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Uma perguntinha aí para vocês cujo já virou um costume seu desmerecer e criticar facilmente qualquer coisa que venha de Michael Bay como diretor, assim como facilmente tiram sarro de qualquer um que sequer cogite o defender. Já passou pela sua cabeça a remota possibilidade de que o sujeito, sim o mesmo responsável por cinco filmes Transformers, possa mesmo ter feito um filme bom em vida? Bom, não deixem ser esse texto te impedir de rir dessa pergunta aparentemente xula, e critiquem como e o quanto quiser qualquer filme da sua filmografia.

Porém, um que certamente merece seu respeito e atenção, que também promete te entregar verdadeira e pura diversão à moda antiga e que raramente se fazem hoje em dia, esse filme se chama A Rocha. Mas o que um filme aparentemente tão clichê tem a entregar de melhor do diretor que já quase virou um sinônimo de ruindade? Estamos aqui para esclarecer porquê!

A trama com certeza não soa a mais original, mas com certeza possui os elementos que imediatamente despertam o interesse. Consistindo basicamente na tomada da ilha de Alcatraz por uma pequena força militar de ex-fuzileiros sendo liderados pelo general Francis Hummel (Ed Harris), mantendo 81 turistas como reféns e convicto de mostrar seu ponto de vista “antipatriótico” ao governo Americano, mantendo ogivas de gás VX apontadas para São Francisco e ameaçando que as lançará a menos que suas exigências sejam atendidas.

Agora o governo deposita sua esperança em Stanley Goodspeed (Nicolas Cage), um desajeitado bioquímico do FBI que é o único que sabe como desarmar as bombas, mas irá precisar de alguém que conheça Alcatraz o suficiente para infiltra-lo lá dentro. Esse homem é o ex-agente de inteligência britânico John Patrick (Sean Connery), que não tem motivo nenhum para obedecer ou ajudar os americanos que o tinham preso por anos.

Ou seja, Duro de Matar na ilha de Alcatraz? Duro de Matar na ilha de Alcatraz sim senhor! Tem como isso dar ruim? Pelo visto, nem um pouco!

Um Autor em Ascensão

Para entender um pouco do quanto e porquê Michael Bay consegue acertar tanto aqui, apenas vejam o resumo de sua carreira até aqui pré e póstumo à A Rocha. Vindo direto de sua extensa carreira como diretor de videoclipes e seu debut com o divertido Bad Boys, Bay estava chegando e já provando algumas coisas no mercado cinematográfico.

A primeira era sua fome para iniciar uma carreira no cinema e fazer os filmes que lhe dessem na telha como sua forma de diversão definitiva. A segunda é que ele mostrou conseguir fazer milagres com um orçamento tão baixo em Bad Boys, que pode não ser nem lá um ótimo filme mas é tão despretensioso em sua premissa e parece que é realizado com tanto investimento quanto à de um blockbuster da época, cheio de movimentação de câmera frenético, câmeras lentas estilizadas, ótimas locações de Miami como seu palco, e sua dupla central de Will Smith e Martin Lawrence claramente se divertindo.

Agora com A Rocha, ele não só ia mostrar do que era capaz com o triplo do orçamento, mas mostrar que anos de videoclipe não seriam em nada um obstáculo para o diretor mostrar que ele tinha um estilo muito próprio que o tornaria no Michael Bay que conhecemos hoje e que depois faria filmes como Armaggedon entre outros maiores ainda, e que já sabia aqui uma coisa ou outra o bastante para realizar, não só apenas divertido, mas um ótimo filme de ação.

Mesmo que a trama contenha tudo capaz de desinteressar um público mais exigente de hoje ou simplesmente os cansados do mais do mesmo, mas acreditem quando digo que Bay faz o melhor com a premissa que lhe é dada aqui. Primeiramente por não seguir à primeira vista o clichê de fazer seus dois protagonistas heróis os fodões indestrutíveis (pelo menos um deles) que vão chegar na ilha matando tudo que veem pela frente e cumprir seu dever patriótico. E sim quebra os tipos e estereótipos de expectativas que poderíamos ter de cada um, ambos mocinhos e vilão.

Com o filme surpreendentemente devotando boa parcela de seu tempo inicial em querer apresentar ambos seus heróis e vilões antes de sequer porém o plano em ação. Pois A Rocha além de um ótimo filme de ação, é também um filme, acima de tudo, de personagens.

