Quando você faz o filme certo, recebe as oportunidades certas. Com David Lynch foi assim. Após experimentar ferrenhamente no surrealista Eraserhead, Lynch foi agraciado com sua primeira produção vinda de um estúdio hollywoodiano. No caso, a Paramount. Mas O Homem Elefante não é sua primeira obra-prima apenas porque Lynch é sim um gênio do Cinema, mas principalmente por causa de um nome muito conhecido, mas que você não fazia ideia de que estava envolvido com essa obra: Mel Brooks.

Brooks já estava de olho em Lynch desde a estreia de Eraserhead no circuito fechado em 1977. O produtor, diretor e ator consagrado pelas comédias que o alçaram ao estrelato é uma das peças principais na história da produção desse drama biográfico. Brooks foi o produtor executivo da obra, mesmo não assinando um bendito crédito do filme – na época, ele temia que as pessoas associassem o drama com uma comédia por conta do seu nome estar enraizado no gênero.

Não fosse por Brooks na produção de O homem Elefante, Lynch não teria sua primeira obra-prima. O produtor peitou os executivos da Paramount exaustivamente para conseguir garantir toda a liberdade que o diretor precisava, apenas concordando que dessa vez Lynch realmente precisava contar uma história com todos os pingos nos is. A junção do rei da comédia com Lynch que viria a ser um mestre surrealista rendeu nada menos que um dos melhores filmes da História do Cinema.

O Médico e o Monstro

Ao contrário do muitos possam imaginar – por se tratar de um filme de David Lynch, O Homem Elefante talvez seja a sua obra mais acessível pelo teor narrativo clássico. O roteiro de Lynch, Eric Bergren e Christopher De Vore adapta o livro de memórias do médico Frederick Treves, o responsável por encontrar o dito Homem Elefante, Joseph Merrick – no filme, o personagem é nomeado como John.

Acompanhamos Treves (interpretado por um ótimo Anthony Hopkins) se aventurando em um pequeno circo itinerante no século XIX. Lá, na área reservada às atrações chamadas Freaks (aberrações de circo), descobre um lugar que promete exibir o Homem Elefante. Tomado pela curiosidade, o médico negocia com o dono da criatura para conseguir vê-la. Firmando negócio, Treves adentra o calabouço e lá conhece a aberração. Fascinado pela criatura, pede para que o homem permita levar o monstro para o hospital central de Londres a fim de examiná-lo.

Pagando a quantia certa, Treves leva o Homem Elefante para descobrir a natureza dos males que afligem o ser. Porém, diagnosticando os tumores que deformam o rapaz, Treves acaba descobrindo que a criatura não é um animal imbecil completo, mas sim um homem chamado John Merrick dotado de plenas faculdades mentais. Logo, a relação torna-se mais complexa e uma amizade passa a florescer. É a chance de o Homem Elefante ser apenas um Homem, abandonando a vida decadente repleta de agressões físicas e psicológicas submetidas pelo seu “dono”. Uma chance de conhecer a alegria pela primeira vez na vida.

Basicamente, o texto de O Homem Elefante é baseado em contrastes para mostrar o melhor e o pior que a humanidade oferece no tratamento de excluídos e deformados. São diversas passagens que acompanham o desenvolvimento de John Merrick em voltar a ser humano, após ser tratado como lixo por tantos anos. Muito disso vem pelo domínio visual de David Lynch sobre sua encenação e da atuação espetacular de John Hurt sob quilos de maquiagens para encarnar o amedrontado deficiente.

Desse modo, temos três linhas de desenvolvimento competentes para as três pontas da narrativa. A primeira e a melhor, trabalha na jornada de John em descobrir a felicidade, mesmo que esta seja constantemente interrompida pelos abusos do porteiro noturno do hospital que explora e assedia o protagonista. Depois, há todo o conflito psicológico de Treves que não consegue se decidir se ele é um homem bom ou mal, pois também, em primeiro momento, explorou a condição bizarra de seu paciente para conquistar prestígio na comunidade médica.

