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Catálogo

Crítica | Amor à Flor da Pele – O Peso da Solidão

A obra-prima imperfeita de Wong Kar-Wai.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
5 de maio de 2018 · 6 min de leitura
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Wong Kar-Wai foi colado no mapa depois do grande sucesso gerado pelo ótimo Amores Expressos. Decorridos seis anos, além de muito planejamento, o cineasta chinês veria seu estilo cinematográfico sofrer uma transformação completa com Amor à Flor da Pele, longa que é considerado por muitos críticos como sua principal obra-prima.

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Porém, essa guinada tão radical na sua forma de compreender o Cinema pode ser interpretado como uma traição do próprio estilo tão inspirado em Martin Scorsese de outrora. Os cortes rápidos e câmera fluída dão lugar a um classicismo curioso de planos contemplativos, por vezes centralizados, de um estilo imagético popularizado por diversos filmes da era Warner Bros de Stanley Kubrick.

Art House do Amor

Que Kar-Wai é um excelente contador de histórias românticas, disso não há dúvidas. Mas o que realmente torna Amor à Flor da Pele uma obra tão destacada dentre outros romances. Bebendo da fonte do clássico de David Lean, Desencanto, Kar-Wai nos apresenta a dois casais vizinhos em uma moradia rudimentar na Hong Kong de 1960. Srta. Chan e Sr. Chow trabalham copiosamente todos os dias, assim como seus respectivos cônjuges.

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Com a crescente ausência do marido e da esposa dos dois indivíduos, o peso da solidão se torna praticamente insustentável até que os dois passam a suspeitar de que seus amores, na verdade, estejam os traindo. Unidos pela traição de seus esposos, Chan e Chow ficam cada vez mais próximos e iniciam uma fagulha para um verdadeiro incêndio de paixão. Porém, pela discrição da sociedade e também pela dúvida da separação, o romance dos dois logo se torna um conflito burocrático de emoções cheias de medo e insegurança.

Para quem já está familiarizado com a filmografia de Kar-Wai depois da realização desse longa, certamente não vai estranhar o estilo mais vagaroso e repleto de contemplação. O diretor/roteirista se concentra muito não-dito, recorrendo raramente a diálogos ordinários de romances, mas seguindo a escolha de mostrar a vida solitária de Chow e Chan em uma parcela generosa do longa. Com personagens cercados por uma vida miserável em um conflito similar pela solidão e abandono dos cônjuges, o roteirista tece um fundo motivador poderoso para os protagonistas.

A tensão sexual já é notada em questão dos primeiros minutos do longa, quando temos rápidas cenas em slow motion focando no caminhar sensual de Chan enquanto Chow a observa secretamente. Esse congelamento do tempo também permite o florescer da trilha musical que torna toda a atmosfera irresistivelmente romântica para o espectador – além da cinematografia e direção de arte sempre tentar trabalhar com cores muito quentes entre uma escala agradável de vermelho até o laranja.

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Tudo é excepcionalmente intencional em Amor à Flor da Pele. A lentidão da narrativa, assim como do ritmo arrastado de todo o longa são reflexos diretos da projeção emocional dos dois protagonistas. Ambos se sentem desmotivados, sem energia, sem encontrar significado na própria existência enquanto amarguram arrependimentos do passado e do presente, prisioneiros de uma realidade desagradável fora de controle.

É por conta desse aprisionamento que Kar-Wai aproveita o drama para criar uma proposta estética única e verdadeiramente sufocante ao filmar quase que a totalidade inteira do longa em espaços apertados e corredores estreitos. Não há trégua nessa escolha até a última cena da obra, mas, embora torne o visual do longa bastante repetitivo, é muito funcional em complementar a angústia dos protagonistas. Ou seja, de um conflito abstrato como o da angústia da traição que pode não ser comum a todos espectadores, o cineasta se dispõe a traduzir esse sentimento através da criação dessas imagens inteligentes.

O mesmo pode ser visto em enquadramentos frequentes nos quais o diretor elabora molduras, em maioria, verticais, para restringir ainda mais o espaço desses personagens até chegar na metáfora visual mais óbvia para refletir o aprisionamento: enquadrar ambos em seus encontros noturnos por trás de grades indiferentes. Enquanto funciona nesse nível poético, a imagem também já anuncia a inevitabilidade dos destinos desgraçados daquelas duas almas perturbadas.

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Aliás, muito embora Chow e Chan sejam personalidades incógnitas, já que Kar-Wai não foca em desenvolvê-los dessa forma, temos dicas preciosas sobre quem realmente são por trás das máscaras morais impostas por um código cultural rígido. O roteirista faz uma troca de clichês aqui – muito bem-vinda por sinal, já que Chow é o mais sonhador dos amantes. Ele é disposto a abandonar tudo para fugir com Chan e arriscar viver de seu sonho como autor de aventuras para quadrinhos e livros.

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Enquanto isso, Chan é uma mulher totalmente racional, apesar de conservar resquícios de paixão por conta das suas vestes, maquiagem e cabelo sempre muito elegantes, pronta para ir a festas luxuosas totalmente fora de sua realidade. Ela se arruma na tentativa de conquistar o marido ausente – repare que Kar-Wai nunca apresenta os cônjuges durante a totalidade da obra, resgatando uma época de felicidade intangível.

Como toda a situação do casamento e também do caso amoroso entre os protagonistas é imersa em uma imobilidade incômoda, além do cineasta preservar sua proposta estética inflexível, assistir ao filme é uma experiência particularmente difícil, já que o art house pouco se importa em seguir normas tradicionais de filmes comerciais. É por conta dessa imobilidade que Amor à Flor da Pele também sofre, já que rapidamente as imagens, enquadramentos e movimentos de câmera se esgotam afetando negativamente a experiência. E olha que esse radicalismo estético é muito mais brando neste longa se formos comparar com outros mais recentes de sua carreira, como O Grande Mestre.

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Arrependimentos repletos de repetições

Kar-Wai prova que é um cineasta de primeira linha com Amor à Flor da Pele. A subversão de diversas normas narrativas, tornam a história sofrida de Chan e Chow em algo tangível de tão realista que os sentimentos de insegurança e solidão são retratados através de um poderio visual impressionante. Porém, por conta do cineasta desejar frisar isso durante todo o filme, é possível que se torne uma experiência exaustiva mesmo que muito recompensadora já que ele usa todos os artifícios disponíveis para criar essa atmosfera única, sinestésica, onírica e decadente com toda a elegância cinematográfica possível de um cinema consagrado por um dos maiores diretores da História.

Em vidas mal resolvidas, o amor realmente pode ser repetitivo e frustrante, mas também repleto de estilo e criatividade.

Amor à Flor da Pele (Faa Yeung nin wa, China, Hong Kong – 2000)

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Direção: Wong Kar-Wai
Roteiro: Wong Kar-Wai
Elenco: Maggie Cheung, Tony Chiu-Wai Leung, Rebecca Pan
Gênero: Romance, Drama
Duração: 98 minutos.

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Tags: #Maggie Cheung #Tony Chiu-Wai Leung #Wong Kar-Wai
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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