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Creio que é escuso dizer que Venom não teve lá uma das melhores primeiras reações ou críticas “especializadas” logo em sua estreia. Com comentários comparativos e classificadores do tipo “nível Mulher-Gato de ruindade” ou “o novo Batman e Robin“. Nem adentrando aqui ainda em aspectos qualitativos sobre o filme, mas também não é tão absurdo dizer que foram reações de níveis um tanto exageradas e muito aquém do verdadeiro nível de qualidade que o filme de Ruben Fleischer tem para apresentar. Se leram até aqui, já sabem o rumo que essa crítica vai tomar, pois se até mesmo Batman vs Superman teve o seu direito à defesa, Venom também terá!

Mas encaremos, Venom estava longe de ser um dos filmes mais esperados ou um dos maiores criadores de expectativas entre os fãs e público do gênero como todo filme da Marvel cria anualmente, com algumas exceções aqui e ali como os filmes do Deadpool ou algum milagre da DC que não tenha sofrido interferência dos estúdios. O casting de Tom Hardy e a direção de Ruben Fleischer, melhor conhecido pelo ótimo Zumbilândia, pareciam interessantes, mas a má fama controladora da Sony e a presença de produtores como Avi Arad (o acusado de ter “estragado” Homem-Aranha 3) só deixavam o resultado final imprevisível. Ou para os detratores de plantão, facilmente criticável como ruim ou fracasso mesmo antes de lançar, seja por acharem os trailers desinteressantes (o que foram) ou por simplesmente o filme não ter o selo da Marvel Studios.

Mas havia sim algo que mantinha o ar de esperança, que era tanto o fator promessa de ser um filme mais sombrio voltado ao terror, ao mesmo tempo que manteria uma carga de humor negro bem presente. E conhecendo o background de humor auto referencial de Ruben Fleischer, e ver como isso poderia se ater ao espírito bem trash das HQs do personagem título, era algo bom de se esperar que fosse mesmo entregar, e assim o entregou (exceto pelo terror).

NÃO É EXCELENTE, MAS…

Porém, claro, os críticos e o público prontos para apontar qualquer sinal de defeitos, tem sim algumas boas razões para se criticar ou desgostar por completo, aspectos tanto estruturais como ritmo desconjuntado e narrativos (como sempre) que desenvolve um tom talvez mal compreendido em sua proposta final (mais sobre isso depois). Mas onde o filme realmente escorrega nesses aspectos e irrita logo de cara é em sua primeira meia hora de introdução.

Tome a cena inicial como primeiro exemplo. Que começa com uma construção de antecipação e clima misterioso até muito bem e sem pressa nenhuma na duração de seus planos de cunho “contemplativo” com a nave carregando os Simbiontes caindo na terra. Sugerindo a chegada da grande presença alienígena monstruosa chegando à terra como em O Enigma de Outro Mundo (com algumas óbvias inspirações mais tarde como o Simbionte tomando posse do cão). Mas de repente a cena parece querer se apressar quando logo mostra uma das vítimas da nave ensanguentada (querendo esconder quaisquer vestígios do R-Rated?) e pulam diretamente para uma mulher infectada com um dos seres Simbontes saindo da zona, dando lugar para o título do filme abrir. Não é mesmo uma das formas mais inspiradas de se começar mesmo o seu filme.

Logo após isso temos praticamente os dez primeiros minutos de filme focados em estabelecer e desenvolver o personagem de Eddie Brock e o seu futuro encontro com o simbionte Venom nesse novo universo da Sony, sem aparentes conexões com a Marvel Studios ou sequer a presença do Homem Aranha. A idéia em si para isso parece certa e boa intencionada no papel, ao colocar Brock como o jornalista arrogante e de instinto playboy famoso que é nos quadrinhos, que logo tem sua carreira indo ladeira abaixo por causa de sua investigação contra a empresa de Carlton Drake (Riz Ahmed), que lhe custa o emprego e o casamento com Anne (Michelle Williams).

O problema é que tudo ou é apresentado de forma apressada ou passa tempo demais em cenas desnecessárias (sinal da doença intitulada: sala de edição, ainda aparentemente intratável). E o fato de Riz Ahmed estar interpretando o “vilão visionário” 2.0 que já se cansou de ver incontáveis vezes no gênero também não ajuda muito quanto aos elogios possíveis ao filme. Embora eles comecem à aparecer exatamente quando vemos ambos protagonistas Venom e Eddie Brock se reunindo em um só ser, e o filme daí não deixa de entreter até o fim.

