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Não se faz um longa metragem da noite para o dia. Muito se engana qualquer aspirante a diretor em uma faculdade de cinema crer que poderá simplesmente pular a ordem natural dos fatos. Todo grande diretor e também “pequeno” diretor sempre irá passar pela experiência dos curtas-metragens. Não apenas uma, nem duas, mas diversas vezes.

Pular de narrativas simples de dez a trinta minutos para a organização visual de uma história de mais de uma hora de duração é algo desafiador e amedrontador para todos os profissionais da área. O escopo da produção aumenta, os desafios, os problemas, a logística, o equipamento, o elenco enquanto todos fazem um enorme esforço de manter os nervos nos trinques para que toda a experiência flua bem.

Provavelmente você nunca tenha ouvido falar de Carlos López Estrada e muito provavelmente também não conheça seu filme Ponto Cego que surpreendentemente não figurou na corrida do Oscar em 2019, mesmo sendo pautado em assuntos favoritos da Academia na última década: racismo.

Acumulando nove anos de experiência em direção de curtas, Estrada faz sua grande estreia com um longa metragem de alta qualidade com diversos elementos importantes que são trazidos ao debate e reflexão, embora sofra com momentos de dispersão em sua totalidade.

A vida em Oakland

Escrito por Rafel Casal e Daveed Diggs – que também protagoniza o filme, Ponto Cego traz a história de Collin, um presidiário que conquista sua condicional no último ano de pena. Entretanto, com a liberdade provisória, Collin precisa se manter longe de qualquer problema que possa coloca-lo novamente na prisão. Para sua (in)felicidade, seu melhor amigo Miles é um verdadeiro para-raios de problemas.

Testemunhando um assassinato de um homem em fuga de um policial, o rigor de Collin em se manter na linha e com sua própria integridade física aumenta exponencialmente. Porém, para que consiga conquistar novamente sua liberdade, Collin precisa ficar de olho em Miles antes que ele leve ambos para a cadeia e dessa vez por um bom tempo.

Não há meias palavras em Ponto Cego. O filme é sobre o tópico racial abordando diversos assuntos com foco majoritário na violência policial contra negros nos Estados Unidos. O filme toma um partido e é bastante claro nesse ponto, porém, ao mesmo tempo, consegue trabalhar muitíssimo bem, de forma subjetiva, as constantes agressões de uma sociedade em ponto de ebulição.

O roteiro do longa é escrito de forma esperta. Apenas expõe os fatos da circunstância do conflito do protagonista. Desse modo, rapidamente as coisas se tornam tensas pela tendência natural do espectador já apostar que as coisas acabem mal para Collin. Através do bom trabalho com o coadjuvante Miles, é possível sentir que o perigo sempre ronda Collin que se mostra um preso reabilitado a todo tempo, apesar de não sabermos o crime que cometeu até metade do filme em uma rara sequência de humor que “homenageia” (para não dizer que copia) uma situação brilhante de Homem-Formiga.

O texto é bastante centrado na realidade e, através do cotidiano desses dois homens em suas jornadas de trabalho como homens de mudança – uma metáfora óbvia para a transformação dos personagens –, o espectador conhece seus hábitos, suas famílias e seu modo de pensar. Entre uma das características principais do texto está o rap como forma de expressão. Apesar de ser uma ideia original e corajosa, o uso dentro da narrativa acaba funcionando como uma faca de dois gumes.

Por vezes, temos momentos muito poderosos como durante o clímax – isso, mais por conta do talento de Estrada na direção –, enquanto em diversos outros, consomem tempo expressivo de filme que poderia ser destinado para diálogos. Acredite, os roteiristas fazem sim bons diálogos e alguns bem marcantes assim como ocorre na briga final entre os personagens revelando também o peso racial em Miles, um branco, nascido e criado na periferia de Oakland, adotando trejeitos e gírias que, aos olhos de muitos, simplesmente escancaram seu contraste com os bairros afroamericanos da cidade.

Entretanto, a história de Ponto Cego não se trata somente das enrascadas e conflitos entre Collin e Miles. Através de subtramas envolvendo romances fracassados, casamento e família, temos uma melhor noção do peso dos atos que a dupla comete, já que através da paranoia de Collin sabemos que a reação pode surgir a qualquer momento de modo bastante violento.