Chamem isso de engordar um roteiro de premissa simples, coisa que Bay sempre fez de fato, mas os personagens são tão bem escritos (sim você acabou de ler isso sobre um filme de Michael Bay) e tão bem escalados que você tanto torce por ver tanto as interações cheias de fisgadas entre Goodspeed e Patrick, como ver Hummel com seus discursos inspiradores e apontando o dedo sem dó no militarismo americano, representada de forma facilmente odiável diretor do F.B.I., Womack (John Spencer). Por isso que é uma certa dureza assistir esse filme pois você realmente acaba torcendo para ambos os lados em jogo.

De um lado você não só simpatiza com o Hummel de Harris, como Bay não só faz questão de constantemente de mostrar como seu “vilão” está longe de ser a pior pessoa do filme, com os capitães Frye e Darrow (Gregory Sporleder e Tony Todd) sendo os verdadeiros psicopatas mercenários na ilha com que Hummel deve lidar impondo sua liderança; como também o literalmente glorifica em sua cena intro que parece uma bela propaganda de luto militar, que te faz imediatamente  entende tudo pelo que o personagem está lutando em suas motivações bem compreensíveis.

E do outro lado apresentando o Goodspeed de Cage como esse profissional devotado e de personalidade apreensiva, e com medo de lidar com a futura responsabilidade com um filho à caminho, é o tipo de protagonista favorito de Bay, o desajeitado bem intencionado e que busca provar seu valor, que veríamos novamente em Armaggedon com o Frost de Ben Affleck e no próprio Transformers com o Sam Witwicky de Shia LaBeouf. Com Cage tanto convencendo na vulnerabilidade emocional do personagem como também não desaponta em mostrar como sua impulsividade é sua melhor arma. Um tipo diferente mas tão legal quanto qualquer herói de ação.

Tínhamos que ressaltar e dar destaque para um todo ótimo elenco que o filme reúne antes de partir logo para o rouba cenas do filme inteiro, sir Sean Connery. E Bay também não esconde o fato de ter um sonho realizado ao dirigir o James Bond original em seu filme, e que facilmente se torna o maior destaque dele.

Seu John Patrick pode ser facilmente visto e colocado no filme como um perfeito sósia do 007, esquecido por anos em confinamento da sua fama nostálgica das antigas (não à toa, ambos personagens são da Inteligência britânica), e que voltava em um mundo pós guerra fria para chutar algumas bundas patrióticas e mostrar aos americanos como se faz o trabalho direito. Sempre com uma atitude de desdém e superioridade embutida em um charme conquistador que é impossível não te fazer amar o personagem tão sutilmente cheio de si, e com razão pois mostra sempre estar um a passo a frente do que todo mundo no filme.

Nem era necessário sua subtrama com uma filha que nunca conheceu para nos fazer simpatizar ainda mais pelo personagem, mesmo reconhecendo que ele haja sempre de forma ególatra que não liga pra nada nem ninguém, e que muito menos queria estar ali tentando salvar aqueles que o confinaram pra vida inteira. E nunca levando nem um pouco à sério ou sequer respeitando Goodspeed ao longo do filme, que é basicamente um peso reclamão que o segue por todo o filme, mas que nunca se deixa rebaixar diante de Patrick sempre com atitude em meio a sua personalidade desastrada, até ele provar seu heroísmo no final de forma épica. E o que Bay faz aqui em sua ação é puro e simplesmente épico.

Ação única e de qualidade

Até no comando e criação da ação, Bay já vinha em buscar criar uma marca de qualidade nela com toda sua dedicação, por mais que ele ainda seja divisivo nesse e entre outro fatores de sua carreira. Mas aqui fazia um trabalho que não só diverte mais do que suficiente, como já mostrava tudo de melhor e com um muito estilo próprio. E assim como dá tempo em conseguir desenvolver seus personagens, cronometrava em simultâneo seu nível de entretenimento à entregar.

Indo em um crescendo constante de ação criativa e variada do início ao fim. Desde uma rápida infiltração militar pontual e calculada em timing no início do filme; um intenso desarmar de uma bomba que termina em risos nervosos; algo que se inicia como uma fuga e depois desengata uma caótica perseguição de carros nas ladeiras de São Francisco e com um pobre condutor perdendo seu bondinho; um tiroteio dramaticamente brega e sangrento no sanitário de uma prisão; outra perseguição, dessa vez em trilhos de locomotiva ala Templo da Perdição; para no final tudo ser elevado à décima escala com direito à jatos atirando torpedos na ilha. E algumas porradarias francas, cabeças sendo esmagadas e rostos sendo desfigurados no meio disso tudo, só ousadia e alegria.