MAIS AUTORAL DO QUE APARENTA

Isso é o resultado de ter um dos melhores e mais talentosos atores trabalhando hoje sendo um protagonista tão dedicado de seu filme. Hardy está magnético como sempre e mostra sua clara paixão em interpretar o anti-herói título e seu alter-ego igualmente interessante, fazendo com que tudo à sua volta no filme funcione bem em prol da narrativa.

Pode ser até desgastante ressaltar isso como um discurso beneficiário do filme contra o gosto geral positivo que os filmes da Marvel Studios atraem para si, e um certo preconceito (as vezes justificável) por filmes de personagens da mesma editora sendo feitos na Fox ou na Sony. Mas Venom se prova positivamente nisso em seus melhores momentos. Já que, no que vemos em prática, essa não é tanto uma narrativa centralizada em buscar construir um universo próprio e garantir um palco para inúmeras continuações (pelo menos até agora), e sim, ouso dizer, e por mais que possua suas inúmeras falhas, é um trabalho que muito se assemelha ao que Sam Raimi fizera com seu Peter Parker e o Homem-Aranha na sua clássica trilogia.

Talvez não com a mesma relação flamejante de amor e admiração entre autor e personagem como fora o caso em sua trilogia, mas essa paixão parte da imensa dedicação que Tom Hardy entrega ao seu personagem. Fazendo de seu Eddie Brock um sujeito falho mas extremamente simpático e com carisma de sobra.

Proporcionando muito a construção do seu arco principal construído no roteiro e denotando temas que tanto podem ser interpretados como séria depressão em sua reclusão destrutiva e a pressão do desemprego que se desencadearam após seu triste término. E a óbvia crise de identidade refletida em seu guia moral frágil para com as pessoas à sua volta, tanto no seu “egoísmo” acovardado em não ajudar uma mulher durante um assalto, como também em seu relacionamento com Anne e sua incapacidade de impor de verdade seus sentimentos para com ela e suas frustrações.

O que faz da chegada de Venom em sua vida uma espécie de autorreflexão e guia figurativo para com que ele consiga confrontar seus erros passados e levá-lo em uma jornada de reconhecimento e auto-aceitação. Temas estranhamente sérios e interessantes para um filme de heróis genérico não é mesmo?! E grande parte disso deve-se a grande devoção de Hardy que demonstra o quanto ele se adequa e se entrega de alma e coração à todas as facetas que o personagem pode despertar: o humor, o drama, o tragicômico e o autoconsciente de sua personalidade brega e inevitavelmente engraçada.

O que pode com certeza pode ser confundido e (novamente) facilmente julgado como um tom atrapalhado e um filme que não sabe o que quer ser, onde temos algo muito pelo contrário. E a direção de Fleischer acompanha e consegue construir essa mistura de gêneros de forma decente e tão bem casadas.

Se nos filmes do Aranha de Raimi íamos de um discurso emocionante sobre poderes e responsabilidades para depois ver Peter vestido de Wrestler se intitulando de “Aranha Humana”, ou largando para trás seus poderes e responsabilidades de herói que só lhe trouxera tristezas para depois o vermos caminhado feliz na clássica cena “Raindrops keep falling on my head”. Em Venom vemos Eddie tanto vendo um assalto ocorrendo sem poder fazer nada para impedir ou tendo seu coração quebrado ao ver sua amada Annie com outro, para depois o vermos mergulhando num aquário de lagostas só para as comer ou chamando um bandido de “cocô ao vento”.

Até o papel do vilão pode se dizer que se integra à isso. Enquanto no primeiro Homem Aranha víamos Norman Osborn tendo um duelo de moral quase Shakespeariano com a sua outra persona, o Duende Verde, frente à uma fogueira para depois vermos ele cantando: “Uma aranhazinha subiu pela parede”. Enquanto em Venom temos Carlton Drake em uma cena se auto comparando com Abraão e seu experimento sendo como o sacrifício sagrado de Isaque para Deus, para depois mais tarde o vermos sendo literalmente violado por uma garotinha possuída pelo Simbionte de Riot.

Mas como dito, isso são apenas parte da fina base de seriedade que o filme possuí para si, e acertadamente o afasta de outros atuais do gênero, mas tampouco são forçados dentro do filme como um todo. Até a relação amorosa é apresentada de forma decentemente realista e tematicamente relevante como outrora dito, embora Michelle Williams não esteja dando nem 50% de seu potencial ou tenha um pingo de química com Hardy. Embora ambos tenham uma cena em particular que é, no mínimo, interessante envolvendo a She-Venom e um beijaço apaixonado entre Eddie e o Simbionte em posse do corpo de Anne. Com certeza é a cena “Martha” do filme, ou você vai amar ou odiar.

