Sempre que se fala em Frankenstein, a primeira coisa que vem à cabeça das pessoas é a imagem do monstro de pele esverdeada com pregos no pescoço e criado por um cientista louco. Essa imagem se deve a este filme aqui, Frankenstein, de 1931, pois o monstro idealizado no livro homônimo de Mary Shelly é totalmente diferente. O visual que deram a ele no cinema foi tão marcante que, hoje em dia, praticamente, qualquer representação do personagem é inspirado no filme, enquanto a do livro é totalmente desconhecida. Não que o livro seja ruim, muito pelo contrário, mas não estamos falando dele e sim do longa de 1931, que entregou ao Mundo e ao Cinema um terrível monstro fictício, marcando a vida de muitas pessoas.

O filme trata da ambição de um homem, Dr. Henry Frankenstein (Colin Clive), que deseja se colocar no mesmo patamar de Deus. Com isso ele tem a horrenda ideia de criar vida a partir de restos de cadáveres e do poder dos raios da chuva. No entanto, para o espanto de todos, o corpo que ele construiu realmente vira um ser animado, porém, ele age totalmente pelo instinto e por um pouco da inteligência que aparenta ter.

Tem uma cena aqui que merece extrema atenção: estou falando do momento em que o monstro se encontra com uma garotinha perto de um lago. Ela o acalma e tenta se comunicar com ele, e este aparenta gostar da companhia dela, porém, alguns segundos depois, ele a joga no lago pensando que ela iria flutuar sobre a água como as pétalas de uma flor, mas ela morre afogada. É muito interessante que eles tenham optado por mostrar a morte de uma criança como o pivô para a caça ao monstro. Isso é extremamente corajoso. Todavia, isso também mostra que a criatura pode ter assassinado as outras pessoas inocentemente, pois, no caso da garota, ele nunca teve a intenção de machucá-la, mas, por causa da falta de intelecto, ele acaba matando-a. Isso nos deixa com uma certa pena dele, pois, no fim das contas, ele não queria fazer mal algum.

A obra é marcada pela forte influência do Expressionismo alemão, que pode ser notada, por exemplo, na cena de abertura, onde são mostradas imagens distorcidas de variados objetos de teor sinistro, e na cena em que o Dr. Frankenstein rouba os cadáveres do cemitério. O uso dela aqui foi muito bem-vinda, pois assim se conferiu um clima mais sinistro e sobrenatural ao filme.

Como já havia mencionado na introdução e volto a mencionar aqui, o filme sofre diversas alterações em relação ao livro homônimo escrito por Mary Shelly, como a aparência do monstro, o nome do Dr. Frankenstein, vários personagens ausentes e outros criados exclusivamente para o filme, a localidade dos eventos e por aí vai. Porém, nada disso é um desmérito, pois, apesar das alterações, toda a motivação do Dr. Frankenstein é a mesma, e tudo que o filme apresenta de novo é, no mínimo, deleitável.

O monstro de Frankenstein é interpretado por Boris Karloff, que consegue fazer um inigualável trabalho de atuação. Toda a movimentação desengonçada do monstro, as suas expressões, os seus gemidos, é tudo muito convincente, chegando a dar medo. A maquiagem ficou a cargo de Jack Pierce, que, obviamente, fez um esplêndido trabalho na caracterização do monstro. Colin Clive interpreta o Dr. Henry Frankenstein, o cientista que deu vida à horrenda abominação que aterroriza o filme. Logo de início podemos notar que ele não é alguém que está com o juízo perfeito, desde os seus olhos esbugalhados até a sua estranha entonação de voz, que tornou clássica a frase “It’s alive!

A trilha sonora é praticamente inexistente, o que acaba atrapalhando o filme. Muitas cenas ficam sem emoção, salvo apenas algumas em que a mixagem realmente bastou para criar o clima certo, mas, em outras, como na cena onde o monstro aparece pela primeira vez com vida, é bem sentida a falta da trilha sonora.

No fim, Frankenstein é um filme extremamente marcante e corajoso. Famoso pelas excelentes atuações de Colin Clive e Boris Karloff, e por todo cuidado no trabalho dos cenários e da maquiagem, além dos excelentes enquadramentos proporcionados pelo talentoso diretor James Whale.

Frankenstein (Frankenstein, EUA – 1931)

Direção: James Whale
Roteiro: Garrett Fort, Francis Edward Faragoh
Elenco: Boris Karloff, Colin Clive, Dwight Frye, Mae Clarke, Edward Van Sloan
Gênero: Terror 
Duração: 71 min