E a terceira, a mais simples, mas não menos perturbadora, envolve a relação parasitária de Bytes, o homem que explorava a condição de Merrick anteriormente para lucrar. Como disse, por ser uma obra de estúdio, concessões foram feitas, mas creio que foram para o melhor. O roteiro de O Homem Elefante frisa esses paralelos entre Bytes e Treves explicitamente, além dos diálogos com Merrick expressarem os sentimentos do protagonista com clareza, seja sua felicidade ou desgraça. Não existem meias palavras, mas ainda assim, a obra não descamba para o brega em momento algum tal força possui a imagem.

Mas nisso também entra o mérito dos roteiristas e da direção de Lynch em saber como iniciar essa jornada. Até encararmos totalmente John, sem ele estar encoberto pelas sombras ou por objetos, leva um bom tempo, despertando uma curiosidade mórbida em todos os espectadores. Desse modo, Lynch realiza um bom experimento extra filme que raramente existe no cinema comercial. Ele transforma o espectador em um personagem da história, sem o menor julgamento. Podemos virar tanto os curiosos sádicos ou as pessoas que, posteriormente, vão até John para conhecer quem é o homem por trás da deformidade física.

Não posso falar por todos, mas acredito que a maioria dos espectadores se concentrem na esfera boa e otimista que o roteiro toca. Na cena mais bela do filme, na qual John visita a casa de Treves e conhece sua esposa, temos outra experimentação que transpõe o espaço fílmico. Curioso pelos retratos de crianças e familiares dos Treves, John mostra o pequeno retrato de sua mãe para Sra. Treves e diz que nunca entendeu como pôde nascer tão horrendo quando é filho de uma moça de face tão angelical. Revela seu desejo de conhecê-la para mostrar quem realmente é e ser amado como nunca foi. Nisso, sra. Treves desanda a chorar e, com quase toda a certeza do mundo, você também se emociona com a dor do personagem.

Um jogo claramente simples. E essa simplicidade é quem comanda O Homem Elefante. Pouco a pouco, a figura do monstro é desconstruída para erguer um verdadeiro homem com desejos (Lynch materializa essa construção do ser e viver através da maquete de St. Phillips), sonhos, frustrações, cultura e, principalmente, gentileza. Essa é uma das poucas características que não é explicitada em diálogos, sobre como John, um homem renegado pelo mundo, é capaz de ter um coração puro e abraçar cada oportunidade bondosa que surge. Por esses muitos contrastes, o personagem se torna muito complexo e afável. Nossa empatia nos força a celebrar cada vitória de John, assim como nos deixa aterrorizados pela ameaça e crueldade do mundo externo.

Aliás, outra boa característica do texto é exibir diversas classes sociais tendo contato com o protagonista. Vemos que independente de cultura e riqueza, homens e mulheres tem o potencial de infligir maldade e bondade em John. Mas Lynch não trabalha com ambiguidades aqui. Cada personagem é taxado de bom e mau logo de cara, seja pela intenção ou pelas atuações que não abrem margem de interpretação. Há certo tralho para mostrar Bytes como uma alma perturbada, mas as ações o definem como antagonista.

Um Gênio colocado à prova

Quem viu Eraserhead sabe que há sim alguma narrativa no meio de tanta experimentação de linguagem. Por isso, apostar que Lynch dominaria a arte da narrativa clássica logo em seu segundo filme seria uma jogada arriscada para muita gente – tanto que o estúdio procurou desesperadamente Terrence Malick para dirigir o projeto. Mas Lynch nunca foi um homem convencional e, aqui, contrariou todas as apostas contrários.

Não só sua direção aprimora e refina o roteiro, mas também consegue ter passagens totalmente surrealistas que se comunicam com clareza pelo espectador. A abertura do filme é um desses segmentos – Mel Brooks brigou feio para preservar as passagens surrealistas da obra. Nela, vemos uma mulher, a mãe de John, sendo atacada violentamente por elefantes (é possível inferir que ela tenha sido violentada pela tromba do animal). Seria a gênese do monstro, um híbrido entre homem e elefante. As fusões do rosto da mulher com dois elefantes deixam a ligação clara, além do horror dela com toda a situação.

