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Crítica | Ad Astra: Rumo às Estrelas – A ficção científica humanista de James Gray

Os melhores filmes de ficção científica nunca são apenas sobre o espaço e seus mistérios, ainda que tenhamos muitos bons exemplares nessa categoria, mas sim sobre conquistas humanas. Recentemente, Hollywood tem se mostrado aberta a diversos longas do gênero, geralmente comandados por autores, que usam a grandiloquência do espaço sideral para contar histórias intimistas, vide Interestelar de Christopher Nolan e Gravidade de Alfonso Cuarón. Agora chegou a vez de James Gray colocar o traje espacial e explorar mais temas profundos com Ad Astra: Rumo às Estrelas

A trama é ambientada alguns anos no futuro, onde a humanidade avançou a viagem espacial para níveis quase mercadológicos, onde temos centros comerciais na Lua e bases de comunicação em Marte. Nesse cenário, o astronauta Roy McBride (Brad Pitt) é chamado para embarcar em uma longa expedição para encontrar seu pai (Tommy Lee Jones), que desapareceu há 30 anos quando procurava por vida extraterrestre na região de Netuno. Além de uma jornada emocional, a missão de Roy tem maior peso quando uma série de tempestades elétricas ameaçam destruir toda a galáxia, em um fenômeno diretamente relacionado a seu pai.

Estrelas perdidas

É uma narrativa simples em sua superfície, e perfeitamente explorada pelo roteiro de Gray e Ethan Gross. Descrito pela própria dupla como “2001: Uma Odisseia no Espaço encontra Apocalypse Now“, é uma comparação que pode parecer absurda dado o tamanho das obras de Stanley Kubrick e Francis Ford Coppola, mas faz sentido quando encontramos uma história de jornada para encontrar um homem obcecado e isolado, tudo através de uma verdadeira odisseia contemplativa pelo espaço. E realmente admiro como a dupla foi capaz de criar um universo bem vasto (ainda que pouco explorado) e interessante com pouco tempo, especialmente na forma como viajar de diferentes cantos do universo se tornou algo fácil, e o design de produção é acertadíssimo no retrato das bases lunares e marciana como aeroportos e centros de imigração – com direito a uma loja da Subway, o que é um detalhe genial. 

Mas ainda assim, o que mais encanta em Ad Astra é sua intenção. Em seu núcleo, Gray e Gross têm uma mensagem simples e muito poderosa, e que não posso entrar em detalhes por spoiler, mas que pode facilmente ser confundida com niilismo – quando na verdade é um grande testamento de humanismo e esperança, pelo menos para o conflito central de Roy, um homem que lida com o distanciamento de seu pai, e que parece cometer os mesmos erros em seu casamento (representado pela figura de Liv Tyler). É meu aspecto preferido do filme, e que confesso ter me deixado em estado de reflexão desde a primeira vez que o assisti, e que triunfa sobre alguns dos problemas gerais da produção.

O primeiro problema, e isso vai depender puramente do gosto pessoal, está na narração voice over do personagem de Pitt, presente em todo o filme. É um recurso justificável, afinal Roy é um sujeito fechado e que não interage com todas pessoas, logo a ideia de termos seus pensamentos expostos não é tão absurda. Pessoalmente, me tirou da experiência e quebrou o ritmo/tensão de diversas cenas que se beneficiariam de silêncio; como a ótima cena do ataque dos piratas na Lua, que é desconfortavelmente interrompida com a narração “Lá vamos nós de novo, humanos continuam se matando por recursos”. É algo que me lembrou constantemente da controversa narração de Harrison Ford no corte original de Blade Runner: O Caçador de Androides – não em termos de performance do ator, mas por relevância.

E faço questão de reforçar isso, já que a performance de Brad Pitt em Ad Astra é simplesmente inebriante. Assim como sua outra grande atuação em 2019, no excelente Era Uma Vez… em Hollywood, Pitt consegue tirar muito de um esforço quase mínimo. É nas expressões sutis, nos tiques e principalmente nos olhares em que o ator consegue impressionar, entregando uma poderosa carga dramática de forma minimalista, e que desde já se posiciona como um de seus trabalhos mais delicados e impressionantes. O mesmo pode ser dito de Tommy Lee Jones, mesmo com uma participação bem reduzida, e os dois 

Uma experiência técnica divisiva

Em quesitos técnicos, temos uma experiência satisfatória. Já tendo fotografado o espaço em Interestelar, o suíço Hoyte Van Hoytema faz sua primeira parceria com Gray e traz algo menos deslumbrante para imagens digitais (talvez por estarem em abundância no cinema, é cada vez mais difícil oferecer algo novo), mas acerta na atmosfera mais “física”. Todos os interiores, corredores e instalações são iluminados de uma maneira que permite ao espectador sentir a solidão e o isolamento, tal como o próprio desapontamento do protagonista com sua própria situação e ambiente – mesmo que ser um astronauta seja seu sonho, ele constantemente aponta como a conquista espacial se tornou algo deprimente. Hoytema até evoca seu Kubrick ao apostar em cenas iluminadas com apenas uma cor, especialmente nas ambientadas em Marte, e o resultado é esteticamente primoroso.

Quando chegamos a cenas mais “espetaculares”, é onde vemos a deficiência de Gray. Seu trabalho com drama, atmosfera e  análises intimistas são inquestionáveis, mas fica bem claro que estamos diante de um diretor trabalhando com grandes efeitos visuais pela primeira vez. A maioria das cenas de decolagens e aterrissagens são executadas de forma pragmáticas, sem grande impacto (e há o que ser dito sobre a eficiência do design sonoro, que é indeciso entre silêncio total e um foley abafado).

O maior exemplo disso, de tensão mal trabalhada, encontra-se na desnecessária cena em que Roy e outros astronautas são atacados por primatas enlouquecidos em uma nave abandonada. É um momento prejudicado pelo CGI artificial e pela aparente aleatoriedade – entendemos que é uma forma de tornar a viagem perigosa e “remover” um dos personagens, mas simplesmente não casa com o resto do filme. A exceção fica com a ótima cena dos piratas que atacam Roy no solo lunar, onde a variedade de enquadramentos fechados e abertos ajudam a estabelecer uma tensão 

Um filme para se reavaliar

Depois de Era Uma Vez em Nova York e Z: A Cidade Perdida, James Gray mostra com Ad Astra: Rumo às Estrelas que é um dos grandes nomes do cinema americano contemporâneo. Confesso que adoraria uma revisão antes de uma posição final, já que o longa certamente deve ganhar mais com reflexões e reavaliações. Há problemas em sua execução e desenvolvimento, mas o saldo é extremamente positivo, sendo um dos filmes mais pessoais de 2019, e mais um acerto tremendo para Brad Pitt.

Ad Astra: Rumo às Estrelas (Ad Astra, EUA – 2019)

Direção: James Gray
Roteiro: James Gray e Ethan Gross
Elenco: Brad Pitt, Tommy Lee Jones, Donald Sutherland, Ruth Negga, Liv Tyler, Kimberly Elise, Loren Dean, Donnie Keshawarz, Sean Blakemore
Gênero: Ficção científica
Duração: 124 min

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Publicado por Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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