ASSUMIDAMENTE TRASH

Mas de volta onde o filme realmente mostra sua verdadeira face de entretenimento puro e divertido que é na relação moderna Dr Jekyll e Dr Hide entre Eddie Brock e Venom, duas mentes dividindo o mesmo ser e que ocasionam alguns dos momentos de ouro e totalmente “Trash” que pouco se vê atualmente. Porém não o fator trash de filmes como Batman e Robin ou Spawn de tão ruins que se tornam divertidos de assistir, e sim em ser um filme assumidamente Trash.

Os diálogos entre ambos é recheado de palavreados e tiradas rápidas quase desenfreadas, e Hardy tanto o timing perfeito para as duas personas como também consegue convencer na personalidade de ser uma pessoa possuída e sem controle próprio, quase lembrando a relação de amor e caos entre Armie e seu carro possuído em Christine de John Carpenter. E a voz e personalidade física toda asquerosa mas com um tom tão imaturo e extrovertido na forma com que se fala do Simbionte Venom é diretamente tirada das suas HQs solo como Planeta Simbionte.

E o CGI, por contrário do que muitos pensam, particularmente convencem na maior parte do tempo, embora se use do velho truque encenação à noite para fazer os planos mais abertos com os Simbiontes e “disfarçar” possíveis falhas. Mas aí quando você compara a fidelidade espiritual e física do personagem aqui em comparação à Homem-Aranha 3 você nota o grande avanço que é.

O fato é que toda essa personalidade de humor negro de seu forte lado Trash poderia ter sido muito melhor beneficiado pela faixa etária para maiores. Tome por exemplo a fissuração do Venom por comer as cabeças dos “caras maus” que já é bem engraçada em sua forma caricata, mas que poderia ter sido muito mais se os estúdios não tivessem se borrado novamente pensando em números de bilheteria, e ter deixado o filme ser livre para ser o que com certeza era a intenção original de Ruben Fleischer e seu trio de roteiristas Jeff Pinkner, Scott Rosenberg e Kelly Marcel: fazer uma comédia negra e violenta com toques de terror. Mas em vez disso, o que tivemos foi uma espécie de filme de ação sombrio e cômico quase Trash vestido de filme de quadrinhos (o que também não é nada mal).

Falando em ação, esta que também não é nada ruim também. Tirando algumas breves cenas com um desnecessário uso de câmera lenta, o resto das lutas práticas e a boa cena de perseguição de carro em São Francisco são competentemente bem dirigidas. Até mesmo a escolha do frame acelerado nas lutas dos Simbiontes funciona até certa medida para mostrar a extensão dos poderes das criaturas. E para os que se queixaram da “poluição visual” das mesmas (indo até comparar com Transformers), tudo o que tenho a dizer sobre é que elas são até “pior” nos quadrinhos.

UM ESTILO PRÓPRIO E RARO

Mas verdade seja dita, “fidelidade aos quadrinhos” em técnica ou narrativa está longe de ser um argumento positivo para um filme (ambos os filmes O Espetacular Homem-Aranha tão aí como prova disso), mas quando feito corretamente, pode resultar em filmes tão encantadores, com voz e estilo próprios dentro do gênero de super-heróis, como a já mencionada trilogia Homem Aranha de Sam Raimi, Batman Vs Superman, X-Men: Primeira Classe, Deadpool 1 e 2.

Venom pode mesmo não alcançar todos os níveis desses filmes, mas mostra que se esforça para ser isso em todos os seus melhores momentos de boas qualidades. Os diálogo sombrios e cômicos e os conflitos mentais entre o anti-herói e seu novo corpo funcionam muito bem graças ao seu grande ator principal e o filme é, mais uma vez, longe de ser o desastre como críticos decidiram colocá-lo como tal. E asseguro, que se o filme tivesse o logotipo da Marvel Studios da Disney e a especulada cameo do Peter Parker do Tom Holland, estaria agora marcando 86% no bendito Rotten Tomatoes que todos ainda dão tanto crédito.

Bem, se baseando no relativo sucesso desse filme e que venha mesmo dar início de um novo universo cinematográfico com vilões do Aranha em seus filmes solos, só peço por mais um pouco do Carnificina de Woody Harrelson e por mais filmes de estilo tão únicos e diferentes assim.

Venom (EUA, 2018)

Direção: Ruben Fleischer
Roteiro: Scott Rosenberg, Jeff Pinkner, Will Beall e Kelly Marcel, baseado nos personagens da Marvel Comics
Elenco: Tom Hardy, Michelle Williams, Riz Ahmed, Jenny Slate, Woody Harrelson, Reid Scott, Michelle Lee, Scott Haze, Sope Aluko
Gênero: Ação
Duração: 112 min

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