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Crítica | 007 – Quantum of Solace

Uma continuação decepcionante.

Lucas Nascimento
Lucas Nascimento Redação
7 de junho de 2017 · 7 min de leitura
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James Bond já havia passado por reinvenções consideráveis ao longo de sua história, com a entrada de George Lazenby em A Serviço Secreto de sua Majestade e os dois filmes de Timothy Dalton servindo como grande exemplo, mas nada como aquela que havia dado tão certo em Cassino Royale. Daniel Craig havia transformado o personagem por completo, ao resgatar elementos mais introspectivos da criação original de Ian Fleming e jogar 007 em um universo mais realista e visceral, de forma também a bater de frente com o estilo de espião apresentado com Jason Bourne em sua recém-iniciada franquia com Matt Damon.

Com a recepção crítica e financeira acima do esperado, a nova era de James Bond agora traria um caminho promissor: veríamos o agente seguindo em uma trilha pessoal de vingança, com a mesma brutalidade e realismo que haviam tornado Cassino Royale tão memorável. Pois então, eis que 007 – Quantum of Solace acaba tornando-se vítima não só dessas expectativas monstruosas, mas também pela visão equivocada de seu diretor e pela turbulenta greve dos roteiristas do WGA em 2007.

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A trama começa imediatamente após o final do anterior, com Bond levando o Sr. White (Jesper Christensen) para um interrogatório com o MI6. Logo descobre-se a existência de uma organização nebulosa para qual o sujeito trabalha, que está conectada não só com a morte de Vesper Lynd (Eva Green), mas também com as negociações criminosas do empresário Dominc Greene (Mathieu Amalric), que usa uma de uma ONG ecológica como fachada para controlar os fornecimentos de água e petróleo na Bolívia. Aliando o útil ao agradável, Bond vai atrás dos negócios de Greene, ao mesmo tempo em que mantém sua cruzada para vingar a morte de Vesper.

Um Homem torto num caminho torto

Consistência é um dos grandes problemas no roteiro de Quantum of Solace. O primeiro ato, por exemplo, traz um fio narrativo muito falho e que depende apenas das inúmeras cenas de ação para manter a história seguindo em frente, com Bond sendo encurralado por assassinos, encontrando pessoas aleatórias que os levam até lugares diferentes, e por aí vai. Não há nada daquela inteligência que Neil Purvis, Robert Wade e Paul Haggis ofereceram no longa anterior, com o trabalho de espionagem tomando as rédeas e dando espaço para perseguições, pancadarias e afins apenas como consequência de eventos, não como causa. O envolvimento da personagem de Olga Kurylenko é outro elemento completamente aleatório e sem muita justificativa, com Camille servindo apenas como uma aliada que convenientemente tem uma dívida pessoa com Greene e seus associdados. A interação completamente artificial entre os dois também torna todas as cenas com a jovem um exercício de futilidade, ainda que ambos os atores sejam carismáticos.

Não ajuda também o fato de que Dominic Greene é um dos antagonistas mais sem sal de toda a franquia. Ainda que Mathieu Amalric seja um excelente ator e preencha o vilão com um cinismo e ironia que praticamente transbordam da tela, não há nada que torne o personagem particularmente interessante ou memorável, seja por seu comportamento – nada fora do comum – ou em suas ações ou grande plano a ser detido por Bond. A questão da crise da água e a manipulação de Greene através de um programa ecológico é um assunto que foi muito discutido na época, e que permanece relevante até hoje, mas o roteiro é raso demais para oferecer alguma profundidade – novamente, um reflexo de como a crise do WGA afetou a produção, que também apresenta uma duração consideravelmente mais curta do que seus antecessores, batendo nos 106 minutos. Com isso, tudo em Quantum é rápido e sem o peso ou desenvolvimento necessários.

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O único elemento que pontualmente funciona é o foco inteiramente em Bond. A forma como enxergamos a força motiz de 007 como um perigo para aqueles a seu redor é um dos pontos mais fascinantes do personagem, e aqui o trio de roteiristas consegue tirar algumas situações da cartola para aprofundar o desenvolvimento iniciado no anterior. Bond é cada vez mais instintivo e age sob sua própria conduta, ignorando e passando por cima das intervenções de M (Judi Dench), que desesperadamente tenta impedi-lo e enviar outros agentes para detê-lo. Isso ocasiona o breve arco da agente Fields vivida por Gemma Arterton, que é enviada para trazer Bond de volta à Londres, mas acaba assassinada pela organização de Greene – em uma gritante homenagem à Goldfinger ao trazer seu corpo banhado por petróleo. Nada disso é muito relevante até o ponto em que M revela que Fields era uma simples empregada de escritório, e que a rebeldia de Bond acabou ocasionando em sua morte. São questões que funcionam bem quando temos tempo para discutí-las, e felizmente Daniel Craig segue mantendo um trabalho impecável em sua versão mais brutamontes do personagem – aqui trazendo um senso de humor mais presente, e formidável.

