CEO da Epic chama política de IA da Steam de ‘irresponsável’ e ataca a Valve
CEO da Epic Games Tim Sweeney chamou de "irresponsável" a exigência da Steam de que desenvolvedores divulguem o uso de IA generativa em seus jogos.
A declaração que pegou mal no momento errado
Tim Sweeney, CEO da Epic Games, concedeu uma entrevista ao PC Gamer na semana passada, logo após o Unreal Fest em Chicago, onde apresentou o Unreal Engine 6 com integração profunda a modelos de IA como Claude e Gemini. Em algum momento da conversa, o assunto foi para a política da Steam de exigir que desenvolvedores divulguem o uso de IA generativa nas páginas de seus jogos. Sweeney chamou a exigência de “realmente irresponsável” da parte da Valve. A declaração gerou uma reação imediata da comunidade, e não foi exatamente no sentido que o CEO esperava.
O que Sweeney disse e o que ele quis dizer
O argumento central de Sweeney é que a obrigatoriedade de divulgação coloca desenvolvedores numa posição impossível. A Steam é a principal plataforma de PC para wishlist e divulgação de jogos. Se um estúdio usa IA generativa no desenvolvimento, precisa declarar isso na página do produto. Segundo Sweeney, isso cria o que ele chamou de uma “letra escarlate” que atrai uma comunidade de jogadores contrários à IA, dispostos a “matar o jogo” antes mesmo do lançamento. O CEO argumenta que desenvolvedores acabam forçados a escolher entre usar ferramentas que aumentam sua produtividade ou ter alguma chance de sucesso no mercado.
Sweeney também enquadrou o debate em termos de competição entre estúdios. Na sua visão, quem adotar IA no desenvolvimento vai produzir mais e mais barato. Quem não adotar vai perder espaço para quem adotou. Obrigar a divulgação, segundo ele, penaliza justamente os estúdios menores que mais se beneficiariam dessas ferramentas.
O conflito de interesses que a comunidade foi rápida em notar
A reação nos fóruns foi previsível. O Unreal Engine 6, apresentado semanas antes pelo próprio Sweeney, é construído em torno de integração com IA. A Epic tem interesse direto e declarado em normalizar o uso de IA generativa no desenvolvimento de jogos. Criticar a Valve por tornar esse uso visível ao consumidor, portanto, é defender o negócio da própria empresa tanto quanto defender os desenvolvedores independentes.
Um desenvolvedor da própria Valve respondeu ao debate no X, afirmando que “os únicos com medo disso são aqueles que sabem que seu produto é de baixo esforço.” A resposta ganhou bastante tração e resume o contra-argumento principal: a política de divulgação não proíbe o uso de IA, apenas informa o consumidor. Quem decide se quer ou não comprar um jogo produzido com IA é o jogador, não a plataforma.
O que a Valve exige na prática
A política atual da Steam, revisada em janeiro de 2026, é mais precisa do que a versão original de 2024. A exigência de divulgação se aplica em dois casos: quando IA generativa foi usada para criar conteúdo que está presente no jogo publicado, ou quando o próprio jogo gera conteúdo com IA durante o gameplay. Ferramentas de IA usadas internamente para aumentar produtividade, como assistentes de código, não precisam ser declaradas. É uma distinção relevante que o debate público frequentemente ignora.
Os números ajudam a dimensionar o crescimento do fenômeno. Cerca de 20% dos jogos lançados na Steam em 2025 incluíram algum tipo de divulgação de IA generativa, um aumento de 800% em relação ao ano anterior. Arc Raiders e Call of Duty: Black Ops 7 estão entre os títulos recentes com divulgação ativa. A tendência não dá sinais de reversão.
A posição que a Epic precisa defender
O debate em torno das declarações de Sweeney revela uma tensão real que a indústria vai precisar resolver nos próximos anos. De um lado, estúdios argumentam que IA generativa é uma ferramenta como qualquer outra, comparável a um motor de física ou a uma biblioteca de assets, e que exigir sua divulgação cria um estigma injusto. Do outro, consumidores argumentam que têm o direito de saber como o produto que estão comprando foi feito, especialmente num período em que a linha entre conteúdo humano e gerado por máquina está sendo redesenhada a cada mês.
A Epic Games tem um interesse claro em que a primeira posição vença. O Unreal Engine 6 é, em grande medida, uma aposta no futuro em que IA generativa está integrada a todo o processo criativo de desenvolvimento de jogos. Sweeney pode estar certo sobre a direção para onde a indústria está caminhando. Mas pedir que a Valve pare de avisar os consumidores sobre isso é uma posição que dificilmente vai ser aceita sem resistência, especialmente num momento em que a desconfiança em relação ao conteúdo gerado por IA está em alta.