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O processo de decisão para definir se um filme blockbuster terá ou não sequencia é simples: se ele fez bilheteria suficiente e houve recepção positiva, com certeza. Se houve baixa bilheteria mas alta popularidade, também. Quando o propósito é se tornar franquia, uma produção precisará fracassar fenomenalmente em bilheteria e em crítica. Exemplos recentes deste cenário seriam Caça-Fantasmas de 2016 e Quarteto Fantástico de 2015. A crítica em segundo lugar, porque mesmo com críticas negativas, um filme de bom retorno tem grandes chances de ganhar sequência, como Esquadrão Suicida que já possui sequência e spin-offs planejados.

E é nessa categoria que Transformers se encaixa já há muito tempo. Desde a fraquíssima continuação Transformers: A Vingança dos Derrotados que Michael Bay parece não acertar os ponteiros com a crítica, mas sempre foi capaz de arrebatar um número suficiente de fãs para garantir mais e mais sequências no que se tornou uma das maiores esbórnias do cinema moderno.

Expectativa e Michael Bay

Até o último lançamento, Transformers: A Era da Extinçãoqualquer pessoa poderia alegar certo prazer culpado nos filmes. Histórias fracas, sem muito sentido ou brilhantismo, mas com ação interessante e divertida que nos permite suportar as agruras dos outros minutos de filme. Mas esta última entrada promete mudar a forma como seus fãs acompanham esta saga de forma negativa.

Ao fim de Transformers: A Era da Extinção, Optimus Prime se deslocava para encontrar seu criador e prometia chutar muitas bundas intergalácticas. Esperava-se, portanto, um filme mais centrado em Cybertron e com menos foco nos personagens humanos.

Ledo engano, caro leitor. Michael Bay prova mais uma vez que qualquer expectativa colocada nele é frustrada de forma dupla: desaponta por seguir caminhos diferentes e surpreende por conseguir inovar em maneiras de destruir a franquia e, consequentemente, frustrar os fãs.

Mais Robôs e Menos Carisma

Se existia qualquer reclamação com robôs barulhentos, chatos e, por vezes, com conotações sexuais irreverentes e totalmente fora de tom para um filme deste tipo, agora Bay os multiplica por dez. São diversos robôs pequenos ou matraqueadores, pulando de um lado para outro com voz digitalmente alterada que se assemelha mais com Alvin e os Esquilos versão robô do que com um robô propriamente dito. Existem inexplicáveis Mini-Dinobots e outros baixinhos já conhecidos (e odiados) da franquia. É como se Michael Bay descobrisse a fórmula para recriar Jar Jar Binks e a colocou em diversas roupagens diferentes pelo filme.

Falando em robôs, existem milhares deles. Mas não perca tempo em lembrar de nomes ou quaisquer peculiaridades para lhe ajudar com identificação. Será mais fácil saber todas as casas de Westeros e seus respectivos jargões do que lembrar de personagens tão esquecíveis que dão as caras nesta película. Todos os Transformers, com exceção de Optimus Prime e Bumblebee, são amontoados de bagunça, sujeira e peças que, não fossem por movimentos, nem reconheceríamos em meio à poluição visual que as cenas são. O CGI é igualmente fraco, dando a leve impressão que em meio ao processo de produção a equipe simplesmente parou de renderizar e decidiu jogar truco ou futebol.

E pensar que o menor problema do filme são os Transformers…

“Roteiro”

Com um dos roteiros mais previsíveis e furados da franquia até então, somos obrigados a ver novamente (pelo que deve ser a quarta vez seguida) Autobots e Decepticons atrás de um artefato misterioso que envolve alguma lenda antiga (a da vez é a de Merlin e o Rei Arthur) que reconstruirá Cybertron mas destruirá o planeta terra no processo. Parece similar? É porque já vimos esse mesmíssimo plot nas entradas anteriores da franquia. A única coisa que temos diferente dessa vez é a ausência de Optimus Prime por praticamente dois atos do filme para reaparecer “do mal” e voltar ao normal em poucos minutos para a grande batalha final.

