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Crítica | Doutor Sono – Stanley Kubrick e Stephen King fazem as pazes

A tarefa de Mike Flanagan em Doutor Sono não era fácil: unir o universo maluco e intrincado de Stephen King com o aclamado

Lucas Nascimento
Lucas Nascimento Redação
1 de novembro de 2019 · 6 min de leitura
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Crítica | Doutor Sono - Stanley Kubrick e Stephen King fazem as pazes
Warner

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Quando O Iluminado chegou aos cinemas em 1980, tivemos um dos fenômenos mais peculiares do cinema de gênero americano. Era a investida de um de seus maiores autores, o brilhante Stanley Kubrick, em um filme de terror que tinha pretensões comerciais bem fortes; além de ser mais uma adaptação do badalado Stephen King, que segue até hoje como fonte de material para inúmeros longas e séries de TV. Hoje, o filme é considerado um clássico, mas foi extremamente criticado na época, recebendo inclusive indicações ao Framboesa de Ouro e a desaprovação de King, que até hoje condena o resultado final – que é radicalmente diferente do livro.

Corta para 2013 e temos o impensável: King lança uma continuação da história de O Iluminado, batizada de Doutor Sono. Ela é focada no personagem de Danny Torance, agora na fase adulta, e expande o universo do original de forma impressionante. Claro, como estamos na nova onda de Stephen King graças ao sucesso avassalador de It: A Coisa, a Warner Bros correu para garantir que o livro chegasse aos cinemas, sendo lançado agora sob o comando de Mike Flanagan (A Maldição da Residência Hill). O resultado é curioso: uma perfeita junção do universo estabelecido por Kubrick em 1980 com as características típicas da obra de King. Um casamento quase perfeito.

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A trama começa mais de 30 anos após os eventos de O Iluminado, onde um Danny Torrance adulto (Ewan McGregor) supera o trauma do ataque de seu pai no Hotel Overlook, além de tentar controlar sua habilidade psíquica de se comunicar com mentes e ver fantasmas. Nesse universo, conhecemos outras pessoas que compartilham da dádiva (ou maldição) do protagonista, com destaque para a jovem Abra (Kyliegh Curran), que se mostra uma das “iluminadas” mais poderosas de que se tem conhecimento. Isso logo atrai a atenção do grupo misterioso conhecido como Nó, que mata aqueles que tem a iluminação para poderem sobreviver. 

Pessoalmente falando, nunca fui um grande conhecedor da obra de Stephen King, e até estranhei quando a ideia de uma continuação para um clássico seminal como O Iluminado foi anunciada. O Exorcista também teve sua parcela de sequências desnecessárias, mas foi um fenômeno imediato de sua época, enquanto o universo do Hotel Overlook ficou intocado por décadas – depois de Star Wars e Blade Runner, nada mais é sagrado. Mas felizmente o resultado alcançado por Doutor Sono é bem positivo, principalmente quando sua intenção é a de ser uma expansão de O Iluminado, e não uma sequência direto (chegaremos nesse ponto em breve).

Como a maioria das obras de King (ou ao menos o que sei delas), temos o vício como um dos temas centrais. Danny é alcoólatra e está completamente perdido em sua fase adulta, renegando o poder do “brilho”. Graças à prosa de Flanagan, sua jornada tem bom ritmo, progressão e até mesmo um salto temporal de 8 anos que funciona organicamente, estabelecendo um bom dilema para o protagonista. Mas é mesmo o sobrenatural que encanta, e aqui Flanagan faz a escolha bem direta e arriscada de esquecer o terror e flertar com variações muito distintas do drama humano e até mesmo da fantasia: a ideia de Danny como um enfermeiro que ajuda pacientes terminais a encontrar conforto em seus momentos finais é brilhante, e garantem uma execução delicada e altamente emotiva por parte de Flanagan e de McGregor, que encontra um bom balanço entre a ternura e o medo que assombra seu personagem.

