Um dos filmes que mais apanha injustamente dos fãs, críticos e literalmente qualquer pessoa interessada em cinema de super-heróis, é Homem-Aranha 3. O encerramento da trilogia de Sam Raimi com Tobey Maguire como o Cabeça-de-Teia, o filme foi lançado em maio de 2007, marcando uma década desde sua estreia, que fora marcada por uma expectativa gigantesca após o sucesso do anterior e a sugestão de adaptar alguns dos arcos mais populares do personagem, trazendo o tão esperado Venom como vilão da produção.

Não era apenas a promessa de um filme quando vimos o primeiro teaser trailer com o uniforme negro do Homem-Aranha, mas sim a promessa de uma grandeza maior do que os olhos poderiam contemplar. Infelizmente, seria impossível para o filme se equiparar ao alto pedestal onde estava sendo colocado, algo que explica também porque os “terceiros capítulos” sempre acabam ofuscados pela responsabilidade de seguir um capítulo intermediário excepcional – ver O Cavaleiro das Trevas Ressurge, X-Men: O Confronto Final e O Poderoso Chefão Parte III.

Mas aí vem o ponto deste artigo. Não acho que Homem-Aranha 3 seja um filme ruim, de forma alguma. É o pior exemplar da magistral trilogia de Sam Raimi, traz, sim, um roteiro defeituoso que carece de uma revisão e temos toda a complexa questão acerca da controversa dancinha emo, mas em seu núcleo é um bom filme que merece ser redescoberto, e até afirmo que possui certas características que não encontramos mais em filmes recentes do MCU, DCEU ou em qualquer exemplar da linha contemporânea de universos compartilhados.

A Direção

E o primeiro motivo é justamente Sam Raimi. Quando criança, não tinha a cabeça que tenho hoje, tampouco o olhar mais apurado para identificar fatores como movimentação de câmera, lentes ou mise en scène. Revendo Homem-Aranha 3 hoje, é inegável que Raimi seja um mago por trás das câmeras. Ele já havia se provado como um diretor de ação e narrativa excepcional nos anteriores, e essa marca autoral definitivamente não se perdeu aqui. Sua câmera é um dos discípulos claros do estilo de Steven Spielberg, usando planos longos que trocam o eixo e o enquadramento constantemente para acompanhar ações contínuas, nunca nos dando a impressão de que ainda estamos no mesmo plano – da mesma forma como Spielberg nos engana ao achar que houve um corte de um movimento para outro.

Tome como exemplo a cena em que dois policiais perseguem Flint Marko, o Homem-Areia, após reconhecê-lo na rua. O plano se inicia com o enquadramento em Thomas Haden Church caminhando, então vira-se para os dois policiais conversando, de volta para o fugitivo atravessando a rua, e então retorna para os policiais correndo ao seu encontro, sacando as pistolas enquanto escondem-se atrás de um caminhão – onde Raimi mantém a câmera um pouco mais intensa, enquanto segue o rosto de um deles. Vemos recursos assim durante todo o filme, especialmente durante as apresentações do próprio Marko e de Harry Osborn no balcão de um teatro, quando um suave movimento de grua levanta-se para mostrar o primeiro antagonista do filme sentado acima de Parker.

Raimi é um mestre nessas sutilezas e no jogo de câmera, e mantém esse mesmo domínio durante todas as ótimas cenas de ação. Uma decisão pessoal do diretor para este terceiro filme foi apostar em mais momentos com Peter sem a máscara do Homem-Aranha, visto que o diretor achava que o público “perdia” o lado humano do personagem durante as batalhas espetaculares contra o Duende Verde e Doutor Octopus. Com isso, temos duas excelentes cenas com o herói lutando desmascarado, ambas envolvendo o Novo Duende de Harry Osborn. Sim, por um lado isso revela a artificialidade dos efeitos visuais ao recriar os rostos de ambos os atores – algo que também acontece com Alfred Molina no segundo filme, diga-se de passagem – mas realmente oferece uma certa humanidade aos personagens, isso também porque Raimi está sempre atrás de tomadas de reação, contemplação e closes durante tais cenas.

Esse efeito torna-se mais evidente durante a segunda luta entre Peter e Harry, talvez a mais brutal e intimista de toda a trilogia, quando os dois ex-amigos se enfrentam dentro da mansão Osborn. Nenhum deles usa uniformes ou trajes especiais (o simbionte é escondido sob o casaco de Parker), rendendo uma luta de socos, chutes e arremessos que vão destruindo todo o luxo do ambiente – com os danos colaterais de janelas, mesas e paredes ajudando a nos dar uma ideia da força de ambos os lutadores. Aliás, é formidável como Raimi insiste em usar dublês para manter o “realismo” da cena, já que claramente perceberíamos se um James Franco digital fosse arremessado em uma pilastra de madeira ou através de uma porta de vidro; aqui, fica nítido que um ser humano realmente foi lançado, em uma tremenda valorização do trabalho desses profissionais.