De resto, temos tudo que podemos esperar de Michael Bay. Personagens são jogados pra cima e pra baixo em meio a explosões, câmera tremida, personagens exagerando atuação para efeito cômico (sem sucesso), incoerências de roteiro (Optimus leva anos para chegar a Cybertron e Cybertron leva três dias para chegar à Terra). E se você achava que a porção do filme que se passa durante a época do Rei Arthur estaria livre de explosões, você claramente não conhece todo o potencial de Michael Bay.

Elenco Apagado

O elenco não ajuda de forma alguma. Pobre Anthony Hopkins. Em meio ao filme, ao ver sua atuação perante um dos robôs fazendo piadas fora de hora, senti uma certa vergonha que deve ter emanado do ator ao ter que interagir em uma cena tão infantil e tosca. Sua atuação é sempre interessante e provavelmente um dos únicos destaques do filme, mas não adianta. É igual ver Neymar disputando a Copa do Mundo contra um time de Teletubbies; impossível de levar a sério. Mark Wahlberg e Laura Haddock devem ser os indicados ao Framboesa de Ouro como pior casal em tela. Com diálogos vergonhosos, zero química e uma persistente sensação de estranheza, cada vez que a câmera tira o foco de ambos é um alívio.

Outro destaque que é totalmente ofuscado por uma direção com ares de insanidade é a atuação da atriz mirim Isabela Moner. Com pouco tempo de tela e afetada por um roteiro disléxico, surpreende em seus momentos. Infelizmente, sua necessidade de afirmar a cada frase como ela é forte ou como não precisa de ninguém acaba prejudicando a empatia com o espectador e tornando sua personagem unidimensional.

O Pior da Franquia?

Poderia me estender ainda por páginas e páginas de problemas com Transformers: O Último Cavaleiro, mas o maior pecado deste filme, desta vez, foi a ação. Ao espectador que espera ver embates colossais entre os robôs, somente frustração lhe aguarda. Com cenas bagunçadas e com criatividade nula, somos açoitados com aviões do exército explodindo no ar, uma confusa briga de submarinos que finaliza com um jantar romântico, robôs pulando em câmera lenta exibindo toda sua baixa qualidade de computação gráfica e tiros, muitos tiros. Os principais embates de robôs são resolvidos em instantes, se piscar perdeu. E é por isso que eu considero a péssima qualidade de cenas de ação o maior pecado de Transformers 5. Roteiro, atuação, coesão, trilha sonora, fotografia, dentre outros itens, são coisas que qualquer espectador da franquia já sabe que será ruim ou esquecível. Mas quando até a ação do filme está fora dos trilhos e simplesmente insiste em jogar coisas na tela, Transformers se torna um exercício em autopunição e penitência.

Em minha sessão, havia uma criança sentada a poucas cadeiras de mim. Ela pulava, esperneava e falava durante o filme inteiro, com pequenas pausas entre a bagunça pois sua mãe a mandava ficar quieta. Eu percebi então que Transformers se tornou muito parecida com uma criança birrenta. Em troca da atenção do espectador, Michael Bay em O Último Cavaleiro dirige uma balbúrdia descoordenada, com muito barulho, tentativas de piada e batidas de pé. No entanto, diferente de uma criança, seu público não terá medo de abandonar este filme sozinho no cinema, enquanto a jogada franquia de Transformers continuará implorando por atenção até achar uma direção competente.

E a maior surpresa da sessão foi descobrir que a criança ao meu lado me irritava significativamente menos que o filme na tela.

Obs: Filme assistido em sessão aberta ao público nos EUA.

Transformers: O Último Cavaleiro (Transformers: The Last Knight, EUA – 2017)

Direção: Michael Bay
Roteiro: Akiva Goldsman, Art Marcum, Matt Holloway, Ken Nolan
Elenco: Mark Wahlberg, Josh Duhamel, Anthony Hopkins, Laura Haddock, Isabela Moner, Stanley Tucci, John Turturro, Jerrod Carmichael, Santiago Cabrera, Glenn Morshower e Liam Garrigan
Gênero: Ação
Duração: 149 minutos

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