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Crítica | Grace and Frankie: 6ª Temporada – Amadurecendo na Terceira Idade

É inegável dizer que Grace and Frankie tornou-se uma das obras mais amadas e mais divertidas da Netflix – principalmente depois de um trôpego começo ainda em 2015 que conseguiu se desenrolar em uma competente narrativa movida pela graça e pela química de seu elenco veterano. Agora, são poucas as pessoas que ainda não ouviram falar das aventuras de duas senhoras que descobriram que seus maridos são gays e estavam tendo um caso há mais de dez anos e que, depois da brusca mudança que suas vidas sofreram, foram obrigadas a enterrar as diferenças e compartilhar uma casa de praia – eventualmente construindo uma das amizades mais belas da indústria do entretenimento contemporânea.

E, um ano depois da quase separação de nossas duas protagonistas titulares, a plataforma de streaming nos presenteou com a sexta temporada do show, que configurou-se como uma das melhores e mais envolventes de toda a produção. Na verdade, Jane Fonda e Lily Tomlin provaram mais uma vez que uma boa performance não tem idade – e que até personagens já bastante explorados têm bastante a nos oferecer. Como já é costumeiro, os dramas e as irreverentes situações em que a dupla se envolve permeiam praticamente todos os treze novos episódios; entretanto, Martha Kauffman e Howard J. Morris cuidam para que os múltiplos eventos não mergulhem numa simples e repetitiva fórmula, e sim insurjam como força-motriz para um inesperado amadurecimento.

Basicamente, os criadores provam que comédias coming-of-age nunca se destinaram apenas a um tipo de público e podem vir das mais diversas formas: é a partir dessa premissa as “heroínas” passam a viver separadas uma da outra, ainda mais com o casamento surpresa entre Grace (Fonda) e Nick (Peter Gallagher), o milionário excêntrico que conseguiu conquistar o coração de uma mulher que outrora só desejava reafirmar sua personalidade forte e independente. Invertendo os papéis, chegou a vez de Grace preocupar-se além da conta com Frankie (Tomlin), acreditando com todas as forças que ela está em crise e que está em negação sobre tudo o que aconteceu – quando é o contrário que acontece. Frankie, ainda que queira se desvencilhar de pensamentos mesquinhos, acha que sua melhor amiga tomou uma decisão precipitada (que serve como foreshadowing para os últimos episódios).

De qualquer forma, ambas devem se adaptar a estilos de vida diferentes do que tinham, jurando que permanecerão como parceiras de negócios e que darão a volta por cima depois da obrigatória declaração de falência da Vybrant. E, retornando às raízes que nos conquistaram da primeira vez, o roteiro mescla simplicidade e profundidade em uma análise didática sobre a terceira idade que nunca fica datada, e sim renova-se a cada reviravolta: não é surpresa que, em uma infelicidade física, as duas tenham a arriscada ideia de arquitetar um projeto chamado Rise Up (um vaso sanitário automatizado que ajuda pessoas mais velhas).

Enquanto o pano de fundo rende-se a performances irretocáveis de duas atrizes incríveis, as subtramas ousam explorar ainda mais aqueles que vivem ao redor delas. Como já mencionado, o conceito de “amadurecimento” é o que rege o sexto ciclo da série, e é refratado ao relacionamento de Brianna (June Diane Raphael) e Barry (Peter Cambor), que parecem seguir em frente a passos de formiga até perceberem que precisam também de uma mudança, e de Sol (Sam Waterston) e Robert (Martin Sheen), cujo casamento começa a se nutrir de leves mentiras que se transformam numa bola de neve – culminando num empréstimo chocante de 20 mil dólares e num tratamento de câncer de próstata que os traz de volta para a realidade.

É interessante observar de que forma a habilidosa equipe criativa se recusa a tangenciar temas de bastante importância para a atualidade, mas ao mesmo tempo escolhe cuidadosamente como abordá-los: com suavidade e com uma transgressão narrativa pincelada com doses de humor inteligente e diálogos ácidos e leves que apenas melhoram a cada episódio. É claro que o absurdo também é imprescindível para que todos alcancem o que almejam – porém, é justamente isso que nos mantém tão envolvidos. As mensagens positivas declaradas pela série são tão palpáveis como qualquer outra que recebemos de tantas obras audiovisuais, e ganham forma dentro de uma sinestésica “zona de conforto” repleta de potencial e de enredos infinitos (ora, as protagonistas até mesmo resolvem participar do programa Shark Tank para conseguirem empréstimo para o Rise Up).

Com um season finale bem ritmado, ainda que previsível pelas dicas que a própria história nos entrega, Grace and Frankie retorna para uma divertida sexta temporada que já não nos precisa mais provar nada. De fato, Fonda e Tomlin mais uma vez carregam a maior parte da beleza do show por uma solidez artística inebriante – e não podemos deixar de pensar que assistiríamos às duas fazerem basicamente qualquer coisa o tempo todo.

Grace and Frankie – 6ª Temporada (Idem, Estados Unidos – 2020)

Criado por: Marta Kauffman, Howard J. Morris
Direção: Marta Kauffman, David Warren, Ken Whittingham, John Hoffman, Betty Thomas, Marta Cunningham, Rebecca Asher, Alex Hardcastle
Roteiro: Marta Kauffman, Howard J. Morris, David Budin, Brendan McCarthy, Julie Durk, John Hoffman, Julieanne Smolinski, Alex Burnett
Elenco: Jane Fonda, Lily Tomlin, Sam Waterston, Martin Sheen, Brooklyn Decker, Ethan Embry, June Diane Raphael, Baron Vaughn
Emissora: Netflix
Episódios: 13
Gênero: Comédia
Duração: 30 min.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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