Cinema

Google investe US$ 75 milhões na A24 para criar ferramentas de IA para cinema

A parceria não dá ao Google acesso ao catálogo da A24. O foco são ferramentas que preservem o controle criativo dos cineastas.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
4 min de leitura
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O estúdio que mais desconfia de Hollywood entra num acordo com o Google

A A24 construiu sua reputação sendo o oposto da lógica corporativa de Hollywood: filmes de autor, orçamentos contidos, apostas em cineastas desconhecidos e um público jovem que trata o logo do estúdio como selo de qualidade. Lua de Mel Sem Fim, Luz da Lua, Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo e, mais recentemente, Backrooms: Um Não-Lugar, o fenômeno de bilheteria do verão americano, são filmes que existem porque alguém deu liberdade total a um cineasta com uma visão específica.

Por isso o anúncio desta segunda-feira é inesperado: a A24 fechou uma parceria de pesquisa com o Google DeepMind e recebeu um investimento de aproximadamente US$ 75 milhões da empresa, segundo o Wall Street Journal. O acordo cria uma colaboração de pesquisa e desenvolvimento que vai envolver pesquisadores do DeepMind trabalhando diretamente com cineastas da A24 para construir novas ferramentas de IA para o processo criativo.

O que o acordo inclui, e o que não inclui

A linguagem do contrato foi elaborada com cuidado para endereçar as preocupações que a comunidade criativa tem sobre IA. O Google não recebe acesso ao catálogo de filmes da A24, nem aos seus dados para treinamento de modelos. Cineastas e a própria A24 mantêm controle criativo total. O foco declarado são storyboards gerados por IA, ferramentas de previsualizção de cenas, automação de partes do processo de produção que não envolvem decisões criativas e novos workflows ainda não definidos publicamente.

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Scott Belsky, sócio da A24 que lidera a divisão tecnológica A24 Labs, foi explícito ao diferenciar o acordo de outras parcerias de Hollywood com IA. Segundo ele, o mercado erra ao apresentar IA como ferramenta para fazer filmes mais baratos e rápidos. A proposta aqui seria diferente: preservar o controle criativo e apoiar a tomada de risco, não substituir artistas por processos automatizados.

Por que o Google quer estar dentro da A24

Do lado do Google, a motivação é clara. O DeepMind já desenvolve a ferramenta Flow, plataforma de criação cinematográfica por IA baseada nos modelos Veo, Imagen e Gemini, que inclui geração de vídeo, imagem e roteiro. Mas construir ferramentas sem feedback de artistas reais é um caminho para criar produtos que a indústria rejeita.

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A A24 oferece exatamente o que o Google precisa: acesso a alguns dos cineastas mais respeitados do momento, num ambiente onde o processo criativo é levado a sério.

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Demis Hassabis, CEO e cofundador do DeepMind, disse em comunicado que a empresa acredita que a melhor forma de desenvolver ferramentas que empoderem artistas é trabalhando diretamente com eles desde o início. É o argumento padrão de laboratórios de IA tentando se aproximar de indústrias criativas, mas o fato de a A24 ter topado o acordo dá peso diferente à declaração.

O contexto de uma indústria dividida

A parceria chega num momento em que Hollywood está simultaneamente adotando e processando empresas de IA. A Disney fez um acordo com a OpenAI para usar personagens e depois processou a MiniMax e a Midjourney por violações de direitos autorais. A Lionsgate expandiu sua parceria com a Runway AI para produzir séries geradas artificialmente a partir de seu catálogo. A Netflix comprou a startup de IA de Ben Affleck, a InterPositive, focada em ferramentas para cineastas.

O dado que torna a A24 um caso particular é quem assiste a seus filmes. Cerca de 85% do público que foi ver Backrooms: Um Não-Lugar no fim de semana de estreia tinha menos de 35 anos, segundo dados do PostTrak.

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É exatamente essa faixa etária que, segundo pesquisa do Pew Research publicada na semana passada, mais desconfia de IA: aproximadamente metade dos adultos abaixo de 30 anos acredita que a tecnologia vai prejudicar a sociedade. A A24 vai precisar provar para sua própria base que essa parceria é diferente do que o nome sugere.

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