Sustentada por alguns clichês, esses pontos são mais fracos, mas servem um bom propósito para acentuar o crescimento dos personagens. Já no caso do assassinato que Collin comete, há esse jogo esperto de não seguir a trilha que muitos outros roteiristas seguiriam. O filme flerta com a paranoia, culpa e perseguição através das imagens – novamente, ponto da direção de Estrada, até o momento de subverter o espectador com uma reviravolta imprevisível.

Entretanto, até chegar ali, o filme perde o fôlego e entra em um marasmo bizarro que, mesmo durando pouco, simplesmente parece uma verdadeira eternidade.

Ponto Sem Nó

Como já apontei diversas vezes, o ponto mais alto do filme é mesmo da direção de Carlos López Estrada. Desde o início do filme, já é possível sacar qual é a linha estética que ele pretende desenvolver ao longo da exibição: a montagem.

Trabalhando com o recurso do split screen – um dos favoritos de Brian De Palma, Estrada já mostra que sabe utilizar muito bem a linguagem cinematográfica a seu favor, elaborando jogos de contrastes na ótima sequência de abertura do filme. O ritmo do primeiro ato é todo pautado em seu poder com a montagem pulsante.

Em jogos rápidos de cortes sucessivos, vemos uma grande influência de Edgar Wright em sua forma de se expressar na arte, além de conseguir elaborar planos fundamentalmente belos que trazem um pouco do seu olhar sobre os elementos da cena. Por exemplo, para mostrar a dissonância entre Collin e seu interesse amoroso, Estrada sempre foca em alguns incensos queimando suavemente em um balcão, até que o protagonista surge trazendo o vento e desequilibrando a doce dança da fumaça.

Com esse leve recurso visual, há toda a síntese de um dos conflitos majoritários da obra. A predileção por enquadramentos centrais também é denotada para facilitar os raccords visuais entre uma cena e outra, com efeitos de transição muito potentes já presentes nos primeiros minutos do filme.

Um exemplo disso é o enquadramento que mira nos olhos dos atores, em um estudo de expressão interessante. Em um corte para o outro, vemos Collin escutando o juiz avisando para ele não se meter em problemas para então acompanharmos o protagonista em um carro lotado de armas e drogas. Simples e eficiente.

Há emprego até mesmo do slow motion transformando os personagens em “fodões” para as mais banais das ações como um simples andar na rua. Já o sentimento de paranoia, como é tão pautado no roteiro, também se dá exclusivamente pelo exercício incrível da montagem de campo/contracampo e inserts de flashbacks que passam tão rápido apenas com tempo o suficiente para o espectador notar o que foi feito.

Estrada é um ótimo narrador visual e cada vez menos temos visto esse talento em filmes tão verborrágicos que chegam aos cinemas todos os anos. É através do poder da união audiovisual que é possível atingir resultados tão eficientes como vemos aqui. Entretanto, por mais que Estrada seja ótimo, há também seus excessos na encenação.

No caso, muito disso afeta o ápice da paranoia de Collin em suas corridas no cemitério. Alucinando ver diversos negros que foram, supostamente, assassinados por policiais, Collin sofre pela culpa de não decidir agir pela Justiça. É um tanto over e brega, mas como estamos no ponto de vista de um protagonista que claramente está em trauma, se torna compreensível – apesar dele encher a tela com esses figurantes vestidos de preto, em luto.

Sem Cegueira

Ponto Cego é mais uma das pérolas de 2018 que muita gente nem ficou sabendo que existe. Com uma curta duração e história eficiente, além de boas interpretações e, obviamente, direção fantástica, é um filme que recomendo bastante para ver. Com toda a certeza supera em muitos níveis alguns dos principais indicados ao Oscar de 2019.

Ponto Cego (Blindspotting, EUA – 2018)

Direção: Carlos López Estrada
Roteiro: Daveed Diggs, Rafael Casal
Elenco: Daveed Diggs, Rafael Casal, Janina Gavankar, Jasmine Jones, Ethan Embry
Gênero: Drama
Duração: 95 minutos.

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