O filme até que pode abusar hora aqui e hora ali de uma câmera muito colada nos atores, acompanhado de cortes frenéticos durante toda a ação com aquelas inúmeras câmeras numa mesma cena capturando um mínimo carro voando de todos os ângulos possíveis e inimagináveis. Mas Bay parece encontrar o “equilíbrio” certo em sua técnica, especialmente não por adotar esse tom de ação frenética no intuito gratuito de criar adrenalina e deixa a quantidade de suas explosões e balas espirrando sangue ditarem isso tudo. Outra maneira mais formal de dizer que ele consegue deixar bem pontual os momentos de ação ao longo do filme e equilibrando o ritmo certo entre a história contada e a quantidade (e qualidade) de ação que ela carrega.

Pode ser cheio de tremeliques visuais, mas sempre conseguimos compreender o que está acontecendo, explodindo ou morrendo. Principalmente pelas tomadas de reação dos atores em cena que passam o exato sentimento para o público do que está acontecendo. Cage surtando de um lado, Connery levando de boa que ele está dirigindo um carro em alta velocidade e destruindo tudo pelo caminho, os homens de Hummel morrendo um por um com expressão de desespero, tudo sempre brega e convincente na mesma medida.

Não que isso impeça do diretor tentar ser mais classudo em alguns bons momentos, tanto usando uma câmera lenta em dois momentos pontuais para ocasionar a sensação dramática e trágica de uma quando a primeira unidade de soldados levados à ilha são pegos em uma sangrenta emboscada, e a corrida contra o tempo que termina em glória quando Goodspeed impede o bombardeio em cima da hora.

É saber muito bem carregar aquele tom de cafonice assumida que Bay pega e homenageia muito de seu mestre John Woo que ele consegue despertar aqui, e não estou falando só das pombas brancas (sim elas estão aqui), mas sim tanto na criação do tom exaltante das ações de seus personagens, dignos de um espetáculo, presente em todas as cenas de ação, acompanhando da música impotente e épica de Hans Zimmer e Nick Glennie-Smith que torna as cenas em algo muito maior do que elas realmente são.

E fazendo sim das relações entre si brega, tanto a dupla Goodspeed e Patrick quanto Hummel e seus homens, mas sempre muito verdadeiras e genuínas em sentimentos, e onde cada um se torna seu próprio herói individual e com momentos de sobra para brilharem.

Sem falar é claro de toda a decupagem técnica do filme que é bem construída, seja em um ritmo perfeitinho que nunca se deixa desgastar, e uma boa construção de espaço onde cada recanto de espaço da ilha consegue ser palpável e variado em visual, desde as catacumbas às áreas das celas e o ar tropical das paisagens para a baía de São Francisco. É um filme que sabe exatamente o que é sendo muito bem realizado e que entrega o que promete.

Uma Prova de respeito e admiração

Como dito aqui, você pode fazer a piada que quiser sobre Michael Bay e se manter na mesmice de critica-lo gratuitamente sobre o tipo de diretor que ele é, e não tentar reconhecer seus vários atributos que sim existem e que estão todos presentes aqui em A Rocha.

Onde ele mostrava sua imensa habilidade de criar um espetáculo de produção; sua capacidade de puxar o desempenho mais convincente de seus atores em meio às loucuras que ele apronta em cena; e o seu criar de um entretenimento puro que embora não perfeito, e que consegue carregar a marca de um autor de caos e ação que fazia aqui o exato filme que queria.

E que Para tudo isso não se vangloriou de nada e plantou sua marca aqui em com certeza seu melhor trabalho até hoje. O conselho de John Patrick dá a Goodspeed não é só uma verdade genuína e uma lição de vida, mas algo que representa isso tudo perfeitamente e é a mensagem que esse filme e seu diretor dão. “Os fracassados sempre se vangloriam do seu melhor. Vencedores vão pra casa e transam com a rainha do baile!”.

A Rocha (The Rock – 1996, EUA)

Direção: Michael Bay
Roteiro: David Weisberg, Douglas Cook, Mark Rosner
Elenco: Sean Connery, Nicolas Cage, Ed Harris, Vanessa Marcil, John Spencer, David Morse, John C. McGinley, Michael Biehn, Gregory Sporleder, Tony Todd
Gênero: Ação, Aventura, Thriller
Duração: 136 min

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