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“Eu tenho feito a minha vigia toda noite até o amanhecer. Mas esta é a pior hora. Você sabe como ela é chamada? Os antigos costumavam chamá-la de ‘A Hora do Lobo’. É a hora quando a maioria das pessoas morrem…e a maioria das crianças nasce. É nessa hora que os pesadelos vêm até nós…e se estamos acordados…estamos com medo!”

Essa crítica poderia se alongar por vários parágrafos de análise até chegar no ponto de citar esse marcante diálogo presente que define toda a essência por trás dessa macabra obra de Ingmar Bergman. Afinal, o que seria de uma crítica de um dos filmes desse diretor em particular se não reservasse um espaço aqui para comentar uma de suas mais icônicas marcas: os diálogos. Sempre cobertos e carregados de uma sutil, porém intensa forma de revelar a mais pura e verdadeira essência por dentro do íntimo sentimental de cada indivíduo humano de seus filmes.

Por vezes assumindo a forma de desabafos, relatos ou testemunhos, ou no caso que se configura no diálogo citado acima, um pouco de cada vertente. Pois se há uma definição precisa e que classifique perfeitamente sobre o que A Hora do Lobo se trata, você com certeza assistiu ao filme errado. Ao mesmo tempo que é um filme que assume as características de uma obra que baseia seu real significado essencial e estrutural na base interpretativa do espectador, é também um filme que é aquilo exatamente que se apresenta: um conto macabro sobre a essência mais íntima do medo.

Por quanto a trama tem seu foco, em momentos quase oníricos, no casal formado pelo pintor Johan e sua esposa grávida Alma (interpretados pelos dois eternos astros de Bergman, Max Von Sydow e Liv Ulman) quando se mudam para uma ilha bastante afastada da sociedade. Lá, em meio a intensos conflitos de seu relacionamento, o casal entra em contato com o repentino aparecimento misterioso de um grupo de pessoas habitantes da ilha, aparentemente pacatos e pacíficos. Até que cada uma de suas aparições e contatos com o casal passam a trazer angústias psicológicas ainda maiores às suas vidas, levando-os a relembrar fatos passados e questionar a própria lucidez com quem convivem entre si.

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A Criação do Medo

Desde a cena inicial, Bergman busca empregar sua câmera e as pessoas por trás dela, como documentaristas dos relatos que sua única testemunha, a esposa Alma, dos estranhos ocorridos naquela ilha está para lhes relatar. Não à toa pode-se ouvir brevemente o próprio Bergman falando por alguns momentos com sua equipe, e se justapõem exatamente como os entrevistadores e espectadores silenciosos da história que está para começar, focando sua atenção no olhar misterioso da jovem esposa.

Até nisso, o diretor mostra estar brincando com o fator “baseado em uma história verídica”, algo muito recorrente do gênero hoje em dia para vir a construir sua narrativa de grande personalidade experimentalista. Ao mesmo tempo que assume diversos traços bem pessoais de Bergman dentro da história sombria em volta do casal. Não à toa, a própria Ullmann estava grávida de Bergman na época das filmagens, coincidentemente como sua personagem Alma está do seu marido Johan.

Entregando assim o soberbo motivo da atriz nesta e nas subsequentes cenas entrega uma performance com imenso naturalismo, dando a sensação que ambas personagem e atriz se misturam em suas catarses de emoções diversas dentro da situação matrimonial por qual conviviam, tanto metaforicamente e figurativamente como se vê em cena. E claramente se nota como Bergman se identifica fortemente com a crise artística pelo qual o personagem de Johan (um igualmente formidável Max Von Sydow) está enfrentando e todas suas sombrias angústias, e egoístas e frias ações para com sua esposa.

É daí que se procria o verdadeiro sentido de medo e agonia que Bergman desenvolve em A Hora do Lobo, através dessa pacata ótica de um humilde casal que vive recluso em uma ilha. Onde que de início tudo parece ser um confortante sonho, com a felicidade e amor presentes nas singelas trocas de gestos entre ambos marido e esposa, principalmente partidos da pureza de Alma em contrapartida à casca grossa de Johan, que não resiste ao seu toque e carinho. E que após a chegada dos estranhos vizinhos habitantes da ilha e do desencadeamento das recordações e memórias tristes passadas do casal torna-se um degradante pesadelo, que aos poucos nos faz testemunhar o casal ter sua sanidade completamente abalada.

