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Crítica | Fragmentado

Welcome back, Shyamalan

Lucas Nascimento
Lucas Nascimento Redação
23 de março de 2017 · 5 min de leitura
Crítica | Fragmentado

Não existe uma carreira que melhor pode ser comparada a uma montanha russa do que a de M. Night Shyamalan. Despontando no cinema americano de forma bombástica com O Sexto Sentido, sua filmografia foi atraindo menos elogios a cada novo lançamento, começando com uma recepção morna a Corpo Fechado, Sinais e A Vila, até o diretor cair num limbo de críticas negativas e chacota, com A Dama na Água, Fim dos Tempos, O Último Mestre do Ar e Depois da Terra.

Porém, Shyamalan seguiu tomando as pedradas, pavimentando um caminho mais indie e que fugia de grandes orçamentos e blockbusters. Isso o levou à Blumhouse e o produtor de terror Jason Blum, onde juntos realizaram A Visita, suspense cômico found footage que surgiu como uma luz no fim do túnel para Shyamalan. Agora, praticamente de surpresa, o diretor mantém a parceria com Blum para o longa que definitivamente quebra sua maldição e oferece algo digno de nota com Fragmentado.

A trama gira em torno de Kevin (James McAvoy) um sujeito que sofre um transtorno que possibilita que 23 personalidades diferentes habitem seu corpo e tomem posse sem muito controle. Duas dessas personas mostram-se particularmente perigosas, e acabam raptando três meninas, Casey, Claire e Marcia (vividas por Anya Taylor-Joy, Haley Lu Richardson e Jessica Sula) para oferecê-las como sacrifício a uma entidade conhecida como A Fera, a 24a personalidade de Kevin que é descrita como algo desumano e sobrenatural.

É uma premissa apetitosa e que oferece a chance de Shyamalan retornar à sua boa forma de condutor de suspense. Também responsável pelo roteiro, a história diverte-se ao criar as diferentes personalidades do protagonista e as distintas interações com as três vítimas, em uma narrativa contida e que beneficia-se justamente da imprevisibilidade dos acontecimentos e das ações do protagonista. A inserção de uma psicóloga (vivida pela ótima Betty Buckley) é um recurso elegante e verossímil, servindo ao mesmo tempo para explicar e expandir nosso conhecimento sobre Kevin, assim como auxiliar na sutil transição para o sobrenatural, que funciona perfeitamente aqui, de acordo com todas a regras estabelecidas por essa mitologia.

Sim, quanto menos se souber de Fragmentado, melhor. A personalidade oculta da Fera oferece elementos fantásticos que de início soam deslocados, mas assim que o espectador compreende a natureza da história – e o universo no qual está inserido – tudo de desenrola como uma das melhores twists que Shyamalan já ofereceu ao longo de sua carreira, sendo inclusive uma que não confere o “único” brilho à história. Talvez o único fio narrativo que acabe um pouco mais alongado do que o necessário sejam os flashbacks da personagem de  Casey, que constantemente tiram o foco da trama central, mas que compensam pela catarse inesperada durante o clímax, onde Shyamalan traz uma moral complexa, mas compreensível – e enriquecem ainda mais a ótima performance de Anya Taylor-Joy, que parece destinada a tornar-se um dos grandes nomes de sua geração, saída de sua memorável estreia em A Bruxa.

Como diretor, Shyamalan continua elegante e inventivo, aqui finalmente abraçando novamente um clima de suspense pesado; como não víamos desde a cena da floresta em A Vila ou o terceiro ato de Sinais. Logo no começo, seu jogo de câmera para mostrar Kevin invadindo o carro das meninas e assumindo o volante se dá através de uma sequência de travellings muito bem coordenados e fluidos, com a revelação do sujeito no banco da frente sendo apropriadamente construída através desse suspense, e também da reação amedrontada de Casey. Shyamalan é capaz de construir sequências que evocam o puro terror, especialmente quando somos jogados na cela das meninas e observamos pela fresta da porta o lado externo, apenas esperando para ver qual identidade de Kevin cruzará a porta em seguida, da mesma forma que o clímax que envolve a Fera é um verdadeiro exercício de terror; a forma como a fotografia de Mike Gioulakis usa as sombras e silhuetas é primorosa a fim de capturar a animalização do personagem (há uma tomada magnífica das sombras das 23 escovas de dente do protagonista), e a trilha sonora perturbadora de West Dylan Thordson.

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Mas mais do que uma condução forte e uma história concisa o suficiente, Fragmentado estaria literalmente em frangalhos não fosse o talento de seu protagonista, serviço que felizmente James McAvoy faz maravilhosamente bem. Cada diferente faceta de Kevin que vemos é radicalmente diferente da outra, seja no quieto e meticuloso Dennis, na calculista Patricia, ou no infantil Hedwig, onde o ator literalmente adota uma personalidade de 9 anos de idade – todos variando também em tons de voz, sotaque e características físicas. Isso sem falar, claro, em quando finalmente vemos a Fera que o personagem vinha construindo ao longo da projeção, o que exige uma performance física impressionante e assustadora do ator, que certamente entrega aqui a melhor atuação de sua carreira até agora. É uma pena que muito dificilmente o ator seja lembrado na temporada de prêmios do próximo ano.

Fragmentado é um ótimo retorno à forma para M. Night Shyamalan, que exercita de forma inspiradora sua condução do suspense e terror, explorando uma boa premissa e expandido-a de forma fascinante para subgêneros. Resta esperar pelo que vem à frente, já que a cena final do filme deixa aberta uma porta que definitivamente todos irão querer ver aonde leva.

Fragmentado (Split, EUA – 2017)

Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Haley Lu Richardson, Jessica Sula, Betty Buckley, Izzie Coffey, Sebastian Arcelus, Brad William Henke
Gênero: Suspense
Duração: 117 min

Tags: #Anya Taylor-Joy #Betty Buckley #Fragmentado #Haley Lu Richardson #James McAvoy #M. Night Shyamalan
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Lucas Nascimento
Escrito por

Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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