Após diversos pedidos de fãs, a Capcom finalmente cede aos desejos de sua fiel freguesia. Finalmente o remake de Resident Evil 2 está entre nós. O original de 1998 conseguiu aprimorar a fórmula estabelecida pelo primeiro jogo, foi um sucesso de tanto e críticas quanto de vendas gigantesco, figurando até hoje nos top 10 mais vendidos da empresa. Não é necessário dizer o tamanho da responsabilidade que recaía sobre os desenvolvedores desse game. E o resultado dessa empreitada será apurado a seguir.

Uma Franquia cheia de altos e baixos

Com uma demanda por jogos com estórias cada vez melhor elaboradas foram surgindo novos gêneros narrativos dentro da mídia, um deles sendo o gênero de horror e sobrevivência. Haviam jogos como Home Sweet Home (Um dos percursores do Survival Horror e uma das inspirações para Resident Evil) e Alone in the Dark ( primeiro jogo oficial do gênero). Mas foi com o primeiro Resident Evil, em 1996 que o gênero foi totalmente consolidado.

Era tenso, assustador e trazia um bom mistério a ser desvendado. O jogo, que apresentava um grupo de policiais presos numa mansão, enfrentando hordas de zumbis e diversos outros monstros em sua tentativa de escapar logo caiu no gosto de diversos jogadores. Foi um sucesso absoluto, outras empresas tentaram replicar o sucesso do jogo imitando sua fórmula, algumas com sucesso, outras nem tanto assim. A primeira continuação, Resident Evil 2 superou o primeiro game em todos os aspectos e a fórmula chegou em seu ápice (em termos de jogabilidade) em Resident Evil 3: Nemesis.

Após a era do Playstation original a série começou a dar indícios de seu envelhecimento. As vendas de Resident Evil Code Veronica e Resident Evil Remake não foram tão boas (Na época de seus respectivos lançamentos) e a Capcom sentiu que precisava se reinventar. Logo saiu seu mais novo estrondoso sucesso, Resident Evil 4. Mais voltado para ação, tirando elementos de jogos de tiro tradicionais, o quarto jogo da franquia a salvou de sua obsolescência.
Mas, após Resident Evil 4 surgiu outro problema, a série estava aos poucos perdendo sua identidade. O jogo seguinte, Resident Evil 5, apesar de ter sido um grande sucesso de vendas, agregou algumas críticas negativas para si. Em termos de gameplay não houveram muitas diferenças. As que houveram afastaram a série de sua origem, a aproximando ainda mais de um shooter qualquer, o que não agradou vários fãs mais antigos. O ponto máximo dessa crise de identidade foi em Resident Evil 6. O sexto jogo mistura diversos desses elementos em um só de uma forma desordenada. Tem alguns momentos de tensão, mas logo são eclipsados por cenas de ação regadas a explosão no melhor estilo Michael Bay. O jogo trouxe também toda uma carga épica que pareceu demasiadamente exagerada e não casou com o estilo do restante da franquia.

Após algumas tímidas investidas para reconquistar suas origens com os dois primeiros Revelations, a Capcom decide ir fundo e em 2017 lançam Resident Evil 7. O sétimo jogo numerado da franquia pode não ser perfeito (apesar de ser um ótimo jogo), mas abriu portas para um brilhante futuro para uma série que parecia estar perdida. Após a recepção positiva de Resident Evil 7 não havia melhor época para anunciar o remake.

Um trabalho bem feito

O Resident Evil 2 original já era um jogo que esbanjava qualidade, por isso eu tinha alguns temores em relação ao remake. Um deles era que abandonassem o espírito do original e fizessem um jogo que apelasse para a nova geração, Com mais ação, multiplayer e o que mais estiver no gosto dos novos jogadores. Outro temor era que exagerassem em sua fidelidade ao primeiro, com pouca inovação em cima do que já foi feito até aqui. Mas, para minha surpresa o jogo conseguiu achar um equilíbrio.

Em primeiro lugar, é um dos jogos mais belos em termos gráficos que já vi. Com a ajuda da RE engine que eles haviam desenvolvido e usado em Resident Evil 7, o jogo beira ao realismo visualmente. Os efeitos de iluminação impressionam. Um exemplo é a luz do luar batendo nas janelas abertas, criando uma atmosfera fantasmagórica para o jogo. A atenção que os desenvolvedores tiveram aos detalhes nessa obra é louvável. O dano que você faz aos inimigos continua visível, o que eles fazem a você, como feridas de mordidas, também permanece por algum tempo. É um sentimento legitimo de nostalgia quando você revisita cenários do original em gráficos de última geração, em uma quase perfeita reprodução.

