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Asha Sharma, CEO do Xbox, diz que a indústria de games está em crise e precisa mudar

Asha Sharma, nova CEO do Xbox, admite que a indústria está passando por uma crise e apresenta sua visão de plataforma aberta para os próximos anos.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
4 min de leitura

A pessoa que herdou um problema enorme

Quando Asha Sharma assumiu o comando da divisão de games da Microsoft em 23 de fevereiro de 2026, substituindo Phil Spencer após quase uma década no cargo, ela recebeu junto com o título de CEO uma série de problemas que a própria empresa relutava em nomear publicamente. Queda de market share de consoles, margem operacional de 3% no ano fiscal, estúdios importantes com futuro incerto e uma estratégia de exclusividade que havia alienado parte da base de fãs mais fiel da plataforma. A primeira pergunta que ela fez ao analista Matthew Ball quando se sentaram juntos foi direta: “É possível consertar?”

Agora, com o Xbox Showcase 2026 nas costas e quase cinco meses de gestão acumulados, Sharma está falando mais abertamente sobre o que encontrou e o que pretende fazer.

O diagnóstico que ela deu à indústria

Em entrevista concedida após o Showcase, Sharma foi enfática ao colocar o Xbox dentro de um contexto mais amplo. Para ela, os problemas da divisão não existem num vácuo. A indústria inteira atravessa uma transformação estrutural, com custos de desenvolvimento em alta, consumidores cada vez mais divididos entre plataformas e a chamada “economia da atenção” tornando cada lançamento uma disputa não apenas com outros jogos, mas com o TikTok, a Netflix e serviços de streaming de música.

Sharma argumenta que a pandemia criou uma bolha de demanda por entretenimento digital que a indústria interpretou como crescimento permanente. Quando a demanda normalizou, os custos já estavam numa escala diferente. O resultado é um setor que gastou bilhões em aquisições e desenvolvimento sem transformar esse investimento em margens sustentáveis. No caso do Xbox, o CEO da Microsoft, Satya Nadella, foi explícito em junho ao dizer que a divisão de games precisa se tornar lucrativa, e que a empresa não pode continuar subsidiando um negócio indefinidamente.

O que ela quer construir

A visão de Sharma para o Xbox passa por uma plataforma mais aberta, com mais desenvolvedores de perfis diferentes e mais tipos de jogos além do blockbuster de US$ 200 milhões que cada vez mais raramente cumpre as expectativas financeiras. Ela usou o exemplo de Hideo Kojima para ilustrar o argumento: o próximo grande criador da indústria ainda não foi descoberto, e cabe ao Xbox criar o ambiente para que ele apareça.

Essa visão tem implicações práticas. No campo dos exclusivos, Sharma disse estar avaliando cada título individualmente, reconhecendo que a Microsoft precisa equilibrar sua identidade como publisher global, que se beneficia de alcance multiplataforma, com sua identidade como plataforma, que depende de conteúdo exclusivo para criar valor. Ela não prometeu reversão ao modelo antigo, mas deixou no ar a possibilidade de que alguns títulos voltassem a ser exclusivos. A decisão, segundo ela, virá de dados e estratégia, não de pressa.

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Uma CEO que chegou de fora e ainda está aprendendo

Sharma não tem histórico na indústria de games. Antes de assumir o Xbox, era presidente da divisão CoreAI da Microsoft, cargo que chegou após passagens pela Meta e pelo Instacart. A nomeação surpreendeu a indústria, especialmente porque passou por cima de Sarah Bond, segunda no comando de Spencer. A CEO chegou ao cargo prometendo que não toleraria “IA de baixa qualidade” nos jogos do Xbox e que a plataforma não seria inundada com o que ela chamou de “conteúdo sem alma gerado por IA”.

Ela também criou uma gamertag, AMRAHSAHSA, para começar a jogar os próprios produtos da empresa e entender o ecossistema a partir do ponto de vista do usuário. É uma iniciativa que ao mesmo tempo demonstra humildade intelectual e confirma o quanto ela ainda está em processo de aprendizado sobre um mercado que comanda há menos de meio ano.

O que o Xbox vai precisar provar

As declarações de Sharma pintam um quadro estratégico coerente, mas os resultados concretos ainda estão por vir. O Xbox Showcase de junho apresentou jogos promissores, como Gears of War: E-Day e o misterioso projeto OD, de Hideo Kojima, mas não resolveu as questões estruturais da plataforma. O hardware continua subindo de preço numa série histórica que deixou o Xbox Series X a US$ 300 acima do lançamento. O Game Pass perdeu assinantes no último trimestre. E a reestruturação interna que inclui possíveis fechamentos de estúdios menores ainda não foi finalizada.

Para Sharma, o teste real vai acontecer nos próximos trimestres, não nas entrevistas. Ela prometeu compartilhar números concretos sobre o estado da divisão com a equipe e com o público em breve. Quando esses dados chegarem, a conversa sobre se é possível consertar o Xbox vai ganhar uma resposta muito mais concreta do que qualquer discurso estratégico pode oferecer.

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