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Clint Eastwood é um dos grandes atores de sua geração. Em seu currículo há trabalhos fascinantes, tanto no campo da direção quanto no da interpretação. Filmes como Os Imperdoáveis e As Pontes de Madison, produções diferentes em que Clint dirigiu e atuou magnificamente, dando maior profundidade para a história e criando um elo perfeito com o telespectador, são filmes que o diretor mostrou todo o seu talento no jeito de criar uma bela história que tenha elementos cativantes em fisgar o público. A Mula é dessas tramas que podem parecer simples em um primeiro momento, mas que são muito mais do que o apresentado. Não é apenas um relato sobre o tráfico, há algo a mais nele, até porque quem está na direção e está o protagonizando é o mestre Clint Eastwood.

Na trama, Earl Stone é um idoso que tem entre suas paixões os lírios, tal flor é uma de suas belezas em uma vida envolta a dramas não resolvidos com sua filha e sua ex-esposa. No meio dessa questão familiar aparece a oportunidade de trabalhar como mula para o tráfico, fato que o idoso aceita a rigor. Earl encontrou um jeito de conseguir dinheiro com facilidade, mas isso é apenas um fator a mais para que se sinta hábil para algo a mais. 

É uma produção que tem como tema central a investigação, por parte dos policiais acerca de tentar encontrar os responsáveis pelo tráfico, e por parte de Earl, em suas idas e vindas, em levar o tráfico até seu destino final. Há uma divisão em relação a narrativa, em primeiro momento ao abordar o drama pessoal do idoso e depois em desenvolver toda a história colocando os policiais em ação e mostrando os métodos dos traficantes em conseguir seus objetivos. Do segundo para o terceiro ato há uma descompensação em relação a narrativa, justamente porque Clint está interessado em criar a trama de Earl e se aprofundar em outras questões para só depois voltar para o seu relacionamento familiar, algo que havia tido bastante destaque de início, mas que depois foi meio que deixado de lado. 

O  tráfico de drogas é algo que ganha cada vez mais destaque nas produções americanas desde que Breaking Bad estourou com essa temática. Não que o tráfico não tivesse sido abordado antes em outras produções, mas atualmente há muito mais interesse em focar em situações humanas e que mostrem a truculência dos traficantes e suas artimanhas. No caso de A Mula o foco é mostrar um senhor de idade avançada sendo o leva e traz dos carregamentos e não o cara que faz tudo, como ocorre em Breaking Bad, em que Walter White era o produtor de drogas. A motivação para Earl entrar nessa poderia ter sido melhor trabalhada, ele caiu nessa situação meio que sem querer, mas mesmo assim Clint Eastwood poderia ter perdido mais alguns minutos encorpando a circunstância.

Apesar do roteiro simples, Clint entrega um filme que deixa sua mensagem. Primeiro, obviamente, é que o crime não compensa, algo que está bastante óbvio, até pela investigação dos policiais e pelo seu final. Segundo é a questão da família e do drama do personagem principal, algo que Clint já trabalhou em alguns de seus filmes, mas que aqui está muito mais presente e aprofundado. O drama de Earl envolve muito mais que a falta de afeto, mas também a solidão e o jeito que tratou sua família no passado. 

Todo o filme lembra bastante um episódio da série da Netflix Narcos, mais especificamente a versão mexicana que mostrava o tráfico de drogas no país que faz fronteira com os EUA. Mas há uma diferença que é justamente no tom em que Clint Eastwood escolhe para contar a história. Prefere fazer algo mais sensível, trabalhado e mais leve que fazer algo extremamente violento e didático, algo que Narcos: México fez de forma acertada. Claro que todo o roteiro foi trabalhado pensando no personagem de Earl Stone e nada disso teria ficado, possivelmente, bom sem a atuação marcante de Clint Eastwood

É uma interpretação que parece ser a despedida de Clint do cinema. Não apenas por interpretar um idoso com problemas familiares, mas justamente pelo drama empregado, os diálogos, tudo parece ser direcionado para uma despedida. Muitas das interpretações de Clint Eastwood no cinema ficaram na memória do telespectador, mas esta, em especial, irá marcar bastante. Diferente do papel que fez em Gran Torino, em que vivia um homem amargo, aqui faz um homem que se não é feliz pelo menos tem um senso de humor e que luta para voltar aos dias atuais e tentar se redimir de seus atos.

O elenco de suporte de A Mula é algo que impressiona. São estrelas do quilate de Bradley Cooper, Laurence Fishburne e Michael Peña que fazem o papel de personagens que estão do outro lado da lei, no caso, os investigadores. Infelizmente não há muito destaque acerca destes personagens, apenas no terceiro ato começam a ganhar alguma relevância, mas mesmo assim é são papéis pequenos em relação ao que realmente poderia ter sido feito. Possivelmente por Clint Eastwood não querer algo que fosse mais investigativo e corrido e que fosse mais centrado em Earl que o diretor acabou por tirar o peso da parte policial. Mas mesmo assim, sem aparecer muito, tanto Michael Peña quanto Bradley Cooper estão ótimos em seus papéis. 

Não é o melhor filme em que Clint Eastwood atuou, mas está sim entre os papéis mais interessantes de sua carreira. Tira a aura de homem truculento e sério e deixa um ar mais humano e realista para um homem que viveu de tudo no cinema, desde homens durões a personagens sem expressão alguma de felicidade. É uma produção muito bem dirigida, na realidade é uma de suas melhores direções em tempos, muito melhor, que por exemplo, o fraco 15h17 – Trem Para Paris. Não se sabe se é uma despedida de Clint Eastwood dos cinemas, mas se for é uma despedida que fecha com chave de ouro o seu ciclo. 

A Mula (The Mule, EUA – 2018)

Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Nick Schenk, Sam Dolnick (Inspirado no artigo do New York Times)
Elenco: Bradley Cooper, Clint Eastwood, Manny Montana, Michael Peña, Taissa Farmiga, Andy Garcia, Laurence Fishburne, Alison Eastwood, Jill Flint
Gênero: Crime, Drama, Thriller
Duração: 116 min

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