“Uma garota virginal pura e doce, presa no corpo de um cisne, ela deseja liberdade, mas só o amor verdadeiro pode quebrar o feitiço. Seu desejo quase se realiza, na forma de um príncipe. Mas, antes que ele possa declarar o seu amor, a irmã dela, o Cisne Negro, o engana e então o seduz. Desolada, o Cisne Branco, pula de um penhasco, se matando, e na morte, encontra a liberdade.”

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É com essas palavras que Thomas, personagem de Vincent Cassel, introduz, principalmente para o público, do que se trata a peça Cisne Negro, no momento em que está selecionando quais bailarinas farão parte de sua nova produção.

Cisne Negro, neste caso o filme, trata da obsessão pela perfeição no meio artístico. Mais recentemente, Whiplash foi outro representante de filme que aborda esse tema. Porém, enquanto Whiplash nos trouxe um protagonista que tinha como foco o treino e esforço máximo para alcançar a perfeição desejada, Cisne Negro traz um olhar diferente sobre essa questão. Se tecnicamente Nina, a menina doce e frágil, já é perfeita, executando todos os seus movimentos com precisão cirúrgica, falta a personagem o sentimento, a leveza, a paixão, que faz com que ótimos artistas consigam encantar e envolver o público de um jeito tão magnético que é impossível desviar a atenção. Para ser a protagonista da peça, a artista deve conseguir abraçar os dois lados. A delicadeza, fragilidade e beleza do Cisne Branco, e a malícia, a paixão, o poder e a sedução, representados pelo Cisne Negro. Dissecar o que ocorre com a personagem enquanto aprende a ser os dois seres nos levará a entender o que ocorre ao final do filme.

A MÃE

Antes de chegarmos ao ponto principal do texto, o trágico momento da transformação de Nina, é necessário entender os elementos que fizeram parte de sua transformação. E nada melhor do que começarmos com o elemento que tornou a personagem o que ela é no início do filme. A mãe.

A mãe de Nina, uma ex-bailarina que abandonou a dança para se dedicar a sua filha. Por conta disso, a personagem acaba superprotegendo e manipulando sua filha , de modo que, ao início do filme, o que vemos é uma protagonista inocente, infantil, pura, com um quarto cor de rosa repleto de bichos de pelúcia. Esse controle da mãe, de certa forma, castrou Nina, impedindo-a de crescer e se desenvolver como mulher.

Toda essa pureza de Nina, como já dito anteriormente, se encaixa perfeitamente com o papel do Cisne Branco. Porém, para interpretar o Cisne Negro, terá que entrar em contato com algo adormecido dentro dela e deixar de lado toda essa proteção da mãe. Tentando trazer esse outro lado de Nina a tona, o diretor da peça começa uma série de investidas, levando a personagem a, aos poucos, abandonar aquela inocência que sempre foi reforçada pela sua mãe. Esse abandono em questões tão fortemente presas na mente da personagem acaba levando a conflitos internos, o que tem efeitos devastadores no aparelho psíquico de Nina.

UM OLHAR DA PSICANÁLISE

Segundo Freud, o aparelho psíquico possui três partes que controlam o seu funcionamento. Eles são o ID, o EGO e o Super Ego. O ID pode ser definido como o desejo, a parte que busca unicamente o prazer. O Super Ego é o oposto do ID, representando todos os valores morais que aprendemos em sociedade. Já o Ego é a parte regida pelo “princípio da realidade”, representando a razão. Sendo assim, para um bom funcionamento psíquico, é necessário que o Ego mantenha o Id e o Super Ego sob controle. Quando isso não ocorrem, distúrbios de personalidade podem vir a aparecer.