E mesmo quando Raimi aposta na extravagancia de bonecos digitais se espancando, o resultado não deixa de entreter. Por exemplo, quando vemos versões CGI do Homem-Aranha e Venom lutando enquanto caem de um prédio, estamos diante de bonecões de borracha que nem parecem tentar esconder sua artificialidade enquanto a porradaria come solta. Porém, a forma como a câmera virtual de Raimi os segue é dinâmica a ponto de tornar a briga viva, com o fato de todo o pequeno confronto se desenrolar em um plano único auxiliando em manter o espectador preso à ação, que também deve muito às cores fortes dos uniformes e o fabuloso design de som, que confere força e impacto a cada soco, chute e teia disparada – com um foley acertadamente diferenciado para os golpes e impactos de Venom. Uma cena assim, de 10 anos atrás, ainda é mais estimulante e dinâmica do que as batalhas CGI chapadas de Superman e Zod em O Homem de Aço, por exemplo, graças à ausência de cor, efeitos sonoros impactantes e o uso intenso da câmera virtual (o granulado da fotografia certamente não ajuda). Isso se aplica a muitos outros longas do gênero, por sinal, e nem preciso dizer que é infinitamente melhor do que qualquer tentativa de se fazer uma cena de ação em qualquer um dos dois Espetacular Homem-Aranha.

E que pecado seria, no assunto de sequências digitais, não falar sobre a fabulosa cena que nos apresenta aos poderes do Homem-Areia. Inteiramente formada através de efeitos visuais e sem a presença de diálogos, vemos a reconstrução de Flint Marko através de minúsculos grãos de areia, rendendo um espetáculo deslumbrante que permanece convincente e impressionante até hoje – quase como se um curta animado da Pixar repentinamente tivesse sido colocado no meio do filme. A música de Christopher Young é soberba, assim como os pequenos resquícios de expressividade no rosto de areia de Marko enquanto ele é motivado pela foto de sua filha. Cite uma sequência de origem de vilão melhor que essa, e falhe miseravelmente.

O Roteiro

O roteiro tem problemas, isso é inegável. Não só a trama depende muito de coincidências para sair em disparada: um meteorito com parasita alienígena cai justamente no parque onde Peter e MJ estão, além de praticamente todos os personagens estarem conectados de alguma forma, com Peter salvando sua colega de classe Gwen Stacy, que é filha do capitão de polícia encarregado com o caso do assassinato do tio Ben, e também é “namorada” de Eddie Brock, o futuro Venom e rival de Peter no Clarim Diário… Tudo isso até que poderia ser aceito graças às convenções do gênero, além de tornar todas as peças do tabuleiro importantes, evitando figuras genéricas, mas nada soa mais artificial do que o Homem-Areia ter sido revelado como o verdadeiro responsável pela morte de Ben. É uma jogada que muda o arco do primeiro filme e não soa nada verossímil, e eu realmente preferiria que o roteiro não tivesse esse bloco gigante de história. Porém, isso é relevante para que Peter tenha um risco emocional e pessoal mais forte em sua batalha com Homem-Areia, além de ser a perfeita porta de entrada para a entrada do simbionte na trama.

Como resolver esse problema sem precisar fazer retcom na morte do Tio Ben? Uma decisão ousada e cruel, mas se o Homem-Areia tivesse acidentalmente matado a Tia May durante alguma cena de ação, não só o peso dramático serviria para o núcleo de Peter e o do simbionte, como também aumentaria ainda mais a raiva do protagonista e os riscos da história – potencializando também uma catarse mais poderosa e recompensadora no final, quando Peter acabaria perdoando Marko. Sem flashbacks, sem mudança de arco estabelecido e também traria o aspecto “monstro acidental” que os poderes do Homem-Areia agregam ao personagem. Mas até eu ficaria de coração partido em ver a morte da adorável personagem de Rosemary Harris.

Mas no que diz respeito ao desenvolvimento do trio protagonista, o filme acerta. Porque convenhamos, o desenrolar e clímax de Homem-Aranha 3 deixa claro que toda essa trilogia é sobre a relação dos três, visto que acompanhamos o crescimento e amadurecimento do trio ao longo dos filmes – mas sempre do ponto de vista de Peter, claro. A imagem dos três juntos durante o desfecho trágico do clímax é uma das mais fortes da saga, com o sacrifício de Harry (morto da mesma forma que seu pai, ironicamente) fortalecendo a catarse do personagem após três filmes odiando e repudiando o Aranha, e também servindo à moral de perdão que o longa explora também com Peter e Flint Marko.