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Fora dos eixos

Não bastasse a trama que já não é das mais interessantes, a direção de Marc Forster é outro grave demérito do longa. Claramente inspirado pelo estilo de Paul Greengrass em seus dois filmes de Bourne, Forster aparentemente acredita que o segredo de uma boa cena de ação é a câmera incessante e uma montagem frenética, mas acaba prejudicando toda a boa execução dos dublês e também a grandiosidade dos set pieces. Não é possível seguir nenhuma ação ou movimento, já que os cortes de Matt Cheese e Richard Pearson nunca oferecem o bastante para respirar, e a câmera de Forster ou é inquieta demais ou aposta em enquadramentos fechados e pouco práticos para determinadas ações – basta observar a confusa perseguição de aviões, completamente ofuscada pela mise em scène desajeitada e o excesso de computação gráfica. Talvez a ação ali seja boa, mas não é possível enxergar o que acontece, tendo a direção e a montagem como principais culpados – mas o compositor David Arnold sai ileso, já que mantém um ótimo trabalho na criação de temas musicais empolgantes e que tentam promover a excitação que os recursos visuais falham em promover.

Forster também parece extremamente descontrolado em suas intenções. Basta observar como Quantum of Solace arrisca literalmente todas as opções de cenas de ação possível, com perseguições a pé, de carros, barcos, aviões e tiroteios, e infelizmente nenhuma delas atinge um nível realmente memorável – ainda que a corrida pelos telhados da Itália seja bem sucedida em expressar a velocidade da ação e também remeter ao comportamento implacável de Bond que vimos durante a antológica sequência de parkour em Cassino Royale. Talvez a única grande exceção, onde o estilo mais vertiginoso de Forster realmente funciona, é a cena da Ópera, onde Bond enfrenta capangas de Greene durante uma apresentação de Tosca. É uma sequência fantasmagórica e que mescla com dinamismo cenas da peça com a ação do longa, e a câmera incessante ganha um contexto muito mais apropriado, favorecido também pela edição de som que sabiamente arrisca momentos de puro silêncio enquanto toda a violência corre solta.

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E se há um aspecto em Quantum que realmente leva pedradas injustamente, é sua divisiva canção-título. Another Way to Die traz a improvável junção de Alicia Keys com Jack White, em uma música pop que traz fortes elementos do rock típico de White, que marcam também um belo design gráfico durante os créditos de abertura, trazendo de volta as clássicas silhuetas femininas e utilizando a textura do deserto para criar algo visualmente espetacular. Nada muito relevante ao filme si, mas só queria deixar marcada aqui minha defesa a esta ótima canção.

É triste que o caminho tão brilhante deixado por Cassino Royale tenha sofrido um desvio tão confuso e torto com Quantum of Solace, que falha ao compreender os elementos que tornaram este novo James Bond tão memorável no antecessor. Porém, mesmo com uma trama flácida e uma direção equivocada, Daniel Craig consegue sobressair-se e manter a narrativa sinuosa minimamente interessante graças à sua ótima performance. Felizmente, a franquia de 007 ainda encontraria o real conforto prometido pelo título em sua próxima aventura.

007 – Quantum of Solace (Quantum of Solace, Reino Unido – 2008)

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Direção: Marc Forster
Roteiro: Neil Purvis, Paul Haggis e Robert Wade
Elenco: Daniel Craig, Mathieu Almaric, Olga Kurylenko, Judi Dench, Jeffrey Wright, Gemma Arterton, Giancarlo Giannini, Jesper Christensen, David Harbour, Rory Kinnear
Gênero: Ação
Duração: 106 min

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Tags: #007 #Daniel Craig #David Harbour #Gemma Arterton #Giancarlo Giannini #Jeffrey Wright #Jesper Christensen #Judi Dench #Marc Forster #Mathieu Amalric #Neil Purvis #Olga Kurylenko #Paul Haggis #Quantum of Solace #Robert Wade #Rory Kinnear
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Lucas Nascimento
Escrito por

Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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