Crítica | Desejo em Manhattan falha ao misturar crítica social com realismo fantástico

Desejo em Manhattan desperdiça um bom elenco em uma adaptação que troca a tensão por diálogos didáticos. Leia a crítica.

Daniel Moreno
Daniel Moreno 4 min de leitura

Desejo em Manhattan (produção de 2025) parte do reconhecido e controverso texto teatral The Dutchman, escrito por Amiri Baraka em 1964 e que, como tal, reflete exemplarmente o ambiente cultural da época. Possivelmente temendo que somente reproduzir o conteúdo panfletário do material original prejudicaria o interesse, o diretor e co-roteirista Andre Gaines (de pouca experiência no longa-metragem de ficção) optou por converter a peça em uma espécie de episódio alongado de Além da Imaginação, cuja maior pretensão seria emular a altamente bem-sucedida experiência de Jordan Peele ao criar duas camadas de interesse perfeitamente ajustadas numa mesma produção – a linha do cinema de gênero com a observação social apurada. Porém, se era essa realmente a intenção de Gaines, ele falha nas duas dimensões, entregando um resultado confuso e artificial.

Na trama, que expande o teatro de Baraka para um formato comercial de uma hora e meia, Clay (André Holland) é um bem-sucedido executivo ligado a um político afroamericano em ascenção (interpretado por Aldis Hodge, de Adão Negro) em crise no casamento após uma infidelidade de sua esposa, Kaya (Zazie Beetz), e que encontra por acaso no metrô de Nova York com a provocativa e sensual Lula (Kate Mara). Lula rapidamente envolve Clay num jogo de manipulação psicológica e sexual que culmina numa situação pública insustentável – tudo numa mesma noite.

A tensão entre Clay e Lula esbarra no didatismo

O caráter alegórico do texto de Baraka acaba pesando a maior parte do tempo e, ao apelar para a convenção teatral convertida em aparente mistério “sobrenatural”, o resultado torna-se confuso e extremamente artificial. Se o enredo funciona melhor quando as cenas convertem a tensão entre Clay e Lula numa altercação concreta, gerando momentos de incômodo e tensão reais, ele sofre muito porque precisa quase sempre culminar os conflitos em diálogos didáticos e lugares-comuns que seriam mais bem-sucedidos numa reunião de grêmio escolar que num filme de ficção. Raramente uma boa causa é diretamente convertida em boa arte. E o cinema (cujo pacto de verossimilhança é mais sensível que num palco) sofre ainda mais quando o espectador percebe que os personagens são meros fantoches mecanicamente programados para passar ideias à plateia.

Gaines tem em suas mãos um elenco muito interessante. Holland é um excelente ator e já mostrou isso antes em produções como Moonlight: Sob a Luz do Luar e Selma: Uma Luta Pela Igualdade. Kate Mara incorpora o personagem que fez boa parte de sua fama: a intrépida Zoe Barnes do seriado House of Cards: provocativa e sedutora no limite do desconforto social. Beetz é uma boa atriz, mas seu talento é prejudicado por uma atitude que pouco varia de um papel para outro, aquela postura de “desconforto” permanente. E o excepcional Stephen McKinley Henderson faz o que pode ao encarnar uma espécie de Morgan Freeman onisciente que tenta amarrar a crítica social ao episódio de realismo fantástico, com um resultado que oscila entre o descrédito e a empatia forçada.

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Desejo em Manhattan não equilibra crítica social e cinema de gênero

Desejo em Manhattan se sairia melhor em seu dever de casa se, como toda “boa arte”, transcendesse suas boas intenções ao diluir e incorporar um discurso que, no final as contas, é mais política e menos cinema, construindo melhor o drama, os conflitos e a dimensionalidade dos personagens. A beleza de Mara não impede em momento algum de o espectador perceber que está diante de uma “vilã” superficial e que age como um “tipo” e não uma pessoa real (e que será eventualmente punida).

Holland por sua vez funciona tão bem quando o roteiro exige dele uma presença física autêntica, mas ele acaba tendo de declamar textos que parecem o que efetivamente são: proselitismo que retroalimenta os problemas que está supostamente denunciando. Corra! (2017) e Nós (2019), por outro lado, são filmes excelentes porque constroem um universo dramático cuja lógica interna dispensa qualquer explicação externa motivada por ideologia ou ativismo social. A observação crítica da realidade está ali, latente e perturbadora – mas nenhum personagem precisa declamar um tratado sociológico para convencer o espectador de nada. Um filme fraco não vai “mudar o mundo” nem corrigir a fratura racial de um país. Ademais, será facilmente esquecido como um orador aborrecido de porta de sindicato.

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