De modo onírico, já é transmitido para o espectador que a mãe de John desistiu dele por sua deformidade. Ela mesma seria uma vilã da obra, ainda que romantizada pelo protagonista como um poço de virtudes. Mas isso é subjetivo e subvertido pela ponta oposta da obra, o segmento surrealista que fecha o filme. Nele, temos a mesma mulher com olhares carinhosos, consolando alguém enquanto determina que ninguém morrerá. As passagens dos dois sonhos podem muito bem representar a percepção de mundo que John tinha. No começo, tudo horrível, hostil e violento (as reações mais comuns de terceiros ao enxergarem John) para no fim virar algo transcendental, belo e de significância divina e misteriosa.

O surrealismo também marca o encantamento de John em sonho e realidade. No único sonho explicitado no texto, vemos um pesadelo no qual ele se olha no espelho e só enxerga um elefante. Nem mesmo em sua própria mente, há paz e conforto. Depois, o inverso – novamente, contraste. A breve passagem se dá na realidade quando John aprecia uma peça de teatro pela primeira vez na vida. As criaturas fantasiadas e pirotecnias se misturam em fusões com os olhares maravilhados do protagonista, ligando não somente um fascínio e paixão, mas também uma realidade alternativa na qual John não seria uma aberração de circo, mas um ator prestigiado.

O domínio imagético de Lynch não fica restrito apenas na sua zona de conforto surrealista. O Homem Elefante é uma obra completa em todos os sentidos. Lynch tem seus méritos partilhados com John Hurt e Christopher Tucker (criador da maquiagem). Mesmo debaixo de tantos prostéticos, Hurt consegue transmitir uma sensibilidade fascinante. Toda sua atuação é consistente, mantendo as dificuldades de caminhar e respirar em toda a obra. Porém, o mais fascinante não são esses detalhes, mas sim todo a evolução também transmitida na atuação de Hurt.

No começo, vemos o medo de John que sempre está curvado, olhando para baixo, sem falar, se fingindo de idiota. O conquistar da confiança e amizade entre Treves e John leva certo tempo e, pouco a pouco, Hurt volta a ficar humano, ereto, demonstrando emoções mais complexas. O ator deixa de fazer as vezes de um animal acuado e traumatizado para virar um poeta em movimento, com gestos elegantes e expressivos, mostrando um lado da psique do personagem que não é colocada em diálogos. No fundo, mesmo sabendo que é horrendo, John se sente belo como verdadeiro lorde britânico culto, educado e apreciador da hora do chá.

Sem dúvida alguma, é uma das atuações mais impactantes e humanas que podemos testemunhar no Cinema.

Poucos sabem, mas não somente David Lynch conferiu humanidade para o Homem Elefante. Ele também resgatou um dos melhores cinegrafistas do Cinema de volta para a atividade. Parado por duas décadas, Freddie Francis não fotografa absolutamente nada. Lynch tinha medo que Francis não desse conta do recado, mas era o nome favorito para a produção. Depois de receber um conselho honesto de um produtor – “ninguém se torna um vencedor sendo um bundão”, Lynch decidiu tirar Francis da aposentadoria (e realmente tirou, pois Francis só parou de trabalhar depois de voltar à ativa quando morreu).

A escolha de filmar em preto e branco foi outro perrengue que rendeu dor de cabeça a Mel Brooks com a Paramount. Mas as dificuldades foram superadas – depois de tudo isso, só tenho medo de imaginar como é entrar numa discussão com Brooks -, e o filme acabou finalizado em P&B.

Por conta disso, O Homem Elefante recebeu um dos looks mais interessantes de fotografia em P&B do cinema americano. A começar, a escolha era pertinente para retratar o período vitoriano da Londres do século XIX. Mas ao contrário das grandes obras monocromática da Era de Ouro, Francis e Lynch não glamourizaram o efeito. Aqui, ele é cru, sem filtros, vaselina ou meias de nylon para conferir ares angelicais. Todo o visual rudimentar se assemelha a observar uma fotografia muito antiga em movimento, com todas imperfeições deterioradas.

Ou seja, a foto consegue refletir diversas coisas, mas realmente se trata de uma representação depressiva do sofrimento do protagonista e da pobreza do espírito humano. Também pela fotografia e a abordagem com uma criatura estranha, os diretores flertam com a iluminação do expressionismo alemão. Em particular, mais voltada à visão de Fritz Lang em Metrópolis. Apesar não investir tanto em luzes tão duras, baixas e sombras cruas, vemos Lynch homenagear Lang nas sequências que separam os atos da narrativa.