E os detalhes nos rostos de cada personagem são impressionantes. A expressividade obtida com cada um é espetacular, cada movimento no rosto foi cuidadosamente detalhado, dor, raiva, medo, desconfiança, alegria e tudo mais registrados com o maior empenho possível. a animação é boa, a tecnologia atual de MoCap (Captura de movimentos), permitiu movimentos fluidos e naturais. A Capcom se esforçou para tirar de seus atores o melhor trabalho possível, nota-se ao observar que até mesmo os papéis mais coadjuvantes tem certo cuidado em expressar as emoções corretas, tanto na atuação de voz quanto a corporal.

Praticamente um Old School

Resident Evil 2 Remake apresenta elementos consagrados da série em sua jogabilidade, que acentua um certo sentimento de nostalgia. A mira sobre o ombro, cuja autoria é atribuída ao sucesso de 2004, Resident Evil 4 está de volta. As armas secundárias cuja serventia é contra-atacar os monstros de Resident Evil Remake se faz presente e mostra-se como uma mecânica indispensável para esse jogo. As pólvoras que podem ser misturadas para a obtenção de mais munição de Resident Evil 3 também fazem seu retorno aqui.

O uso de recursos de jogos mais antigos da série não para na mecânica, mesmo o design geral do jogo remete a era do PS1. Os corredores são estreitos, era recomendável nos primeiros jogos desviar-se dos zumbis para poupar munição. Entretanto, no caso do jogo em questão, os movimentos dos monstros não são tão previsíveis quanto outrora e muitas vezes quase não haverá espaço para manobrar, o que forçará o jogador a apelar para o combate. Mas não é preciso se preocupar tanto com munição, pois na nova versão os recursos são muito mais abundantes. O leva e traz de itens está de volta, o jogador terá que passar pelas áreas diversas vezes, na sua busca por itens chave necessários para o progresso. Mas no caso desse novo jogo, o mapa mostrará os itens que você por acaso esqueceu de pegar.

O combate é simples. Consiste em mirar, atirar e contra-atacar com os objetos secundários, que por sua vez podem ser usados de outras maneiras. É recomendável usar a faca para matar um zumbi que tenha sido derrubado, mas é preciso ficar de olho na durabilidade, pois ela pode quebrar. As granadas atordoantes são ótimas para se usar em fugas, caso tenha que passar por uma horda muito grande de zumbis ou escapar de algum inimigo que o esteja perseguindo. As granadas explosivas podem auxiliar no combate com seu intenso poder de fogo. As estratégias que você irá usar vai depender do tipo de cada inimigo que estiver enfrentando.

Quanto aos tipos de monstro, o mais comum é o zumbi. Lento, pode ser quase facilmente evitado e para matá-lo bastam alguns tiros na cabeça.Se tiver sorte, apenas um tiro é o bastante para estourar sua cabeça. Além dos zumbis há os famosos lickers, na versão brasileira chamado de carnífice. Com essa criatura é preciso muita cautela, pois ele possui ataques que podem deixar seu personagem no vermelho em um instante. Há os cerberus, cachorros zumbis que são fáceis de matar. Entretanto são muito rápidos e pode ser um pouco frustrante enfrentá-los.

Há dois inimigos nesse jogo que temos que enfrentar diversas vezes. Um deles é o cientista William Birkin, que contaminou a si mesmo com o vírus G transformando-se em um monstro gigante e poderoso. Ele é o principal inimigo do jogo e aparecerá para atormentá-lo do inicio ao fim da jogatina. O outro é o enorme e ameaçador Tirano, que os fãs apelidaram como Mr. X que no caso desse remake teve sua participação aumentada em relação ao original. O que acontece é que no Resident Evil 2 de 1998 ele era um protótipo do inimigo do tipo perseguidor implacável, aparecendo somente no cenário alternativo. A recepção da criatura foi tão boa que a Capcom na continuação decidiu utilizar esse tipo de inimigo durante boa parte do jogo. Sendo até o nome da criatura subtítulo do jogo em Resident Evil 3: Nemesis, desde então o perseguidor implacável tornou-se tradição na franquia e eles aproveitaram para utilizá-lo de uma forma mais intensa nessa nova versão.