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Quando mergulhamos na fantasia pesada, Flanagan não tem medo de fazer seu X-Men sombrio. É curioso como o roteiro divide o tempo de forma bem similar entre o arco de Danny, a jovem Abra e os integrantes do Nó, que ganham mais destaque graças à Rosie the Hat de Rebecca Ferguson (perfeita na pele de uma das vilãs mais interessantes do ano) e o Crow Daddy de Zahn McClarmon, e esse enfoque do roteiro os expande além de antagonistas unidimensionais, mas como criaturas (nunca definidas como humanas ou não) tentando sobreviver, mesmo cometendo atos hediondos – e Flanagan não poupa ao mostrar como podem ser assustadores, mesmo que o cafona ainda esteja presente em seus figurinos e comportamentos. 

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Toda essa porção da trama, que se torna divertida com Danny assumindo um papel de mentor para Abra, funciona perfeitamente por conseguir criar sua própria forma. É mesmo no terceiro ato que as coisas começam a desandar, já que Flanagan começa a desviar demais para O Iluminado, trazendo todas as referências e homenagens que os fãs do original provavelmente gostariam de ver, incluindo um retorno atmosférico ao Hotel Overlook, o “Redrum”, machados e elevadores cujas portas estão repletas de sangue. Tudo está lá, inclusive alguns personagens (vivos e mortos) de rostos bem familiares.

Tanto na temática quanto na execução visual, é o ponto fraco de Doutor Sono. É impossível tentar se equiparar a Kubrick, e por mais que as brincadeiras visuais sejam divertidas (como um plano de Rosie na escada que acaba simulando a famosa cena em que Jack Nicholson ameaça Shelley Duvall), não conseguem ser muito além de uma homenagem, e que não é tão bem executado como o clássico de 1980. É uma boa recriação, e Flanagan e o diretor de fotografia Michael Fimognari acertam em criar uma atmosfera desoladora e imprevisível para os corredores do Overlook, agora abandonado, cheio de tábuas de madeira tapando suas janelas e – curiosamente – quase aconchegante. É impossível não lembrar de Blade Runner 2049 quando temos a longa cena em que Danny caminha pelo local, e que pelo ritmo mais lento (Flanagan também assina a montagem do filme) oferece um tom radicalmente diferente para a produção.

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Felizmente, quando Flanagan está mais livre para criar suas próprias iconografias, o filme triunfa. A forma como conecta cada personagem através do brilho, como usa de imagens simbólicas e extremamente surreais para ilustrar as possibilidades do brilho (principalmente quando temos o “voo” de Rosie pela cidade para encontrar a mente de Abra) são quase transcendentais, garantindo uma boa experiência também com a trilha sonora evocativa dos irmãos Newton.

A tarefa de Mike Flanagan em Doutor Sono não era fácil: unir o universo maluco e intrincado de Stephen King com o aclamado e icônico filme de Stanley Kubrick (odiado pelo autor), ao passo em que também precisa encontrar sua própria voz. É um resultado bem positivo, e que encontra sua maior força justamente quando trilha por algo novo, mais próximo da fantasia do que o terror. Uma conquista admirável.

Doutor Sono (Doctor Sleep, EUA – 2019)

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Direção: Mike Flanagan
Roteiro: Mike Flanagan, baseado na obra de Stephen King
Elenco: Ewan McGregor, Rebecca Ferguson, Kyliegh Curran, Zahn McClarnon, Cliff Curtis, Carel Struycken, Emily Alyn Aid, Jacob Tremblay, Bruce Greenwood, Carl Lumbly, Alex Essoe
Gênero: Suspense
Duração: 151 min

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Tags: #Bruce Greenwood #Cliff Curtis #Doutor Sono #Ewan McGregor #Jacob Tremblay #Mike Flanagan #Rebecca Ferguson #Stephen King #Zahn McClarnon
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Lucas Nascimento
Escrito por

Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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