Essas quebras acontecem sempre com imagens de arquivo, ainda mais deterioradas que a imagem do filme em si. Nelas, vemos fábricas, fornalhas e homens infelizes trabalhando em condições ainda rudimentares de anos pós-Revolução Industrial. A associação com o trabalho de Lang é imediata, mas as imagens conferem complexidade para os verdadeiros monstros que infernizam a vida de John. Através dessas imagens, Lynch mostra uma vida tão miserável e vazia que a única forma daqueles homens se sentirem mais poderosos ou felizes é causar a miséria alheia em um monstro inofensivo. Toda a síndrome de exploração e pequeno poder é sintetizada no personagem do porteiro que apenas é outro covarde.

Assim, Lynch mostra que a miséria do Homem e tão profunda que três pessoas perfeitamente normais se aproveitaram, em algum momento, para benefício próprio, de um deficiente. Em termos de linguagem, Lynch mantém pleno domínio na sua decupagem preocupada, após revelar o rosto de John, em preservar muitos close-ups valorizando a maquiagem, a narrativa e os atores.

O motivo dessa predominância é bastante belo, também conversando com um ponto do texto que é primordial para o personagem: os retratos. Desse modo, com John colecionando retratos de seus diversos amigos, Lynch também coleciona retratos valiosos do elenco. Um dos frames, inclusive, guarda o sonho mais íntimo do protagonista: dormir como uma pessoa normal – ele dorme sentado porque poderia se asfixiar durante o sono por conta da deformidade caso dormisse deitado.

Já em termos de movimentação de câmera, o diretor não arrisca por dois bons motivos: a história se trata de um drama estacionário deprimente e Lynch visa simular o visual de filmes pertencentes a uma fase marcada pela imobilidade da câmera. Logo, todo a postura da câmera, mesmo bastante descritiva, é íntima ao máximo com o assunto. Assim como Treves e nós, ela se torna confidente de John aos poucos. Tanto que quando o personagem cai em desgraça pela segunda vez, toda a postura é subvertida. Os pontos de vista tornam-se reclusos e solitários, quase nunca se aproximando de John. É como se o próprio instrumento cinematográfico se horrorizasse com a crueldade praticada, observando tudo de longe, com a maior frieza possível.

O Pecado Original

Mesmo sendo uma das obras mais valiosas do cinema americano, é consideravelmente difícil assistir a O Homem Elefante. É um filme que leva tão a sério seus contrastes que se torna uma obra belíssima, mas profundamente triste e depressiva. Lynch vai a fundo para mostrar o quão profundo é o poço da decadência do desejo humano. Mas também mostra o quão elevado pode ser o espírito de uma alma tão sofrida como a de John.

No fim, essa obra-prima de David Lynch é também uma bela alegoria do Pecado Original. Isso é mostrado em tela, inclusive, logo no começo do filme com Treves adentrando o circo itinerante. Vemos na profundidade de campo os dizeres The Fruit of the Original Sin com uma maçã mordida e um bebê deformado preservados em um tonel de formol.

No decorrer do filme inteiro observamos justamente as consequências da desobediência ao sagrado: a imperfeição humana – figurativa nos coadjuvantes desprezíveis e literal no físico do bom homem John, do sofrimento humano – em praticamente todos os personagens, e da existência do mal profundamente enraizada no Homem. Ao fim, observamos uma criatura dita como profana e tosca tornar-se imaculada pela sua bondade que ajuda a edificar a bondade e evitar a tentação nos poucos homens bons.

O Homem Elefante (The Elephant Man, EUA – 1980)

Direção: David Lynch
Roteiro: David Lynch, Christopher De Vore, Eric Bergen, Frederick Treves, Ashley Montagu
Elenco: Anthony Hopkins, John Hurt, Anne Bancroft, John Gielgud, Wendy Hiller, Freddie Jones, Dexter Fletcher, Hannah Gordon
Gênero: Drama Biográfico
Duração: 120 minutos