Daí que há quem argumente que a aparição dos estranhos vizinhos seriam encarnações vivas dos medos internos do personagem de Johan (e do próprio Bergman) vindo para o assombrar. Mas se engana que o “terror” da obra advém da pura e simples presença desses seres maléficos, e sim de como os próprios surgem à partir dos conflitos de segredos íntimos e sentimentos resguardados que se instala entre Alma e Johan. Sempre apresentado seguindo este teor onírico em sua narrativa que se usa de uma montagem nunca aparentemente linear ou interligada em sequência com seus desenrolares.

Tenha-se em conta o fato de que este é um filme completamente diferente de tudo que Bergman já havia feito em sua carreira. Feito em dobradinha com o seu extraordinário Persona, duas obras que já mostram sua revolução formal, estética (até mesmo ideológica) e quase total transfiguração do cinema que fizera até aquele momento. Marcando o início de suas películas iconoclastas e ainda mais psicológica e emocionalmente intensas.

Seguindo isso, ele busca modificar muito da estrutura narrativa básica e familiar, mesmo que involuntariamente, ao longo do filme. Apenas note como os trinta primeiros minutos são montados como uma espécie de diário, onde cada sequência nunca se completa definidamente e todas são intercaladas por fades enquanto Alma relata os acontecimentos e dentro deles há flashbacks ou visões quando esta lê o diário secreto de Johan. Um ritmo quase pausado e lento que abruptamente muda quando as fusões de imagem ou um simples cortes evidenciam-se mais frequentes e assumindo o que antes era a suposta realidade monótona do casal, tornando tudo em um sonho (ou pesadelo) vivo. Com esse ponto culminante sendo formado na aparição do título do filme só quase uma hora após o início de sua projeção, indicando o verdadeiro início do terror Bergmaniano.

E por mais que alguém do público casual de filmes de terror atuais possam a discordar, a fama que recai sobre A Hora do Lobo ser o único ‘filme de terror’ de Ingmar Bergman, não é tida à toa. Não por seguir intuitos de cenas viscerais ou de altíssimo teor de violência do gênero e sim por se usar elementos mais rebuscados do mesmo. Para além de disfarçar sua trama ficcional com uma alcunha de fatos verídicos e sua montagem alucinógena e coberta de mistérios, Bergman ainda emprega na caracterização dos misteriosos habitantes da ilha diversos elementos góticos pitorescos para elevar suas caricaturas macabras.

Como o elemento da misteriosa moradia onde habitam, um suposto palácio (mal-assombrado), tanto em suas características físicas que marcam traços quase expressionistas modernos envolvidos em uma aura surrealista, quanto na velha senhora que retira seu chapéu, deixa o rosto cair e guarda seus olhos dentro de taças, ou o homem corvo que maquia suas vítimas como palhaços, manipula um teatro de fantoches vivos e quando está na ofensiva, ataca suas vítimas com picadas letais.

Ainda se utilizando de uma fotografia monocromática, de saturação quase neorrealista e que rima com o tom soturno do filme, o que eleva a obscuridade da trama, que auxilia a angústia a que os espectadores e o próprio casal são submetidos. Mas tudo isso presente em uma película que ainda se baseia grande parte do seu horror de forma inteiramente subjetiva, onde a cada cena quer utilizar a mente de seu espectador para interpretar e refletir sobre a agonia do casal que rapidamente se mostra mais e mais desestruturado.

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O Terror Bergmaniano

O que muito pode intrigar o espectador que assiste à A Hora do Lobo, são as várias possibilidades de interpretação que o filme de Bergman traz. Claro que não é o arrogante caso de classificá-lo como sendo “grande demais para mentes pequenas”, porém o filme de Bergman mostra querer “fugir” do seu espectador, no sentido de uma resposta fácil para tudo que ocorre de bizarro e abstrato ao longo da narrativa. Com cenas que mostram mais do que dizem, ou sequer se conectam em uma linha de raciocínio linear, e que apenas se interconectam em uma linha de plausibilidade quando obriga ao seu espectador investir nessa história e refletir sobre ela por um tempo após a sua conclusão.

Por isso é justo dizer que A Hora do Lobo é realmente um filme para poucos, que infelizmente desagradará a muitos em uma primeira visita mas saberá entregar uma das mais ricas e complexas experiências cinematográficas, realizadas por um diretor em seu ápice, para aqueles que se permitirem se entregar de alma e mente à obra.

Pois como dito antes, a força do texto e da direção de Bergman aqui se mostram exatamente aí, onde mesmo que sua base de trama e narrativa com personagens e desenvolturas estejam bem apresentadas, a interpretação de tudo e de seu ‘real’ significado ficam solenemente à cargo do espectador.

