Crítica | Avatar Aang: O Último Mestre do Ar é um ótimo mais do mesmo
No fim das contas, o selo de qualidade “acima da média” de Avatar continua firme e intacto!

Por algum motivo inexplicável, a Paramount parece ter entrado numa cruzada de desprezo disfarçada de “atrasos de produção” contra esse filme em mais de uma ocasião. Primeiro negando um lançamento nos cinemas, depois adiando para um lançamento direto no streaming no Paramount+ ainda este ano, e em seguida sofrendo um vazamento completo meses antes da data oficial. Existe alguma guerra de executivos nos bastidores ou simplesmente uma falta total de confiança no produto? Certamente não pode ser pela qualidade, porque isso aqui é, no pior dos casos, inofensivo – e não no sentido negativo; embora também não seja nada particularmente especial.
O elogio mais básico, tradicional e “de meio de tabela” que se pode fazer é que isso soa como um episódio legítimo da série original, ou como a ideia mais simples para uma nova temporada revival que acabou condensada em um longa de 90 minutos. De qualquer forma, muito do que fez Avatar: A Lenda de Aang talvez a melhor coisa já produzida sob o selo da Nickelodeon está presente aqui em Avatar Aang: O Último Mestre do Ar, nas suas melhores qualidades: a animação com qualidade visual deslumbrante; o espetáculo de ação animada, que a essa altura já parece até exibicionismo da imensa capacidade técnica que essa equipe criativa domina – agora em níveis ainda mais épicos com o orçamento maior; uma boa (ou suficiente) compreensão narrativa de personagens e temas; o humor meio “anime bobão” que não diminui os momentos dramáticos mais pesados nem perde a sinceridade do tom; e a expansão natural do lore / construção de mundo surgindo diretamente das jornadas pessoais dos personagens.
No caso do filme em questão, ele pode soar até em grande parte desnecessário, mas ainda assim funciona como uma extensão natural a partir de onde a série original terminou de forma tão perfeita, agora focando no crescimento e amadurecimento do Aang como um Avatar adulto, ainda lidando com a culpa pela dizimação dos Nômades do Ar durante sua ausência; e fazendo uma conexão decente com os eventos de legado mostrados no seriado continuação A Lenda de Korra — e, ouso dizer, até com um domínio melhor de personagens e história do que essa última série.

Os problemas começam a aparecer nas partes mais mornas, que talvez não incomodem tanto a maioria dos fãs ou o público casual, mas que dão aquela fisgada — ainda que leve — para um chato detalhista como eu. A narrativa ora parece apressada demais, ora parece não ter muito mais o que explorar com esses personagens, já que três temporadas da série original já fizeram isso com profundidade.
Sobra muito pouco (ou nada) para personagens como Zuko fazerem aqui, servindo mais como presença obrigatória na equipe; além disso, há bastante preenchimento com referências nostálgicas e fan service clássico: a aparição do Espírito do Oceano em versão kaiju da 1ª temporada; o cara que espuma pela boca agora com um filho; e o mercador de repolhos ainda apaixonado e chorando pelos seus repolhos.
Isso acaba se aproximando demais de outros filmes derivados de séries da Nickelodeon como Rugrats, os Anjinhos: O Filme ou Os Thornberrys – O Filme; com pouca diferença de fórmula ou de qualidade, pelo menos em relação aos melhores exemplos. Funciona como um “pacote de expansão” inofensivo da história original: não estraga o que veio antes, mas acrescenta pouco. E quando tenta introduzir novos eventos maiores com consequências impactantes, tudo é resolvido tão rapidamente que você se pergunta qual foi realmente o propósito disso tudo, além de oferecer apenas mais um tempo de convivência com personagens queridos.
Ainda assim, o carisma desses personagens continua brilhando com força, sem perder o timing de humor nem a simpatia. E a premissa central envolvendo o personagem trágico de Tagah, um pária que se torna vilão — interpretado por Dave Bautista, funciona bem, sustentada por um drama competente e uma dublagem sólida. Mas a grande surpresa fica por conta do personagem de Taika Waititi, o espírito porco Gorillavark, que tinha tudo para ser apenas um alívio cômico irritante, mas que, mesmo com pouquíssimo tempo de tela, rouba o filme com uma energia digna do Gênio do Aladdin — fazendo você desejar que ele aparecesse muito mais.

Resta torcer para que esse tratamento desastroso no lançamento não prejudique as chances do filme, embora eu não saiba muito bem para onde poderiam levar isso a seguir — a não ser mais um exercício episódico de nostalgia para reacender sentimentos de uma história que já foi concluída e cujo destino os fãs já conhecem. Ainda assim, dá pra aceitar o argumento de que 80% disso aqui é melhor do que a totalidade de A Lenda de Korra sem muito esforço. No fim das contas, o selo de qualidade “acima da média” de Avatar continua firme e intacto!