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Grace and Frankie é uma das séries mais amadas da atualidade e a razão é bem óbvia: através de uma narrativa simples, porém coesa e bem estruturada, aliada a um elenco de ponta e adorável, Martha Kauffman e Howard J. Morris praticamente reinventaram o saturado gênero da comédia – algo que poderia cair muito rápido em uma triste ruína, visto que Kauffman, por exemplo, já havia trabalhado em uma das sitcoms mais adoradas de todas, Friends, e repetir seu feito poderia representar uma reciclagem bastante perceptível. Porém, as histórias fabulescas do grupo de amigos nova-iorquinos são deixadas de lado para nos entregar algo mais palpável, recheada com uma irreverência deliciosa e bastante cômica.

Ao chegar ao quinto ano, o show poderia já dar indícios de um cansaço cênico próprio das tragicomédias, mas felizmente não é isso o que acontece. Os criadores conseguem, mais uma vez, reformular sua própria estrutura e adentrar em algumas subvertentes de suma importância para aumentar a complexidade de seus personagens, afastando-os de meros tipos sociais e transformando-os em personas tão críveis e cheias de defeitos como qualquer telespectador. Não é nenhuma surpresa que, durante o período de maturação da série, as protagonistas encontrem diversos obstáculos que repaginam a jornada de redenção de suas antigas vidas em um tour-de-force que culmina em revelações inspiradoras para um futuro agradável e ainda mais envolvente das duas personagens.

Para aqueles que não se recordam, Grace (Jane Fonda) e Frankie (Lily Tomlin), no final da quarta temporada, fugiram do retiro para idosos ao qual seus próprios filhos as convenceram a ir em um carrinho de golfe roubado e voltaram para a casa de praia, recusando-se a serem tratadas como inválidas quando se sentiam plenas o suficiente para continuar vivendo juntas – apesar dos problemas no joelho e dos pontuais lapsos de memória. Porém, ao chegarem lá, ambas percebem que a casa foi vendida e que todos os móveis foram retirados de lá, deixando o local pronto para seu próximo morador. E foi aqui que as coisas terminaram e recomeçaram no quinto ano – e, de uma forma que apenas Fonda, Tomlin e sua incrível química conseguem fazer, encontram um terreno fértil de sobra para nos encantar ainda mais.

Talvez o único problema realmente gritante sejam os primeiros episódios – e não apenas na adição de alguns coadjuvantes bastante descartáveis. RuPaul faz sua aparição como um assessor “faz-tudo” da nova compradora do casarão e é esquecido logo depois que sai de cena. Ele não apenas insurge como um tapa-buraco, mas também delineia-se de forma bastante forçada, contrastando negativamente com a pluralidade sutil e natural das atrizes principais, além de quebrar o ritmo conhecido dos episódios. Até mesmo a narrativa parece se mover com um pouco mais de monotonia, não extraindo o máximo de seu elenco e mantendo-se em uma zona de conforto tristemente arquitetada.

É claro que esse deslize não se sustenta por muito tempo e logo reencontra-se em um patamar considerável para a grande legião de fãs que acompanha a saga das adoráveis e hilárias senhoras desde a época de seu lançamento. Eventualmente, Grace e Frankie recuperam a casa e nutrem um sentimento de descaso em relação à tentativa de manipulação de seus filhos – e como bem conhecemos principalmente Grace, ela não é o que podemos chamar de “mãe natural”, visto que sempre tratou sua prole com o máximo de profissionalismo, e é isso que torna a relação entre eles ainda mais engraçada.

Como se não bastasse, o território construído por Kauffman e Morris também é aproveitado pelos coadjuvantes, principalmente Sol (Sam Waterstonn) e Robert (Martin Sheen), que encontram-se em meio a diversos obstáculos que os afastam da visão maniqueísta que carregávamos conosco nos anos anteriores. Robert lida com sua tentativa de ascensão aos palcos em um musical que sempre adorou, enquanto Sol tenta corroborar com sua crescente solidão e a percepção de que ele realmente não sente falta do meio jurídico, preferindo muito mais permanecer em sua própria casa e desfrutar de sua aposentadoria ao lado do marido. Os dois dividem os holofotes junto com as ex-esposas, em sequências hilariantes – até mesmo um momento em que Frankie e Robert se aproximam, irritados com Sol, e ficam totalmente chapados.

A história caminha para uma incrível e também inesperada resolução, orquestrando-se acerca de uma complicada briga entre as duas melhores amigas, uma soltando farpas contra a outra e levando-as a refletir como suas vidas teriam sido caso não tivessem morado juntas pelos últimos três anos. O episódio em flashback costuma ser bem comum em tragicomédias e, como já era de se esperar, eventualmente apareceria por aqui. Eu poderia dizer que o capítulo se afasta de convencionalismos, mas na verdade ele os utiliza a seu favor e, por mais que não seja uma das melhores entradas da séries, contribui para dar o “desfecho” em cliffhanger que pode significar uma drástica mudança no cotidiano que elas conhecem.

A quinta temporada de Grace and Frankie pode não ser a melhor do show em si, mas não deixa a desejar e fornece novas perspectivas para uma história apaixonante que se revela ter cada vez mais camadas. É claro que, ao chegarmos ao final desse ano, não podemos deixar de sentir um saudosismo crescente que nos prepara, com grande afeto, ao que espera para duas personagens tão amadas quanto essas.

Grace and Frankie – 5ª Temporada (Idem, EUA – 2019)

Criado por: Marta Kauffman, Howard J. Morris
Direção: Rebecca Asher, Ken Whittingham, Alex Hardcastle, Marta Kauffman, Michael Showalter, Randall Keenan Winston, John Hoffman, Kyra Sedgwick, Silver Tree, David Warren
Roteiro: Marta Kauffman, Howard J. Morris, Michael Platt, Ben Siskin, Barry Safchik, Julie Durk, John Hoffman, Alex Kavallierou, Billy Finnegan, Melissa DiNicola, Brooke Wied, Alex Burnett, Julieanne Smolinski, Brenda McCarthy, David Budin
Elenco: Jane Fonda, Lily Tomlin, Sam Waterston, Martin Sheen, Brooklyn Decker, Ethan Embry, June Diane Raphael, Baron Vaughn, Tim Bagley
Emissora: Netflix
Episódios: 13
Gênero: Comédia
Duração: 27 min.  aprox.

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