O diretor sempre teve total consciência do seu poder de criar a aura melancólica de seus filmes através da sua sucessão imagética, que formava o drama alegórico e poético de suas ricas narrativas, ele consegue fazer o mesmo aqui ao aplicar sua técnica para criar o mistério soturno de A Hora do Lobo. Onde à cada nova cena, Bergman tira o chão do espectador e o deixa em contato muito próximo com as raias de loucura pelo qual seus personagens passam.

A “Hora do Lobo” poderia ser a madrugada, o momento do dia onde estamos mais sozinhos em nosso íntimo reflexivo de nossas vidas, e quando estamos mais suscetíveis à ser visitados por nossos medos mais letais. Não à toa Alma se mantém acordada nas madrugadas junto de Johan ouvindo seus devaneios, e sempre vão dormir à luz do dia, a hora em que os habitantes misteriosos aparecem e as suas memórias antigas tomam cena, seus pesadelos tomando forma.

A ilha (a amada Fårö de Bergman), o palco pelo qual todo o filme se passa, poderia simbolizar o inconsciente humano, com suas muitas neuroses, repressões e traumas ou apenas um lugar geograficamente perfeito para um terror psicológico, onde não há nenhuma escapatória. É a teatralidade de Bergman dentro de um surrealismo macabro. Teatralidade essa que o fotógrafo Sven Nykvist acompanha e aqui prima pelo extremo contraste e por iluminações em primeiro plano, deixando os espaços mais afastados na penumbra ou na completa escuridão, com sua iluminação se baseando apenas no uso de velas, ao lado de ângulos baixos bem básicos e planos descritivos, com foco sempre nos rostos dos personagens ou em ângulos abertos capturando toda a ação, e que tornam o filme de caráter bastante simples em termos técnicos.

Essa simplicidade é sombriamente intensificada pela música e pela direção, resultando em um pequeno inferno de medos tenebrosos que se culminam em um clímax de caráter aterrorizante. Não pelo seu simples fator visual amedrontador, mas sim pela humilhação que seu protagonista finalmente enfrenta quando ele se sucumbe aos desejos de seus captores maquiavélicos. Com o cadáver de uma outrora amante voltando à vida para lhe satisfazer sexualmente; beijar os pés de uma velha almejando prazeres carnais; tendo de viver sob constante tortura ao meio dessas assombrações para todo sempre, por ter escolhido se sucumbir ao mal de seus desejos inesgotáveis, ao ponto de largar e machucar o único amor verdadeiro que estava bem ali do seu lado o tempo todo.

Para Bergman, não há desejo supérfluo e egoísta do ser humano que será conquistado sem sacrificar à sua própria “alma” e ser devorado pelo mal faminto e tentador que o cerca. A fraqueza do espírito, que desperta a essência maléfica e vampiresca do medo. Mas isso só é uma entre diversas sugestões e explicações para o real sentimento e sentido por trás da inspiração que Bergman teve para a criação dessa sua obra.

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O Significado do Medo

Em alguns momentos do filme podemos chegar a traçar certos elementos que o torna um óbvio precursor de filmes como Cidade dos Sonhos de David Lynch. Ambos igualmente podendo ser classificados como exercícios metafísicos de linguagem e contraposição de ação e imagens, mas também partem de um componente dramático de indivíduos vivendo sob um constante conflito de suas profundas emoções resguardadas entre si sendo as desencadeadoras dos pesadelos que as perseguem, assombram e alteram seu subconsciente e a própria realidade. E que no final, ainda são obras que terminam fazendo diversas perguntas e que se recusam em oferecer respostas simples e fáceis para o que sua misteriosa execução esconde.

É um relato de almas perdidas na beira de um abismo de suas dúvidas e aflições que os cercam como uma força maligna; um testemunho ficcional em execução, mas coberto de realismo em suas características dramáticas de uma vítima do pior que o medo pode proporcionar em seu pior estado, capaz de destruir anos de sentimentos vividos e verdadeiros, sendo capaz de alterar a própria realidade. Um desabafo de um artista sobre suas aflições mais íntimas e que tomam forma de uma obra ficcional de alta complexidade e emocionalmente aterrorizante em razão do quão verdadeira é a sua compreensão da alma humana.

O tipo de cinema que não mais se faz nos dias de hoje.

A Hora do Lobo (Vargtimmen, Suécia – 1968)

Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Ingmar Bergman
Elenco: Max Von Sydow, Liv Ulman, Ingrid Thulin, Gertrud Fridh, Georg Rydeberg, Erland Josephon, Naima Wifstrand, Gudrun Brost
Gênero: Terror, Drama
Duração: 90 min.

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