucessos de Mulher-Maravilha, Atômica e a nova trilogia de Star Wars, e a oscarizada atriz sueca vale cada segundo. Sua Lara é carismática, mas ainda longe da figura forte e destemida que os gamers da velha guarda podem estar acostumados a ver, se aproximando bastante – novamente – do reboot lançado em 2013, com a personagem falhando, se machucando e encontrando força a partir da derrota. Vikander traz todo senso mais adolescente e imaturo de Lara em cenas bem humoradas, e sem soar forçada, assim como seu espírito aventureiro – como ao aceitar participar de uma corrida de rua, mas também entrega seu melhor nos momentos mais intimistas, especialmente naqueles envolvendo o razoável Dominic West.

E, claro, é possível notar um comprometimento físico notável por parte da atriz, que logo em sua primeira aparição já está recebendo jabs violentos no rosto, e exibe um abdômen definido que certamente foi fruto de um processo árduo e exigente; aparentemente, os personal trainers dos filmes de Zack Snyder ainda habitam os estúdios da Warner Bros, e felizmente o corpo de Vikander nunca ganha uma sexualização ofensiva, já começando pelo fato de a personagem fugir do velho clichê da mocinha usando shorts apertados em uma floresta tropical – em mais uma herança do game de 2013.

Onda Norueguesa

Em uma escolha incomum para grandes produções do gênero, a Warner escolheu o cineasta norueguês Roar Uthaug, responsável pelo bem-sucedido A Onda (mas não aquele que imediatamente vem à mente) e que encara seu primeiro trabalho nos EUA de forma competente. Ainda que careça de efeitos visuais perceptíveis para criar um ambiente perigoso ao redor da atriz – árvores, cachoeiras e tempestades – Uthaug é eficiente em criar o perigo e a geografia das cenas de ação, como o suspense de ter Lara caminhando pela asa de um avião tombado em uma cachoeira (onde o design de sonoro é particularmente eficaz) ou na forma como sua câmera explora as diferentes possibilidades de um ambiente, vide a divertida corrida de bicicletas em Londres, nos lembrando imediatamente da mecânica de um videogame; em uma forma sutil de manter a linguagem do console sem se prender diretamente a ele. Uthaug também surpreende pela brutalidade de alguns combates, como na cena suja e enlameada onde Lara mata um homem pela primeira vez, e a lente do diretor capta um momento que surge incômodo e marcante para a protagonista.

Tomb Raider: A Origem é facilmente a melhor, ou pelo menos mais decente, adaptação que um game já teve para os cinemas – o que não é dizer muito se compararmos com o que veio antes. Não é um grande filme e nem traz nada de novo, mas pelo menos consegue contar uma boa história sem fracassar, atentando-se ao básico e confiando no carisma imenso de sua talentosa protagonista. Não é o tipo de filme que o gênero de games merece, mas é exatamente do que ele precisa agora.

Tomb Raider: A Origem (Tomb Raider, EUA – 2018)

Direção: Roar Uthaug
Roteiro: Geneva Robertson-Dworet e Alastair Siddons
Elenco: Alicia Vikander, Dominic West, Walton Goggins, Daniel Wu, Kristin Scott Thomas, Derek Jacobi
Gênero: Aventura
Duração: 118 min

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