Depois de um filme todo com Peter sofrendo para balancear sua vida dupla, quando Homem-Aranha 3 nos apresenta a um mundo ideal onde o herói é amado por todos, seu ego começa a subir, e o espectador se sente vingado por finalmente ver Tobey Maguire, a personificação suprema da bondade no mundo, enfim tendo tudo o que merece. Inteligente é o roteiro ao ter um Peter com a cabeça cheia justo no momento em que Mary Jane Watson passa por sua maior crise, sendo demitida do espetáculo da Broadway e tendo dificuldades em esconder o ciúmes que sente ao ver o alter ego de seu namorado sendo ovacionado por toda parte.

Por fim, vale apontar como o humor do filme é acertadíssimo. Nunca parece intrusivo ou mal colocado (ver TODOS os filmes da Marvel Studios), tendo a mesma elegância e criatividade dos anteriores, como a genial participação de Bruce Campbell como um gerente de restaurante francês e o sempre espetacular J.K. Simmons como J.Jonah Jameson, cujas aparições no núcleo do Clarim Diário são orgânicas e funcionais. E já que estamos falando de humor, hora de falar da cena mais engraçada da película: a dança emo! Muitos reclamam da cena ser ridícula e tosca, mas é justamente esse seu propósito! Quando vemos Tobey Maguire rebolando pelas ruas ao som de James Brown, é muito claro que a intenção de Raimi é nos fazer rir daquilo, oferecendo um respiro de humor após um ato tão sombrio envolvendo a segunda batalha com Harry.

Já a dança no clube de jazz, bem… Indefensável.

Venom

OK, vamos lá. Edward Brock Jr, o alter ego de Venom é habilidosamente introduzido no primeiro ato. Devo ser uma minoria aqui, mas só tenho elogios para a performance de Topher Grace, que consegue criar a antítese de Peter Parker em sua postura de nerd frágil e meio bobo (é o Eric de That’ 70s Show, pelo amor), mas que esforça-se para projetar uma persona mais cool e radical, com suas tentativas fracassadas de jogar cantadas em Betty Brandt, o puxasaquismo em relação a J. Jonah Jameson e até seu figurino que destoa do de Peter, trazendo uma jaqueta de couro preta por cima de sua camisa e gravata – isso sem falar no cabelo oxigenado e arrepiado.

Quando Brock finalmente é tomado pelo simbionte, temos uma excepcional adaptação do visual do Venom dos quadrinhos para o cinema, e isso evidentemente irritou os fãs de sua versão de papel. Este Venom não é bombado, gigante ou linguarudo como nas HQs de Stan Lee e Jack Kirby, e isso realmente não importa. Não fere à trama se este Venom lambe a cara do Homem-Aranha ou não, sendo a versão apropriada que o longa vinha construindo desde então, com a fisionomia de Topher Grace sendo mantida quase que intacta no uniforme – que sabiamente mantém os traços da teia do Homem-Aranha em sua confecção. Outra grande reclamação é o fato de que Venom está sempre “trocando” o rosto para o de Grace, mas já vimos que isso faz parte da decisão de Raimi em humanizar os personagens, e confesso que fico feliz por tal ação possibilitar mais da carismática performance do ator, que se diverte em criar um vilão movido por maldade – mesmo que todas as suas motivações estejam presentes desde o primeiro ato.

Durante a batalha entre o herói, Venom e Homem-Areia no clímax, é evidente que o vilão acaba terrivelmente desperdiçado e com menos tempo de cena do que esperávamos. Porém, é justificável se levarmos em conta que o simbionte é um mal que Peter enfrentava desde o segundo ato do filme, e que a rivalidade de Eddie Brock também já vinha de muito antes; e, indo mais fundo, a própria luta do protagonista contra o lado sombrio é o tema de toda a projeção.

Não digo que Homem-Aranha 3 seja uma obra-prima, e sem dúvida alguma é o exemplar mais fraco da primorosa trilogia de Sam Raimi. Porém, é um filme que acerta em sua mensagem e execução geral, com a exploração do lado sombrio do protagonista rendendo ótimos momentos e uma catarse poderosa, além de comprovar que Raimi é um mago por trás das câmeras, entregando algumas das melhores sequências que o gênero já viu. Vale apontar, sempre é bom puxar aquele DVD da prateleira e rever aquele filme que não envelheceu tão bem na memória.

O resultado pode ser melhor do que o esperado, e Homem-Aranha 3 se beneficia disso, principalmente quando percebemos o quanto esse filme tem em seu núcleo, que diversas outras produções atuais infelizmente não se preocupam mais.

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