Sendo assim, podemos visualizar o Cisne Branco como o Super Ego, os valores incutidos pela mãe da personagem, com o Cisne Negro sendo o Id, a parte regida pelo desejo. Nina, pelo que pode ser observado, inicia o filme com o Super Ego comandando suas ações, algo visto pela submissão da personagem as vontades defendidas pela mãe. Para se tornar o Cisne Negro, o contato com o Id deve ser realizado. Esse enfrentamento interno de Nina acaba levando a algumas alucinações apresentadas pela personagem no decorrer do filme, como a visão dela mesma a enforcando na banheira, ou o momento em que a personagem começa a arrancar a pele próxima a suas unhas, outra ilusão causada pela mente de Nina. Porém, o conflito ainda levaria a resultados mais devastadores.

A CONCORRENTE

Como se já não bastasse essa batalha interna, ainda há a presença de Lilly(Mila Kunis), bailarina recém-chegada de outra companhia. Lilly representa para Nina o seu contraponto, trazendo a leveza e a liberdade que a personagem deseja alcançar para se tornar o Cisne Negro. Ela é seu oposto, sua concorrente, a ameaça ao papel que ela deseja alcançar. Esse desejo pelo contato com seu outro lado projetado por Nina em Lilly é exposto nitidamente quando, após saírem de uma festa, Nina alucina que está tendo relações sexuais com Lilly, a qual em certo momento tem seu rosto transfigurado no de Nina. É o Id ganhando cada vez mais força dentro da protagonista.

A VITÓRIA DO CISNE NEGRO

Após novas alucinações, inclusive envolvendo um caso entre o diretor Leroy e Lilly, e um conflito com a sua mãe, que mostra uma personagem totalmente diferente do início do filme, Nina parte para o teatro. É dia do grande espetáculo.

Com um emocional fragilizado, Nina parte para a primeira parte da apresentação, o Cisne Branco. Após uma boa apresentação, a personagem perde a concentração e, poucos instantes antes de encerrar esse primeiro momento, acaba caindo. O abalo dessa falha é o ponto final para a imposição do Id sobre o Super Ego, a transformação da doce Cisne Branca para o Cisne Negro. Ao chegar em seu camarim para se maquiar, Nina encontra Lilly se maquiando, já caracterizada como Cisne Negro. Após algumas palavras, Nina e Lilly começam a brigar. Ela não pode perder, não pode entregar o papel de Cisne Negro a Lilly. Um espelho quebra, um caco de vidro, uma estocada no estômago, fim. É a morte de Lilly, a morte da concorrente. Ao se entregar totalmente ao seu desejo, Nina se liberta, é o Id assumindo pela primeira vez total controle da mente de Nina.

O que vemos a seguir é o Cisne Negro totalmente personificado por Nina. Ao final de sua apresentação como Cisne Negro, a plateia fica eufórica. Ela conseguiu, incorporou, seduziu e levou a multidão a loucura! O público a aplaude de pé, ela é a rainha dos cisnes.

Porém, há algo de errado. Enquanto novamente a troca de roupa para a apresentação final como Cisne Branco, retratando o salto de libertação do Cisne em um penhasco, alguém bate a porta. Nina abre, é Lilly, elogiando-a pela excelente apresentação. Confusa, ela tranca a porta, vai até onde havia escondido o corpo de Lilly e abre a porta. Não havia nada. É quando Nina percebe o que aconteceu. Ao olhar para baixo, percebe o furo, com o caco de vidro ainda em sua pele.

QUANDO O PREÇO PELA PERFEIÇÃO É ALTO DEMAIS

Todo esse texto foi produzido com a intenção de, junto a você leitor, entender o que de fato ocorreu ao final da apresentação de Nina. Como pôde em um momento a personagem se ver matando uma companheira e, no outro, perceber que ela apenas perfurou a si própria? Isso mesmo, essa fatalidade foi apenas o resultado de uma batalha travada na mente da própria personagem. “Lutar por sua vida” e “matar” Lilly foram apenas artifícios que a mente de Nina usou para libertar-se, podendo assim alcançar a perfeição. A Nina do início do filme, comandada pelo Super Ego, nunca mataria para alcançar o que desejava. Porém, a busca pela perfeição no momento de interpretar a rainha dos cisnes fez aflorar uma nova personalidade em Nina que encontrou, na morte, um modo de satisfazer seu desejo e libertar a personagem.

 

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