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Contém spoilers

As mídias sociais, os fóruns na internet, dentre outros meios de troca de informação acessível e coletiva, mudaram totalmente a dinâmica do Cinema e das séries de televisão. Para todo segredo mantido a sete chaves, existe alguém disposto e capaz de espalhar a verdade antes da hora, potencialmente estragando a experiência para alguns, algo que, ocasionalmente, já é feito pelos próprios trailers liberados pelos estúdios e emissoras. Mais especificamente, ainda temos as tempestades de teorias, que tomam conta de grupos, artigos e mais a cada novo episódio de série – isso vale para as mais assistidas, como Game of Thrones, até aquelas que pertencem a um nicho mais específico, como Doctor Who ou Sherlock (apesar da recente onda de popularidade que ambas alcançaram nos últimos anos). Westworld, claro, não é exceção.

Quando a primeira temporada ainda estava em exibição, muitos de seus maiores segredos acabaram sendo desvendados antes do momento de revelação na série em si. Seja no Reddit ou no Facebook, os fãs conseguiram descobrir sobre as linhas temporais distintas, a verdadeira identidade do Homem de Preto, dentre outros pontos e não digo que isso seja um defeito da série. Um twist não perde seu valor apenas por já ser de conhecimento da audiência, afinal, ele afeta não apenas o espectador, como, principalmente, os personagens da obra em si. Além disso, a obra perderia totalmente seu valor após ser assistida uma só vez – o que importa, portanto, em uma revelação, é o impacto dela na trama e temos excepcionais exemplos disso ao longo da História do Cinema.

Na realidade, o fato de terem descoberto algumas das informações indica o quanto a temporada foi bem construída e não aponta uma falha no roteiro, ou algo assim – nesse caso, para aqueles que acertaram suas teorias, a surpresa é substituída pela satisfação de ter acertado o que aconteceria.

Jonathan Nolan, no entanto, não concorda.

O showrunner e co-criador da série declaradamente ficou insatisfeito com o fato dos fãs terem acertado qual seria o rumo tomado na primeira temporada. Atacar é uma palavra forte, mas foi muito perto disso o que ele fez através de seus comentários sobre o ocorrido, o que o motivou a criar uma narrativa ainda mais críptica na segunda temporada de sua série, algo que ninguém, de fato, seja capaz de desvendar antes da hora certa. O resultado é uma obra que fortemente depende de twists, chegando ao ponto de deixar o bom e velho storytelling de lado para simplesmente criar revelações aqui e lá. Vemos pistas deixadas aqui e outras informações feitas para despistar ali, criando uma história inchada, porém bastante simples, complexa apenas pela forma como é contada e não pela temática em si. Uma série que esqueceu que devia contar uma boa história e criou um grande quebra-cabeças, que, já na metade, já perdia nosso interesse. Nolan conseguiu o que queria: criar mistérios tão grandes que nos fez esquecer o porquê de termos gostado tanto da primeira temporada.

Trata-se de um esquecimento geral sobre o que é mais importante: desenvolver os personagens. Com isso, qualquer chance de evolução que Bernard tinha, por exemplo, foi por água abaixo. Dividida em diversas linhas temporais, seu papel nessa temporada foi limitado praticamente ao de narrador, nos levando pelos acontecimentos no passado e presente. No fim descobrimos que essa fragmentação narrativa, em termos de trama, foi realizada por ele próprio a fim de despistar os agentes da Delos, mas, com isso, veio uma total falta de plausível motivação por trás de seus atos – sabemos que ele alcançou a consciência plena, mas por que ele fez as coisas que fez? Afinal, o que ele queria? Evitar mais mortes? Salvar os anfitriões? Por que? Nada disso é respondido, vemos apenas suas ações como se o personagem estivesse em modo automático, sem um pingo de devida construção ao longo desses dez episódios.

Bernard, contudo, é um dos que menos sofreram em termos de caracterização e evolução nessa temporada. Dolores e William são os que mais sofreram nesse sentido. A primeira, uma das personagens mais complexas e desenvolvidas na primeira temporada, se tornou um instrumento de uma nota só, repetindo incessantemente os mesmos discursos, perpetuando um ódio à raça humana que parece ter surgido do nada, mesmo com sua tomada de consciência na temporada anterior – não é a mesma personagem do primeiro ano, é alguém que foi deturpado para cumprir o papel de vilã ou de anti herói, percorrendo, em dez capítulos, apenas uma jornada literal e não metafórica, visto que em momento algum ela demonstrou qualquer mudança em sua postura, mesmo com a morte de Teddy.

