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Atenção à pequenos spoilers!

Sendo Alfred Hitchcock quem é, apelidado com o que já é hoje quase seu nome pseudônimo, o ‘Mestre do Suspense”, é óbvio se esperar que ele lidasse com o gênero e o tema de assassinos e sua especial ‘arte de matar’ de forma sempre especial e única. Os clássicos atemporais que são listados em seu currículo respondem por si só, mas claro que o diretor se especializara, e muito bem, em outros gêneros desde à comédia e ao drama e que merecem ser relembradas.

Mas o seu fascínio com o tema, e seu amor pelo cinema, foram o que o permitiram à Hitchcock de explorar em diversos tamanhos, formas, tons e estilos às diversas formas de mostrar o suspense e a morte no cinema para o seu público. Fosse no Terror com Psicose, no thriller em grande escala com seu remake de O Homem que Sabia Demais, ou em verdadeiros dramas teatrais como Festim Diabólico e aqui Disque M para Matar. E ouso dizer, que fora nesse último formato onde fora aflorado as melhores e mais interessantes experiências em ambos no gênero e tema que Hitchcock realizou em toda sua carreira.

A tramoia toda começa quando o americano Mark Halliday (Robert Cummings), um famoso escritor de thrillers de serial-killers, chega em Londres para visitar sua amante secreta Margot Wendice (Grace Kelly), que é casada com Tony Wendice (Ray Milland), um ex-tenista profissional. Mas em sua chegada, a jovem diz ao amante que ela destruiu todas as cartas que Mark havia enviado, exceto uma que havia sido roubada e chantageada por alguém com cartas misteriosas cartas.

Tony chega em casa afirma que precisa trabalhar e sugere que Margot leve Mark ao teatro. Enquanto isso, Tony telefona à um ex colega de faculdade, Capitão Lesgate, também conhecido como Charles Alexander Swann (Anthony Dawson) o convidando para uma reunião de negócios em sua casa e onde revela seu maléfico plano ao chantagear o antigo colega para matar sua esposa, para que ele possa herdar toda sua fortuna.

Cena do Crime

Disque M para Matar, além de muitos outros merecidos louros, com certeza pode ser facilmente considerado o mais próximo que Hitchcock chegou de fazer o que poderia ser uma continuação espiritual de seu grandioso Festim Diabólico, e não apenas pela similar estrutura narrativa teatral (brilhante por si só) e em que o diretor se usa em ambos os filmes, mas pela forma fantástica em que ele escreve o seu assassino principal, ou melhor dizendo, todos os assassinos de seus filmes, que são do melhor tipo que o gênero para sempre terá para oferecer.

Pois Hitchcock sempre os tratou como sendo pessoas exatamente ‘gente como a gente’, de índole afável e simpática mas que não escondem o prazer de seus atos de violência ou sequer mostram pingo de remorso, ao contrário, mostram orgulho e um ar arrogante de superioridade, agem como se estivessem cobertos de razão em ter essa espécie de direito em cometer tais atos pelo bel prazer de suas próprias nefastas intenções. Com certeza não terminaram de ler Crime e Castigo de Dostoiévski até o final para aprender alguma lição.

E são nesses momentos em que um filme como Disque M brilha mais alto, onde seu antagonista/protagonista Tony Wendice se apresenta no cargo logo de cara, sem buscar impulsionar nenhuma surpresa ou revelação tardia no filme. Mesmo que Lesgate seja quem faça o trabalho sujo com as próprias mãos, é a mente e moral fria e calculista de Tony que está por detrás de toda a ideia maléfica do crime.

Mas como Ray Milland se mostra um verdadeiro monstro carismático e charmoso no papel, o público de cara não consegue evitar outra coisa senão simpatizar com o indivíduo, ao ponto de em certa altura do filme chegarmos à sombriamente torcer por ele. Tanto por bem demonstrar que ele tem seus sóbrios motivos de sobra pra cometer tal crime, além do que apenas pura ganância, pois fica muito bem ilustrado de ele está mesmo sendo mesmo traído na cara dura pela esposa que não é nenhuma santa, e cujo agora planeja se vingar, ainda que siga suas entrelinhas de motivos mais pérfidos com isso.

Pois Hitchcock não poupa esforços em construir no belo roteiro de Frederick Knott (e aproveitando tudo de melhor de sua peça original), com passagens inteiras de longos diálogos devotadas em vemos os personagens apenas gesticulando sobre a idéia do “crime perfeito” e como realiza-lo em suas várias formas. Remetendo muito ao espírito de humor negro de outra de suas obras-primas, Pacto Sinistro, que também similarmente à aqui, víamos a primeira parte do filme devotada à uma mera conversa entre dois homens que parecem de início amigáveis e descontraídas, e lentamente mostrando suas verdadeiras garras.

Com esse tipo de diálogos carregados de um humor cínico, mas com tantas verdades assustadoras sendo ditas que instantaneamente consegue nos fazer rir de nervoso pela mera sugestão do ato violento que a mente pérfida da dupla sugere. Meras palavras que conseguem ser tão tensas quanto a própria icônica cena de assassinato, e você já sabe que isso em um filme de Hitchcock já é um entretenimento catártico por si só e onde o diretor já quebrava todas as potenciais expectativas de como este ocorre e tem seu desenlace.

