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Crítica | Capone – A loucura de um cineasta refletida no famoso gângster

Josh Trank foi do Céu ao Inferno em um tempo muito enxuto, representando uma das trajetórias mais polêmicas e trágicas de jovens cineastas engolidos pela máquina de Hollywood. Após estourar como uma das vozes mais originais e promissoras com o ótimo Poder Sem Limites, Trank se viu na mira do ostracismo ao tentar reinventar o Quarteto Fantástico da Marvel em um reboot duramente criticado – e que teve grande interferência do estúdio, que praticamente isolou o diretor de qualquer decisão criativa.

A experiência acabou sendo quase destrutiva para Trank. Qualquer outro projeto com seu envolvimento foi parar na geladeira, como a tentativa de fazer um filme para maiores sobre Venom ou o cancelado longa sobre Boba Fett para a franquia Star Wars. Trank saiu queimado, e ainda tacou fogo no parquinho ao culpar a Fox pelo fracasso de Quarteto Fantástico em seu perfil oficial do Twitter. Agora, Trank retorna com um projeto completamente autoral, executado e financiado por ele mesmo: Capone, um olhar intimista e surreal sobre os últimos dias do famoso gângster americano. 

A trama é ambientada no período de 1946 e 1947, descrito como o último ano da vida de Alphonse “Fonse” Capone (vivido por Tom Hardy), que vai lentamente perdendo sua noção de realidade e coerência graças aos efeitos da sífilis, que vão colocando-o em um estado de demência. Libertado da prisão e não mais considerado uma ameaça, Capone segue aos cuidados de sua família e antigos companheiros, ao mesmo tempo em que tenta se lembrar de uma fortuna supostamente escondida por ele mesmo.

A tentativa de redenção

Capone é uma grande reação à experiência de Trank com a indústria de Hollywood. Se em Quarteto Fantástico o diretor ficou na mordaça do estúdio, tanto na direção da história quanto no corte final, seu projeto (que fora chamado de Fonzo) traz roteiro, direção, produção e até mesmo a montagem assinadas pelo próprio Trank. Essa é a chance de mostrar tudo o que é capaz, o que acaba soando como desespero em alguns momentos de Capone, mas também revela elementos de brilhantismo que ajudaram a tornar sua estreia há quase 10 anos tão promissora. É ao mesmo tempo um pedido de desculpas e um grande portfólio.

A própria decisão de ambientar a história no período final de Capone já é intrigante, já que foi tão pouco explorada no cinema e também intriga historiadores até hoje, tanto pelo mistério do dinheiro perdido quanto pela grotesca doença do gângster. Trank acerta ao capturar o sentimento de nostalgia de Capone e seus seguidores pelos “tempos de glória” onde eram os grandes contrabandistas do período da Proibição nos EUA, marcas bem representadas por diálogos casuais e a constante presença do rádio entre os personagens, que transformou os feitos de Capone em rádios-novela. É uma atmosfera palpável de era chegando ao fim, ao mesmo tempo sendo uma memória afetiva e um sinal alarmante do que virá a seguir – no caso, a família de Capone, que corre o risco de ficar sem nada após a morte de seu patriarca.

A forma como Trank melhor aborda essa questão, e que é indiscutivelmente o grande ponto alto do longa, é na loucura de Capone. O filme conta com diversas sequências de alucinação e até personagens que só existem na mente do protagonista, com o grande destaque sendo aquela cena estendida em que Capone fica preso dentro de um clube de jazz onírico, quase remanescente do Twin Peaks de David Lynch (e essa não é a única conexão do filme com o famoso seriado). É um grande momento, que demonstra a habilidade de Trank como diretor e idealizador de imagens icônicas.

Porém, Capone não parece dizer muito além desse experimento. Ainda que o roteiro gire em torno principalmente da questão do dinheiro escondido, não parece ter nada de interessante ou relevante para dizer ou trazer à tona sobre Al Capone, tampouco sobre seu legado. Não há um grande conflito, a não ser o de torcer para que a família Capone (melhor representada por Mae, vivida por uma eficiente Linda Cardellini) não perca a cabeça ao tentar ajudar o protagonista em seu estado decadente, que inclui acessos de raiva, perda de memória e muitas fraldas sujas de forma escatológica. Há uma subtrama envolvendo agentes do FBI (centrados na figura de Jack Lowden) igualmente atrás da fortuna perdida, mas o perigo nunca é palpável.

Homem ou monstro?

E por falar em escatológico, enfim chegamos ao retrato de Tom Hardy do icônico gângster. Sem trazer Capone em sua figura mais iconográfica, o ator aposta em uma performance digna de um desenho animado, trazendo uma voz aguda e arranhada que demora para fazer o espectador se acostumar, sendo ao mesmo tempo uma figura ameaçadora e um monstro patético que rende momentos de humor involuntário – nem vou mencionar os xingamentos em italiano. É difícil classificar Hardy como bom ou ruim aqui, mas definitivamente é o Capone certo para esse tipo de narrativa proposta por Trank, que culmina na forte imagem do gângster disparando sua Tommy Gun dourada enquanto usa fralda e masca uma cenoura.

Nenhum outro personagem ganha destaque além de Capone. Por mais que Cardelini faça um bom trabalho, sua Mae não tem desenvolvimento algum. O mesmo pode ser dito do misterioso Johnny, um antigo colega de Capone que ganha um retrato carismático de Matt Dillon, mas sem muito impacto na narrativa geral. E fechando a conexão com Twin Peaks que fizemos acima, Kyle MacLachlan ganha destaque como o médico de Capone, que esconde uma segunda intenção curiosa por trás de sua metodologia simpática e aparentemente inofensiva.

Capone talvez não seja o grande retorno que Josh Trank imaginava (ou queria) que fosse, mas certamente mostra que o cineasta tem boas ideias. Há alguns equívocos e exageros em sua condução e na performance de Tom Hardy, mas não deixa de ser uma experiência original e impactante – ainda que, essencialmente, vazia.

Capone, (EUA – 2020)

Direção: Josh Trank
Roteiro: Josh Trank
Elenco: Tom Hardy, Linda Cardellini, Matt Dillon, Kyle MacLachlan, Jack Lowden
Gênero: Drama
Duração: 103 min

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Publicado por Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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