O agravante é a repentina alteração em seu objetivo no meio da temporada, sem mais nem menos, ela vai atrás do centro administrativo do parque, praticamente se esquecendo do Vale Além, como se duas versões do roteiro tivessem sido juntadas sem os necessários ajustes. Um olhar sobre suas motivações bastaria para corrigir isso, mas manter o segredo é mais importante aos roteiristas e showrunners do que contar uma história orgânica.

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Bom exemplo disso, também caindo no espectro das mudanças repentinas de comportamento, é a trajetória do Homem de Preto, que foge do velho arquétipo do cowboy caladão e bom de tiro, para um velho maluco. Claro que sua obsessão pelo ‘jogo’ já era clara desde a primeira temporada, mas, de uma hora para a outra, ele cai em um abismo sem fim, sem saber distinguir a realidade da ficção, sem qualquer progressão orgânica de quem ele era no início da temporada, para onde chegou nos dois últimos capítulos. Até mesmo seu questionamento sobre sua realidade se torna forçado, ao passo que isso jamais fora levantado antes e descobrimos através de uma cena pós-créditos o porquê dele estar tão mergulhado nesse mundo. Parte dessa mudança da água para o vinho também se dá em razão da atuação de Ed Harris, que claramente, a partir de certo ponto, não sabia o que fazer, algo que chegou a admitir quando disse, em entrevista, que não entendia o que estava acontecendo em Westworld. As expressões faciais de um homem imbatível são substituídas por aqueles de alguém fragilizado, como se a série gritasse “ele vai morrer”, similarmente aos vilões desconstruídos quando o fim da trama se aproxima. O problema é que não ocorreu o processo de desconstrução, ela simplesmente veio do nada.

Harris, porém, não fica com a culpa e sim os showrunners, que desenvolveram essa enfadonha jornada de William, criando paralelos óbvios com a trajetória de Dolores, apenas para, nos momentos finais, esses serem revelados como artifícios para nos despistar. Sim, vimos um “confronto” final entre os dois, mas sem qualquer peso dramático, sem sequer uma atenção mais cuidadosa ao fato de, depois de todos esses anos, eles estarem cavalgando juntos novamente. A pressa tomou conta da narrativa, já que ela se preocupou tanto em criar mistérios, que foi incapaz de seguir com a história naturalmente, gerando um finale corrido e ausente de emoção, dependente exclusivamente dos twists para (não) se sustentar.

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Maeve, por sua vez, mostrou uma evolução um pouco maior, mas limitada a seus ‘poderes’ e não em desenvolvimento de personagem em si. Em linhas gerais, ela se manteve a mesma do início ao fim, seguindo seu objetivo para encontrar sua filha, o que culminou em um anticlímax para dizer o mínimo. Sua história, ainda que tenha chamado mais atenção em razão do episódio de Shogun World pouco acrescentou, esse, que ainda revelou ser um grande filler, sem gerar qualquer consequência à trama geral, apenas acrescentando uma personagem que, no finale foi morta, sem ter feito qualquer coisa de relevante, além de atirar algumas flechas contra agentes da Delos. Com isso, Maeve, mais uma bem construída personagem da primeira temporada, é prejudicada pela falta de foco no essencial.

Assim sendo, esse segundo ano de Westworld claramente mostrou que a intenção de Jonathan Nolan, Lisa Joy e toda sua equipe foi criar uma narrativa cheia de mistérios, mas sem um pingo de profundidade, apoiando-se mais do que devia em plot twists ao invés de simplesmente ter a intenção de contar uma boa história. A sensação é que vimos um epílogo exageradamente prolongado da primeira temporada, tudo sendo contado da forma mais confusa possível, apenas para ser confuso, sem um motivo mais orgânico por trás. Westworld decaiu e muito, tornando-se mais uma série qualquer, uma superprodução vazia, repleta de pseudofilosofia, que só não é obviamente rasa porque os showrunners fizeram questão de embaralhar tudo, disfarçando a mediocridade dessa segunda temporada através das incessantes perguntas levantadas.

Westworld – 2ª temporada (EUA, 2018)

Showrunners: Jonathan Nolan, Lisa Joy
Direção: Richard J. Lewis, Vincenzo Natali, Lisa Joy, Craig Zobel, Tarik Saleh, Nicole Kassell, Uta Briesewitz, Stephen Williams, Frederick E.O. Toye
Roteiro: Lisa Joy, Roberto Patino, Carly Wray, Jonathan Nolan, Ron Fitzgerald, Gina Atwater, Dan Dietz, Jordan Goldberg
Elenco: Evan Rachel Wood, Ed Harris, Tessa Thompson, Luke Hemsworth, Thandie Newton, James Marsden, Jeffrey Wright, Rodrigo Santoro, Fares Fares, Simon Quarterman
Emissora: HBO
Gênero: Ficção Científica

Duração: 10 episódios de 1h cada (aprox.)

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