Orquestrando tudo quase que como uma cena musical de tensão absoluta, desde a breve cena ‘ensaio’ do ato, onde vemos Wendice passeando pelo apartamento e ensinando passo a passo o que Lesgate deve fazer na noite do crime, com Hitchcock deixando a câmera quase que como um penetra, capturando tudo de cima e acompanhando a movimentação dos personagens com simples movimentos de um lado para o outro. E quando o ato finalmente acontece, o espectador já está quase decolando do assento de tensão, não sabendo como o violento espetáculo de agressividade vai terminar ou quem sairá “vitorioso” do angustiante estrangulamento.

Apenas alguns dos vários momentos onde Hitchcock brilha sua inventividade no trabalho de câmera, se usando muito do avançado aspecto 3D da época para imergir o público dentro do palco predominante do filme que é o apartamento de Wendice, nos colocando inicialmente como a plateia de uma peça filmada, se usando um pouco das tomadas longas que usara em Festim Diabólico. Para depois tornar o público quase que invasores da cena, com ângulos baixos e a câmera escondida no meio de suas mobílias. E em seu grande momento ápice, colocar nossos narizes quase que sentindo o cheiro da mesa de escritório onde Margot está sendo sufocada, quase nos fazendo querer alcançar a tesoura em cima da mesa e passar à ela.

Também fazendo um trabalho formidável com as cores belíssima fotografia de Robert Burks que muito lembra à uma coloração quase rústica que mostra muito das inspirações de Hitchcock de animações clássicas da Disney como Branca de Neve e os Sete Anões, criando essa iconografia quase lúdica ao filme, e que já sutilmente remetia ao seu vindouro trabalho em Um Corpo que Cai. Principalmente em uma das raras cenas fora do apartamento onde Hitchcock nos põe na ótica do júri no momento em que condena injustamente Margot pelo crime cometido contra ela mesma.

Ocasionando o que é aqui uma experiência visual tanto quanto textual, e com o esmero dedicado em ambos departamentos sendo bem palpável. Mesmo que não acerte em todas as suas notas em meio de tantos impressionantes acertos.

O Teatro da Morte

Como toda boa peça de teatro, o filme consegue espertamente se dividir ao meio entre dois longos atos com um intervalo no meio. Com a primeira metade tendo sido devotada para uma peça sobre um suspense de assassinato que desafia expectativas, enquanto reservou um belo drama investigativo ala Agatha Christie reservado para a segunda metade do que essa história tem à dar, ao mesmo tempo em que seja onde o filme decaia em seus poucos escorregos.

Embora o personagem do Inspetor Hubbard (John Williams) que basicamente está interpretando o detetive Poirot ou Sherlock Holmes da história, passa a sensação de que cai muito de paraquedas do meio da trama, o que deixa o personagem de Mark Halliday, sendo o suposto autor de novelas de serial killers, se tornando quase que uma anedota cínica do próprio diretor dentro do filme, o suposto expert em assassinatos e que logo se torna um alvo de chacota de ambos Tony e Hubbard.

Com as suas deduções do crime que quase acertam tudo mas que age como o gênio desvendador de tudo enquanto o assassino e o Inspetor (e o próprio diretor) já estão dois passos a frente do jovem ingênuo. Passando quase que um subtexto metalinguístico na forma como Disque M para Matar se mostra ser um filme comandado com plena confiança do seu diretor em seus atores e da forma com que eles abraçam o material carregado de perversidade e humor que se enamoram dentro desse cenário de sugestões pérfidas sobre “o crime perfeito”, física e metaforicamente.

Onde as descrições corretas de um outrem que se diz experiente no tema não passa de uma chacota ambulante, e cuja suas ideias básicas e limitadas não possuem lugar perante o verdadeiro poder da criação e planejamento que o excelente personagem de Tony passa o filme inteiro conjurando para realizar o crime perfeito, e que o Inspetor Hubbard igualmente se usa para desvenda-lo. Mas como todos descobrem no final, nenhuma obra-prima consegue ser totalmente perfeita.

Tudo que proporciona com que esses pequenos ressaltos passam por algo que não destroem em nada a excelente experiência que o filme de Hitchcock proporciona. Mesmo que Disque M para Matar talvez não seja o copo de chá de perfeição que alguns o colocam dentro da filmografia do diretor, ainda é um que mostra o melhor de toda a paixão sádica do diretor pelo seu tema recorrente e que encontrava aqui outra identidade tão única e brilhante dentro de um também brilhante legado.

E sejamos sinceros, qualquer filme que termina com o assassino oferecendo uma bebida para seus captores, incluindo a esposa que tentou matar o filme inteiro, com todos interagindo como pessoas civilizadas dentro de um cenário que só revelou os instintos mais animalescos do ser humano, não pode receber nada menos do que amor.

Disque M para Matar (Dial M for Murder – EUA, 1954)

Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro:  Frederick Knott (baseado em sua peça)
Elenco: Ray Milland, Grace Kelly, Robert Cummings, John Williams, Anthony Dawson
Gênero: Suspense
Duração: 105 min.

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