Os modos extras do original também fazem seu retorno. Os minigames são passatempos divertidíssimos, há o modo 4th survivor, em que você controla Hunk, um dos  membros do serviço de segurança da Umbrella, que tinha como missão recuperar o vírus G. Nesse minigame você tem um arsenal considerável, mas precisa saber racionar os recursos, pois não há itens a ser adquiridos. Sua missão é chegar ao ponto de extração e você passa  por diversos cenários das campanhas principais. O outro modo é o tofu survivor, que é parecido com o 4th survivor, mas muito mais difícil. Você controla um tofu gigante e e não leva nada mais que algumas facas em seu arsenal. Sua missão também é chegar no ponto de extração. Em ambos minigames o tempo levado para completar o jogo fica como a sua pontuação.

Familiar, mas nem tanto

A estória obviamente tem como base o original de 1998, mas o jogo ainda toma algumas liberdades quanto ao seu desenrolar. Há uma cena logo no inicio onde os personagens exploram uma loja que não havia no original, que já dá o tom do jogo. Seu personagem é alguém recém-chegado na cidade, que não está a par da epidemia que está transformando os cidadãos em zumbis famintos e todo o caos que está ocorrendo em Raccoon City e se vê preso nessa cadeia de acontecimentos terríveis. Agora seu objetivo é sobreviver e achar uma forma de escapar dessa confusão sangrenta.

Você pode escolher entre Leon S. Kennedy e Claire Redfield. Leon está na cidade pois foi selecionado para trabalhar na força policial de Raccoon City. Infelizmente ele nunca chega a prestar serviço real, pois a polícia e as demais instituições da cidade já não existem mais, é um péssimo primeiro dia. Já Claire pretende encontrar seu irmão Chris, o herói do primeiro jogo, que repentinamente não entrou mais em contato com ela e está desaparecido. Ao invés de encontrar seu irmão ela encontra uma baita desventura.

Após o primeiro choque de realidade na loja, os dois se encontram e decidem ir juntos para a delegacia de policia da cidade, esperando achar outros sobrevivente e respostas para toda essa loucura. Os dois são separados após uma explosão e são forçados a seguir caminhos distintos. Daí há duas campanhas para cada personagem, cada uma seguindo um caminho. A campanha alternativa pode ser desbloqueada após terminar uma das primeiras, assim como era no original de PS1. O que muda são alguns detalhes na estória (mais especificamente no começo e no final), as resoluções dos puzzles e a distribuição de itens.

Em linhas gerais, Claire e Leon passam pelos mesmos cenários. A diferença está no que cada um encontra, há armas diferentes para cada um, e também aliados e inimigos. Leon possui um escopeta, um lança chamas, enquanto Claire possui um lança granadas e um atirador de cargas de choque. Leon durante seu gameplay encontra Ada Wong, uma enigmática personagem que afirma estar atrás dos responsáveis pelo desastre. Enquanto Claire encontra Sherry Birkin, uma garotinha de sete anos, filha dos cientistas William e Annette Birkin. Há seções em que você joga como esses personagens coadjuvantes. O destaque é a parte da Sherry, é interessante ver um mundo tão distorcido pelos olhos de uma criança. Essa parte da Sherry fornece uma tensão genuína.

Outros personagens que aparecem são o policial ferido Marvin Brannagh, que ajuda o protagonista nos momentos iniciais do jogo e o chefe Brian Irons, que parece estar ainda mais babaca que sua primeira versão. Outras aparições como a do dono de loja, me impressionaram. Possui uma carga emotiva muito superior que no do original. Nesses aspectos específicos de narrativa o jogo consegue até mesmo superar o clássico de 1998.

Conclusão

Há surpresas tanto para fãs, que sabem de cor e salteado o original e também para novatos. O jogo consegue capturar a atmosfera e todo um estilo dos primeiros Resident Evil e os executa de uma maneira atual de forma interessante, sem parecer forçado. Visualmente o jogo é impecável. Quedas de framerate aconteceram comigo pouquíssimas vezes e nenhum bug foi registrado, ao menos durante minha jogatina. Tal qualidade, que deveria ser básica de entregar um jogo completo e ainda mais com todo esse apuro técnico que a Capcom apresentou, é cada vez mais rara hoje em dia.

E o mais importante, esse é o Resident Evil que conheço. O sentimento é o de estar jogando um dos excelentes primeiros games novamente, mesmo a mecânica, design e tudo mais totalmente diferentes e redefinidos para uma nova geração. Só posso esperar que o jogo faça sucesso e que a Capcom mantenha esse estilo nos próximos lançamentos. Quem sabe no futuro Resident Evil 8 ou até mesmo um remake de Resident Evil 3? Só o tempo dirá.

Resident Evil 2 (Japão – 2019)
Desenvolvedora: Capcom
Estúdio: Capcom
Gênero: Survival Horror
Plataformas: PS4, Xbox One, PC

Essa análise foi feita a partir de uma cópia para PS4 cedida pela Capcom.